Crítica: exposição “Assis Horta: Retratos” mostra condição humana

“A poesia começa no momento preciso em que o objeto se torna vítreo, transparente, deixando ver coisas que nenhuma inspeção óptica objetiva poderia revelar.” Rubem Alves

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Fotografia e pintura, enquanto obra de arte, nada têm a ver com registro (embora o programa creia nesta tendência). Mas com ver, enxergar e revelar. Diga-se de passagem, isto se aplica a todas as artes: cinema, literatura, teatro, música, arquitetura e as demais artes plásticas.

No Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até o próximo dia 7 de junho, a exposição “Assis Horta: Retratos”, conta com 200 fotografias 3×4, um painel de 360º da cidade de Diamantina e outras relíquias, como a reprodução do estúdio do artista e objetos de revelação da época. Revelação, aliás, é a palavra-chave para este trabalho. Assis, de 97 anos, conterrâneo de Juscelino Kubitschek e onde Chica da Silva fez história, contribuiu para revelar ao mundo os rostos dos trabalhadores brasileiros que pela primeira vez no país eram contemplados com uma carteira de trabalho, e como diz o programa da exposição, aspiravam à eternidade ao terem as imagens impressas nas décadas de 1930 a 1950.

A classe social da qual descendem não deixa de ser relevante e constitui aspecto fundamental na elaboração das imagens produzidas por Assis Horta. Munido de poucos recursos, e sempre os mesmos e habituais, sendo uma cadeira de palha, um tapete e o fundo de um quadro pintado à mão, o fotógrafo consegue extrair do instante único e num só clique expressões que transmitem sentimentos alheios e além da conotação física e material. Traços que poderiam representar descuido são, na verdade, mais um ponto de elegância estética e preocupação social. A criança inquieta no colo da mãe que não deixa a imagem estática, mas tremida pode se associar, na cabeça do espectador, ao ruído da fome.

A tensão dos músculos em braços rijos e em posição de defesa parecem querer segurar alguma coisa clandestina, impossível, como se aquela conquista proibida fosse um direito arrancado com muito suor e lágrimas, e as cicatrizes ainda estão abertas. O medo e a submissão da mulher diante do marido oficial do exército dão o diagnóstico das relações que se desenrolaram sob o signo do patriarcado e do machismo. O orgulho, a descrença, a vaidade, o susto, a esperança, a ambição, a ansiedade, aparecem nas tintas de Assis Horta que pinta com olhos, músculos e lábios. Cada rosto conta uma história diferente, embora a mesma história humana. Ou antes, a condição humana.

A Democratização do Retrato Fotográfico

Raphael Vidigal

Imagens: Fotografias da exposição.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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