Show: Elza Soares (Simplesmente, Elza)

“Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão” Lupicínio Rodrigues

Mulata Assanhada

Tantas vezes pisara naquele ambiente, pacato, resguardado (de influências outras), vazio. Mas naquela noite ontem era diferente. Havia uma mística da mulher perigosa estar ali, desinibida, exposta aos olhares, leniente. Isso sem mencionar o estouro de caras inchadas, rostos e bochechas alargadas que ali estavam à espera dela, a esperar por ti, musa-mina, deusa-pagã, voz-sem-medo.

Eu mesmo já havia sido homenageado naquele palco, e disso guardava um secreto orgulho, secreto nem tanto, pois esperava a oportunidade exata para extraviar minha comoção insana. Refratava os piscos de luz que se punham em pirâmides frente à minha percepção. Tudo lembrança dum dia outro agora posto em pedaços, como a xícara quebrada se cola com cola, desafiando meu nariz empinado.

“Que eu voltei pra me humilhar
É, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir”

Empinada a cantora adensava os vestígios de minha memória dispersa. Quando as cortinas se abriram, os aplausos encobriam o corpo daquela negra, e somente a face – expressão afiada – era possível admirar na completude do verso. Estavam de pé os cílios petulantes, enquanto as pernas caíam num dobrar de toalha, forro de mesa, sobre o plátano arenoso.

Vaso com margarida na superfície, assim permitia-me tocar os cabelos orgulhosos de sensualidade e desdém, as coxas herdadas de África e guerra, a lata d’água platinando os córregos de que se nutre quem sente fome. Música para não enlouquecer, berreiro para consolar a falta de choupo (sombra na cachoeira), chupeta, chance aos irmãos de barro e barril.

“De uma coisa fique certa, amor
A porta vai estar sempre aberta, amor
O meu olhar vai dar uma festa, amor
Na hora em que você chegar”

Desnecessário distar graviolas, gracejos, garça e viola, um sapo dentro do violão corteja a lua na subida ao céu, Elza nua e vestida, infinda, enfim, de cetim, cor de pele mulata assanhada, ruborizando o pentágono em volta da volta dá-se o teu quadril. Remelexos, mexericos, rotações incríveis qual dois amantes, entrelaçados pelo pincel de Egon Schiele (pintor austríaco) quando a morena desprende, desamarra os cadarços, os tendões portentosos da – o clamo instrumento ou voz? – .

Não, desconjuro a tentadora heresia de imaginá-la imitando um baixo. É o baixo quem a imita. Elza possui ritmo próprio, tez, musicalidade, enredo, cor, tonalidade, repressão e supressão de mantimentos, indispensáveis para a sobrevivência dum sentimento caro, não raro saindo à esmola, boca miúda, conforme cor-ação (ato de corar), mas a dela, Elza Soares, simplesmente devora.

O Abraço

Raphael Vidigal

Pintura: “O Abraço”, de Egon Schiele.

Foto: Nayara Lucide.

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Comentários pelo Facebook

15 Comentários

  • Elza Soares será sempre uma pontificante referência musical, meu caro amigo Raphael. Sou fã de sua voz rouca, mágica, única. Abração!

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  • Zim, ontem meu pai encontrou ela na Virtual (BH News), deu um beijo na testa dela e disse: “Vamos amar”, e ela respondeu: “façamos” .. ele contando daquele jeito figura dele!!! hahahaha

    Resposta
  • Fabuloso!!!!

    “Elza nua e vestida, infinda, enfim, de cetim, cor de pele mulata assanhada, ruborizando o pentágono em volta da volta dá-se o teu quadril. Remelexos, mexericos, rotações incríveis qual dois amantes, entrelaçados pelo pincel de Egon Schiele (pintor austríaco) quando a morena desprende, desamarra os cadarços, os tendões portentosos da – o clamo instrumento ou voz? ”

    Só senti falta de falar da escolha por fazer um show mais simples, para sentir o calor dos olhos e sorrisos da platéia, que escuta e espera sua voz ecoar por aquele espaço pequeno para tanta grandeza humana.

    Resposta
  • Já passou dos limites…atingiu o topo e a figura emblemática da Elza virou um carimbo exageradamente surreal! Maravilhosa com tudo isso!

    Resposta
  • Passa por Lobão, Jorge Mautner, Elza Soares, Elba Ramalho e Waldir Silva.

    Resposta
  • Obrigado a todos que comentaram! Elza é sem dúvida uma mulher / cantora incrível!

    Resposta

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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