Entrevista: Elza Soares

“Ai, minhas blusas de linha!
Ai, meus quadris de amapola!
Com a água das cotovias,
Soledad, teu corpo molha,
e deixa o teu coração
em paz, Soledad Montoya.” García Lorca

Entrevista com a cantora do milênio

“Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene”, declama a cantora, ao telefone, os versos que lhe escrevi em homenagem.

Emocionado, confabulo outras considerações elogiosas, a respeito da voz performática de Elza Soares, extremamente intocável e física, mas  logo sou interrompido. Ninguém melhor do que a intérprete, que se apresenta amanhã, dia 2, às 15h, na Savassi, com o show “Deixa a Nêga Gingar”, em razão do Dia Nacional do Samba, para falar da própria garganta. “É um presente de Deus, com ela faço tudo que quero, pois tem malícia, dengo, força, é rouca, agressiva e jocosa”, enumera.

FESTA DO SAMBA
O festival, que acontece pela primeira vez na capital, tem entrada gratuita, com o pedido de se levar um quilo de alimento não perecível, exceto sal e fubá, que serão doados à Associação Beneficente Força do Bem. Além de Elza, a banda Zé da Guiomar, o compositor Dudu Nicácio e a bateria da Portela, além de outras atrações, se apresentam hoje e amanhã. Mestre Affonso, famoso pesquisador do samba, falecido no mês passado, será homenageado.

A data escolhida para a celebração de um dos ritmos mais tradicionais do país coincide com a primeira visita do autor de “Na Baixa do Sapateiro”, entre tantos outros, Ary Barroso, após o sucesso da referida canção, à Bahia. Elza Soares, que estreou no programa de calouros do radialista e apresentador, e após ser achincalhada pela plateia arrancou aplausos desconcertados, afirma: “No meu samba cabe tudo. Misturo rap, funk, jazz, soul, me permito brincar nesse redemoinho sonoro”.

LIBERDADE
Está claro que a cantora do milênio, assim eleita pela BBC de Londres em 2000, segue uma linha menos ortodoxa que a pedida por Paulinho da Viola, na música “Argumento”. “É ótimo também, como eu disse, sou a favor da liberdade”, e responde como melhor sabe, cantarolando: “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim, olha que a rapaziada está sentindo a falta, de um pandeiro, um cavaco e um tamborim, tá legal!”.

Elza extrapola o universo do samba, e na apresentação em Belo Horizonte brinda o público com números do show “Respeita Januários”, em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga. Cantar xote, baião e xaxado não é nenhum desafio para a intérprete. “Tenho a capacidade de estender meu dom para qualquer ritmo, é uma delícia, as pessoas adoram”. E os chamegos ao ‘Rei do Baião’ não tem fim: “As músicas do Gonzagão são lindas, mexem com o corpo todo, do coração aos quadris”, define.

RITMOS
“Miltinho é um ídolo, uma coisa louca”, declara-se Elza, que teve “o privilégio” de gravar três aclamados discos na década de 60 com o cantor, considerado um dos melhores ritmistas de samba do país. Também considerado “Rei do Ritmo”, só que na esfera da canção tipicamente nordestina, o coco, Jackson do Pandeiro é outro saudado: “Amo!”, limita-se.

E não param por aí os passos atrevidos de Elza, uma das únicas “damas do samba” a atravessar a barreira imposta contra o blues e o rock. Cantou com Angela Ro Ro, Lobão, Cássia Eller e Cazuza. “Adoro todos os loucos, me identifico”. Sobre o autor de “Exagerado”, morto em 1990 em decorrência da AIDS, com quem gravou a canção “Milagres”, estende-se: “Era uma pessoa maravilhosa, tão divertida e alegre que Papai do Céu levou para seu lado”, declara.

SEM RESTRIÇÕES 
Perseguida durante o período da ditadura militar no país, principalmente em virtude do relacionamento com o jogador Garrincha (morto em 1983), Elza declarou em entrevista a Antônio Abujamra, no programa ‘Provocações’, da TV Cultura, que “se não fosse cantora, seria prostituta”. Em relação a preconceitos e submissão feminina, conclui: “Espero que mude logo, que a mulher se permita liderar mais ainda, e, principalmente, seja mais amiga uma da outra”. Casamento gay, como não poderia deixar de ser, não escapa ao grito gregário de Elza Soares. “Tem que liberar, minha bandeira é a do amor sem restrições!”.

Elza Soares samba

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 01/12/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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