Crítica: musical “Elza” celebra presente político, musical e humano

“Vagueia, devaneia
Já apanhou à beça
Mas pra quem sabe olhar
A flor também é ferida aberta
E não se vê chorar” Chico Buarque

A voz do milênio segundo a BBC de Londres não saiu pela tangente, com uma daquelas respostas burocráticas, quando questionada pelo apresentador Antônio Abujamra no programa “Provocações” (em 2010) sobre o que seria caso não fosse cantora. “Prostituta”, respondeu Elza Soares. O episódio não é abordado no musical “Elza”, mas a força desse gesto é o que rege a dramaturgia desse inquestionável sucesso de público. Pobreza, miséria, fome e luto foram palavras que atravessaram mais de uma vez o caminho da intérprete de timbre único, capaz de arrancar sons da garganta com uma técnica que, segundo ela, teria sido imitada por Louis Armstrong, numa das boas sacadas cômicas da peça. Aliás, o humor também é usado para explicar a voz de Elza. Pois, para além de vividos, os dramas, quando surgem, são todos enfrentados.

Ao escolher sete atrizes para dar vida à protagonista o espetáculo parte de um campo simbólico – sobre a quantidade de vezes em que Elza caiu, mas, como um gato, manteve-se de pé – para alcançar sentidos bastante práticos. Octogenária, a cantora passou por fases distintas na carreira que, sem uma marcação cronológica, revelam aspectos de uma personalidade muito própria, sublinhadas nas singularidades que cada atriz leva para o palco, com movimentos específicos e atuações que valorizam intérprete e interpretada. A única que procura mimetizar a anfitriã é Larissa Luz, e o resultado impressiona. Como Elza toma toda a cena e sua voz preenche os espaços mais recônditos, é acertada a opção de trazer as outras personagens apenas para circundá-la, com uma dramaturgia que sabe realçar, pelo imaginado, o peso da realidade.

Dentre todos os aspectos que contribuem para o êxito do musical, o texto é um dos principais. Além de narrar, as falas conseguem condensar uma história de vida calcada na superação, sem resvalar em clichês baratos, ao abandonar a mania do discurso de autoajuda e oferecer metáforas prenhes de poesia. Na mesma direção, dispensa-se o excesso de recentes produções em favor do essencial. Simbólicos e pontuais os objetos de cena adensam a trama. Cercada por barras de ferro ou com metálicas latas na cabeça, vemos a Elza que transformou o entorno com o que tinha ao seu dispor, dentro e fora de si. Quando aparece, a iluminação também se destaca, pintando as cores das emoções da protagonista. Sem se ater ao passado, o espetáculo celebra o presente e mira o legado da homenageada, que é político, musical e humano.

Raphael Vidigal

Fotos: Léo Aversa/Divulgação.

Ficha Técnica
Elenco: Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz
Direção: Duda Maia
Texto: Vinícius Calderoni
Direção Musical: Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet
Arranjos: Letieres Leite
Idealização e Direção de Produção: Andréa Alves
Cenário: André Cortez
Figurinos: Kika Lopes e Rocio Moure
Iluminação: Renato Machado

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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