Centenários 2016: Manoel de Barros deu grandeza infantil à poesia

“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (…) Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!” Manoel de Barros

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Não é fácil falar de um poeta quando ele mesmo é a matéria prima de seu trabalho e costuma dominar como ninguém as palavras. Longe de ser o escritor “sem estilo” como Millôr Fernandes se autodenominou, Manoel de Barros atingiu em sua obra o estado que Clarice Lispector usou para se referir a pintores como Joan Miró e Pablo Picasso, “tornar-se puro”. Para ele a poesia era a “infância da língua”, o que o levou a constatar os absurdos e contradições da existência sem o obscurantismo e desilusão de um Franz Kafka ou de Samuel Beckett, mas a partir da curiosidade de quem descobre e sente através do susto uma grande excitação. A aparente ingenuidade que emana de suas criações emerge de uma complexa percepção inerente à tenra idade, desfeita de conceitos, tabus, morais, certezas e aberta para a dúvida e o espanto, universo onde tudo é possível e nada se proíbe, nem o sórdido nem o sublime.

O que não impediu Barros de registrar as degradações de seu Pantanal, do mundo e o caos harmônico com que a natureza concebe e mantém a vida. Desde seu primeiro livro, que ele considerava o melhor de todos, “Poemas Concebidos Sem Pecado”, existe a conotação social, o dedo levantado contra as intempéries do planeta destinado aos adultos, mas sempre com o rigor de uma criança. O próprio Manoel de Barros afirmava que escreveu “a vida inteira o mesmo livro”, e que mais do que defeito era esta uma condição de todo escritor. É verdade que podemos atestar as inúmeras abordagens, matizes temáticos e exercícios léxicos e estéticos que contemplam as poesias de Manoel de Barros, “poeta do absurdo”, “poeta do nada”, “poeta das miudezas”, aquele que tinha “orgulho do imprestável”, e que foi, sobretudo, ele, tanto ou mais quanto outra figura louvável, o irreverente Rubem Alves, a inferir que o sabor de toda uma vida pode estar mais na formiga que nos saberes contábeis.

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Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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