90 anos de Monsueto: o multimídia da década de 50

“Eu vou lhe dar a decisão
Botei na balança, você não pesou
Botei na peneira, você não passou
Mora na filosofia
Pra quê rimar amor e dor?” Monsueto

Elisete Cardoso

“Ziriguidum”; “Castiga”; “Vou botar pra jambrar”! Se ele que inventou essas expressões porque não dizer que Monsueto já era um “multimídia” na década de 50, quando ainda não se usava o termo? Compositor, sambista, pintor, ator, cantor e instrumentista, natural do Morro do Pinto, no Rio de Janeiro, o homem de múltiplos talentos não se constrangia em abraçar a causa da diversidade, muito pelo contrário. Desfilou em várias escolas de samba, sem nunca se comprometer em definitivo com nenhuma, e era muito bem recebido por onde passasse, incluindo-se aí, as artes. Ganhou o prêmio do Museu Nacional de Belas Artes em 1965, por suas pinturas primitivistas. Quanto aos sucessos na música, foram reconhecidos tanto em seu tempo, com gravações de Linda Batista e Marlene, quanto depois, nas regravações de Caetano Veloso, Milton Nascimento e Alaíde Costa, em que se comprova, apesar da verve específica, o poder de transição explicitado nos diferentes parceiros. Já as expressões referidas na abertura do parágrafo, foram propagadas na televisão em um programa de humor, onde novamente dava extensão à personalidade: era o “Comandante”. E comandava com seriedade a gama de talentos que jorrava. Com batuques e o que mais pintasse.

Me deixa em paz (1952) – Monsueto e Airton Amorim
Uma das letras mais fortes do cancioneiro de Monsueto foi também a responsável por seu primeiro sucesso. “Me deixa em paz”, parceria com Airton Amorim lançada pela não menos incisiva Linda Batista trazia os versos: “Se você não me queria/Não devia me procurar/Não devia me iludir/Nem deixar eu me apaixonar/Evitar a dor/É impossível/Evitar esse amor/É muito mais/Você arruinou a minha vida/Me deixa em paz”. Em 10 frases se resumia a música inteira. Além do poder sintético, a dramaticidade da canção foi sublinhada por Alaíde Costa, no histórico álbum “Clube da Esquina”, em dueto com Milton Nascimento. Outro que a regravou, em sintonia com o enredo pesado da letra e a habitual iconoclastia, foi o compositor e cantor Lobão.

A fonte secou (1953) – Monsueto e Mário Barbato
Com o sucesso de “Me deixa em paz”, Monsueto teve músicas incluídas no espetáculo “Fantasia, fantasias”, apresentado no “Copacabana Palace Hotel”. O segundo êxito da lavra de Monsueto, eleito como melhor samba do carnaval de 1953, foi “A fonte secou”, parceria com Mário Barbato lançada por Raul Moreno. Baterista de origem, a canção registra características importantes das obras de Monsueto. Apesar das letras geralmente tristes, que versam sobre amores desfeitos, orgulho, vingança, mágoa e ressentimento, a melodia segue o feitio do samba pra cima, centrado no ritmo. Regravada por Cláudia e Maria Bethânia, reitera versos sintéticos e filosóficos: “Eu não sou água/Pra me tratares assim/Só na hora da sede/É Que procuras por mim…”.

Couro do falecido (1954) – Monsueto e Jorge de Castro
Um dos destaques da discografia de Monsueto como compositor foi lançado pela cantora Marlene, que iria reafirmar a admiração em outras regravações, isso após recusar o samba “A fonte secou”, e se arrepender na sequência. Lançada em 1954, “Couro do falecido”, parceria com Jorge de Castro, exalta a origem de Monsueto no mundo das artes, como percussionista, em letra já carregada de filosofia, marca de seu estilo, onde reflete: “Morre um, para bem de outros/A verdade é essa/Não se pode negar/Um minuto de silêncio/Para o cabrito que morreu/Se hoje a gente samba/É que o couro ele nos deu…”. A música era apresentada no espetáculo “Fantasia, fantasias” do “Copacabana Palace”, e seria substituída no ano seguinte em razão do suicídio de Getúlio Vargas. A possível ligação do enredo mórbido com o acontecimento trágico não caía bem para o momento.

Mora na Filosofia (1955) – Monsueto e Arnaldo Passos
Outra expressão popularizada por Monsueto foi a palavra “mora” no sentido de “perceber”, tudo isso em razão do enorme sucesso de “Mora na Filosofia”, uma das canções mais bem recebidas por público e crítica em todos os tempos. Apesar da origem humilde, como tantos sambistas, exemplos de Cartola, Nelson Cavaquinho e Candeia, Monsueto colhia no dia a dia o sumo de sua poesia, e provava de maneira espontânea e simples a capacidade reflexiva sobre a existência. A canção traz a mistura entre desilusão amorosa e existencialismo tão própria do vocabulário de Monsueto. Lançada por Marlene, foi bisada anos depois com igual frenesi por Caetano Veloso, no histórico e polêmico álbum “Transa”, que teve produção de Jards Macalé.

O lamento da lavadeira (1956) – Monsueto, Nilo Chagas e João Violão
Em 1956, Monsueto alcançava a marca de um sucesso musical por ano, desde 1952, ou seja, cinco anos seguidos lançando canções referência. Em “O lamento da lavadeira” Monsueto exprime, em parceria com Nilo Chagas e João Violão, a preocupação com aspectos mais concretos e menos intimistas da realidade, como as desigualdades sociais. Em letra de caráter mais extenso e narrativo, contraria o estilo tornado famoso até ali. “Ô, dona Maria!/Olha a roupa, dona Maria/Ai, meu deus!/Tomara que não me farte água!/Sabão, um pedacinho assim/A água, um pinguinho assim/O tanque, um tanquinho assim/A roupa, um montão assim/Para lavar a roupa da minha sinhá/Para lavar a roupa da minha sinhá”, dizem os versos que imitam a fala da lavadeira. Mas Monsueto segue inimitável e original. A música foi lançada por Marlene, e regravada por Elza Soares, Pery Ribeiro e Dudu Nobre.

Ziriguidum (1961) – Monsueto
Em 1961, Monsueto reaparece nas paradas de sucesso, com uma das poucas canções em que não apresenta parceiros. “Ziriguidum” traz no título uma das expressões tornadas populares por ele no programa de humor “Noites Cariocas” no qual interpretava o personagem “Comandante” na TV Rio, desde 1959. Já que não apresentava parceiros na autoria, a música foi lançada desta maneira, afinal Monsueto não era do tipo que andava sozinho, desta vez com a companhia de Elza Soares, no filme “Briga, Mulher e Samba”, de Sanin Cherques, e que contava no elenco, ainda, com Violeta Ferraz, Ronaldo Lupo e Matinhos. O sentido rítmico da expressão é utilizado pelos cantores e explorado, com excelência, na letra da música.

Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo (1962) – Monsueto e José Batista
Monsueto lançou um único disco de carreira, “Mora Na Filosofia dos Sambas de Monsueto” em 1962. A multiplicidade de talentos, nesse sentido, talvez o tenha atrapalhado um pouco a ter uma trajetória mais regular no universo fonográfico. Mas Monsueto não era de linha reta e muito menos de mercado do que de arte. A sinuosidade das composições está atestada, novamente, no conjunto rítmico desta canção, “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”, e na ousadia da letra logo captada por Caetano Veloso, que a regravou no emblemático álbum “Araçá Azul”. Monsueto muda novamente a trajetória natural dos fatos, da direção, e converge para uma filosofia mais alegre, bem resolvida, em que exalta a liberdade feminina e dá um chega pra lá nos preconceitos morais daquele e de vários tempos. “Eu quero essa mulher assim mesmo/Alucinada/Eu quero essa mulher assim mesmo/Descabelada/Eu quero essa mulher assim mesmo/Embriagada/Eu quero essa mulher assim mesmo/Desafinada”.

Chica da Silva (1963) – Anescar do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira
Carnavalesco de primeira linha e horas a fio, Monsueto era também um grande intérprete, e foi o responsável por cantar na avenida o samba enredo do Salgueiro no ano de 1963, o histórico e inesquecível “Chica da Silva”, de autoria de Anescar do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira. A letra revive a trajetória de uma das mais simbólicas personagens do Brasil, a escrava mineira Chica da Silva, natural do Serro e que viveu em Diamantina, alforriada após se casar e ter treze filhos com o rico contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica aparece em outras letras do cancioneiro brasileiro, como, por exemplo, na música de Jorge Ben. Embora tenha desfilado neste ano pelo Salgueiro, Monsueto nunca se vinculou a nenhuma escola de samba específica, sendo bem recebido em várias delas.

A Tonga da Mironga do Kabuletê (1971) – Vinicius de Moraes e Toquinho
Monsueto foi convidado, em 1971, por Vinicius de Moraes e Toquinho, autores da música, para uma esdrúxula participação em “A Tonga da Mironga do Kabuletê”: emitir sons ininteligíveis. Sabendo ser um convite de poeta para poeta, é claro que Monsueto aceitou. Hábil inventor de expressões carregadas de influência africana, mas, sobretudo, de humor e ironia, ele estava em casa quando se intrometia nos versos de “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, como o haviam pedido. E é para lá, nesse lugar estranho e desconhecido, que Vinicius de Moraes e Toquinho, pretendiam mandar com inteligência aqueles que atentavam contra tal princípio neste momento triste da política brasileira, abafada sobre o regime ditatorial que permaneceu de 1964 até 1985. Monsueto, ao contrário, era um homem livre, e legou, com alegria, este princípio e este ritmo.

Monsueto-90

Raphael Vidigal

Fotos: Cena do filme na “Corda Bamba”, de Eurides Ramos. Na imagem, Monsueto contracena com a cantora Elizeth Cardoso e conjunto musical. Na foto seguinte, montagem do cantor com uma pintura de sua autoria ao fundo e capa de coletânea.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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