Correntes

“Mas os retratos nunca são reais. Devia-se tirar o retrato das pessoas como as flores, depois da tempestade. É quando são mais belas, depois de terem sofrido.” Augustina Bessa-Luís

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O nosso amor começou com Charlie Chaplin.
Depois de um tempo apareceu Oscar Wilde, e logo em seguida, Caio Fernando Abreu.
E nós ali, tateando no escuro, tentando ver o que era ficção e o que era eu você nós dois.
Nunca tivemos certeza, mas acho que por algum momento chegamos a sentir nós dois naquele dia.
Não foi quando sua perna tocou a minha nem quando eu ri nervosamente tentando disfarçar o meu estado já alterado no final da noite.
Talvez tenha sido na hora de ir embora.
De nos despedirmos.
E aquela mão ficou no céu entre nós tentando se prender a correntes invisíveis.
Correntes que depois nos aprisionariam e nos jogariam nisso que chamamos fim, acontecimento ou separação.
Ou mesma parte da vida. Prosseguimento da vida, eu diria.
A sua vida seguiu e eu nunca mais tive notícias.
Mas ainda guardo nesse céu invisível que há entre nós dois um pedaço de corrente que nos prendeu e infelizmente hoje só me resta liberdade.

Caminhos
Um dia você vai perceber,
Que as coisas pelas quais você briga não têm o menor sentido
e o amor já não adianta,
o amor não basta nada.
Pois nessa vida insuficiente completar o vão do outro é mera tentativa brusca-tola.
De repente o único caminho é insalubre,
Dilacerações, despedidas constantes, alegria em gotas,
Amor aos borbotões, mas amor aos borrões.

Enterro
eu vou me despedir
e agradecer pelo tempo que passei com você
e lamentar eternamente tudo que aconteceu entre nós
e acabou desembocando nesse prejuízo enorme para duas almas tão pacientes e sedentas de amor do outro
mas mesmo assim não suportarei a dor e vou sofrer durante muito tempo
talvez um tempo que nunca acabe, nunca passe definitivamente e vai estar sempre ilustrado nos pequenos gestos, nos pequenos tatos, nas pequenas lembranças
que fazem uma memória afeita à passagem ser eterna
em alguns corações
e vou ficar muito tempo sonhando, talvez imaginando como teria sido
e rezar vou para não te encontrar em alguma esquina com seu qualquer
seu novo, protetor e confidente
porque todas essas coisas vistas machucam muito mais do que sublimadas num inconsciente piedoso
então só te desejarei ver-te de novo no meu enterro
e não prometo confiança
e não prometo solidariedade
e não prometo nem pedir pela sua felicidade alheia
estarei morto.

Quinta
Era uma quinta-feira com gosto de sexta e cheiro de domingo.
Cheiro de chuva quente.
Você me disse aquilo e eu não resisti.
É incrível a forma como as formas acabam sempre fugindo ao meu controle.
E eu não consigo nunca ficar muito tempo na defensiva.
E acabo sempre me desentregando desse jeito estúpido, infantil e imaturo.
E por isso mesmo, doloroso.
Você me disse aquilo e eu não resisti.
E começou a eclodir da minha mente tudo que eu queria falar mas não podia tudo que eu devia sentir mas não podia tudo que eu queria ser mas não deveria.
Porque eu deveria sempre lembrar que quando essas coisas começam a aparecer e a gente começa a revelá-las é porque está perto do fim.
Mas você me disse aquilo e eu não resisti.
E comecei a falar tudo que eu queria falar mas não podia tudo que eu queria sentir mas não sentiria tudo que eu queria que você fosse pra mim mas nunca seria.
E no momento seguinte você iria embora me deixando fumar aquele cigarro vagabundo à espera do próximo domingo, lembrando aquele dia.
Era uma quinta-feira com gosto de sexta e cheiro de domingo.
Seu cheiro molhado, emprestado, de chuva quente.

claude-monet

Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de Claude Monet.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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