Bisneto de indígenas, Guinga chega aos 70 anos celebrando a miscigenação

*por Raphael Vidigal

“Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol” Aldir Blanc

Quem vê esse homem feito, de semblante mouro e tez queimada pelo sol carioca, não imagina que, na infância, a sua pele era tão branca que a tia o chamava de “gringo”. Ao que ele remendava: “Guinga!”. Àqueles apegados à gramática, pode parecer que o garoto falava errado, mas, na verdade, o que fazia era inventar, mania que o acompanharia durante toda a vida, inclusive com o nome artístico que criou para si. Agora, ao completar 70 anos, Guinga não tem medo de errar: “Não mudei nada”, garante. Em seguida, reconhece: “Os desejos são iguais, e, as ilusões, diferentes. A cabeça continua boa. O corpo já não é o mesmo, é inegável”, pondera, antes de interromper a entrevista. O motivo é uma recente lesão no músculo rotador do ombro, que acabou rompido e o obrigou a uma cirurgia. À base de cortisona, anti-inflamatórios e bolsa de água quente, ele admite que “a dor é violenta”. “Não dá nem para pentear o cabelo, e preciso tocar violão”.

Nada disso o impediu de correr 3km na areia da praia do Leblon e voltar caminhando. “Estou arrebentado, antes fazia isso com um pé nas costas”. Os hábitos colaboraram para manter o vigor. Guinga nunca foi chegado a bebidas alcoólicas e jamais colocou um cigarro na boca. O esporte o “permitiu envelhecer com integridade física”. “Procuro levar a vida com dignidade e disciplina. Não quero passar por um garoto de 30, mas ainda jogo futebol no meio de gente onde sou o mais velho. Tem rapazes de 18 a 24 anos”, orgulha-se. A tradicional pelada foi fundada por ele mesmo há 36 anos. A bola nos pés transformou o vascaíno Guinga em companheiro do ilustre torcedor do Fluminense, Chico Buarque. Juntos, eles compuseram uma única canção, que demorou mais do que o tempo regulamentar para ser finalizada. Quando nasceu, “Você, Você”, dispensou acréscimos.

Encontro. Chico e Guinga se conheciam desde 1973. Na década de 1990, eles dividiam o campo do Politheama, escrete montado pelo autor de “Apesar de Você”, que reunia, por exemplo, Carlinhos Vergueiro, Fagner, Hyldon e Sombrinha. Mas Guinga tinha vergonha de falar com o anfitrião. Próximo de Vergueiro, ele confessou o desejo de uma aproximação. “Guinga! É o Chico!”, exclamou uma inconfundível voz certo dia no telefone. A partir daí, eles se comprometeram “a uma parceirada”, expõe Guinga. Mais do que nove meses, a melodia gestou durante sete anos na cabeça de Chico. A ligação, quando chegou, tinha ares de preocupação. “Ele queria saber se eu tinha dado a música para alguém”, recorda o instrumentista. Pronta, a valsa integrou “As Cidades” (1998), premiado com disco de ouro pelas 500 mil cópias vendidas, antes de ser regravada por Leila Pinheiro e pelo próprio Guinga.

Pouco antes, em 1996, Chico interpretara “Impressionados”, de seu futuro parceiro com Aldir Blanc. A música prestava tributo a ícones da pintura impressionista, como Van Gogh, Gauguin e Cézanne. “Chico é um dos amigos que fiz na música. Um cara totalmente do bem, honesto, simples. Nossa amizade está sacramentada”, exalta. Com um vasto cartel de canções, Guinga não se atreve a eleger a preferida. “São todas iguais no meu coração”, assegura. Bisneto de indígenas, o violonista sente “um pé na ancestralidade” em algumas de suas quase 300 composições. “Em relação a isso, estou bem servido. Tenho ascendência de negro, índio, espanhol, gaúcho, paraibano e carioca. É a miscigenação perfeita”, celebra, e se define como um “eterno sonhador”, apesar dos pesares que assolam o país. “Tudo vai passar. Prefiro errar com os otimistas a acertar com os pessimistas”, destaca.

Livre. Durante três décadas, Guinga exerceu a odontologia, paralelamente à música. A aposentadoria dos consultórios veio em 2005. “Minha vida sempre foi a de um compositor, eu queria deixar uma obra e, para isso, precisava não fazer concessões. Fui trabalhar como dentista para sustentar a minha família e tocar com quem eu quisesse”, diz. Ele afirma ter composto metade de sua obra enquanto lidava com a saúde bucal dos pacientes. “Eu trabalhava muito, cerca de 13 horas por dia, mas não gostava de dormir. Dormia, em média, de 3 horas a 2 horas e meia”, conta. Nessa época de pandemia, em que, segundo Guinga, “está todo mundo igual aposentado”, ele tem dormido “no máximo 4 horas e meia”, e segue compondo. “É lógico que eu também queria ganhar dinheiro e ficar famoso, não sou louco, mas ficar livre desse compromisso que muitos artistas têm com o sucesso, foi o que me possibilitou não me submeter a bater na porta da TV Globo, pedir favor ao diretor da gravadora Som Livre, choramingar. Não sou super famoso, mas estou feliz. É o preço que se paga por não fazer concessões”, reflete.

Em seu hoje consagrado violão, passeiam influências do choro, da seresta, da valsa e até da música erudita. O pai era fã do romantismo de Augusto Calheiros (1891-1956), e a mãe vivia com o ouvido colado no rádio. Autor de melodias requintadas para clássicos da canção brasileira, como “Bolero de Satã”, “Punhal”, ambas com Paulo César Pinheiro, “Catavento e Girassol” e “Chá de Panela”, feitas com Aldir Blanc (1946-2020), o músico teve que incluir perrengues em sua “conta de artista”. No ano passado, ele ficou dois meses sem plano de saúde. A situação devolve à memória o drama vivido pelo parceiro Aldir Blanc que, antes de morrer, vítima de Covid-19, precisou receber uma vaquinha virtual, promovida por amigos, familiares e fãs, para conseguir ser transferido de um hospital público para uma unidade particular. “Vida de artista é uma gangorra, a não ser para os muito famosos. Eu não reclamo porque ela nunca me derrubou”, declara Guinga.

União. Ele, no entanto, reclama da “falta de atitude das autoridades para socorrer a classe nesse período de pandemia”. “Parece que, finalmente, estão tomando algumas medidas, mas ainda é tudo muito insipiente. Como a pessoa paga aluguel, se alimenta, realiza seus projetos, ganhando R$1.200 para viver o resto do ano? A cultura está muito mal colocada nesse governo, apesar de sempre ter sido tratada como supérflua”, lamenta. Regina Duarte, que foi Secretária de Cultura por menos de três meses, chegou a anunciar um auxílio de R$600 para os trabalhadores informais do setor. Após a sua saída do cargo, o Senado aprovou a Lei Aldir Blanc, de autoria da deputada Benedita da Silva, do PT, que destina R$3 bilhões para a Cultura. Com Aldir, Guinga estreou em disco no ano de 1991, com “Simples e Absurdo”, que trazia 11 composições da dupla, e as participações de Chico Buarque, Leny Andrade, Ivan Lins, Zé Renato e Leila Pinheiro, dentre outros.

Em 1996, Leila dedicaria “Catavento e Girassol” ao repertório de Guinga e Aldir. Nesse meio-tempo, “Delírio Carioca”, de 1993, agregava mais 12 parcerias dos compositores, casos de “Saci” e “Canção do Lobisomem”. “A vaga do Aldir Blanc vai estar sempre em aberto porque é impossível preencher. Aldir só tem um, como Noel (Rosa), Chico (Buarque), Caetano (Veloso), Gilberto Gil, Milton (Nascimento), Tom (Jobim)”, enumera Guinga. “Perdi um amigo, um irmão e um parceiro genial que me ajudou muito”, completa. Ele revela que só gravou os seis primeiros discos graças à determinação do letrista de “O Bêbado e a Equilibrista”, que, com o produtor Paulinho Albuquerque (1942-2006), os músicos Ivan Lins e Vítor Martins, e o sociólogo Betinho (1935-1997), liderou “um mutirão para concretizar esse sonho”.

Feminino. Acompanhando João Nogueira (1941-2000), Guinga chamou a atenção de um sambista pra lá de considerado. Impressionado com a qualidade do violonista, Cartola (1908-1980) o convocou para gravar “As Rosas Não Falam”, no icônico disco de 1976, em que aparecia na capa ao lado de sua esposa, Zica, com quem fundara, dois anos antes, o afamado bar Zicartola. Era o início de uma carreira musical destinada à eternidade. “Cartola reconheceu meu valor e me deu oportunidade. Ficamos amigos, eu frequentava a casa dele”, recorda Guinga. Inserido no meio do samba, ele também travaria amizade com a mineira Clara Nunes (1942-1983). Na ocasião, já era parceiro de Paulo César Pinheiro, marido de Clara, com quem compôs “Conversa com o Coração” e “Maldição de Ravel”, lançadas pelo MPB-4.

A consagração aconteceria com “Bolero de Satã”, outra parceria com Pinheiro, registrada por ninguém menos do que Elis Regina (1945-1982), que convidou para a faixa o ídolo Cauby Peixoto (1931-2016). “Ser gravado pela Elis não é brincadeira, foi um upgrade na minha carreira”, constata. Na sequência, outras cantoras repetiriam o feito, dentro e fora do Brasil, como Fátima Guedes, Miúcha, Paula Santoro, a portuguesa Maria João, as italianas Barbara Casini e Maria Pia de Vito, e a norte-americana Esperanza Spalding. Em 2014, Mônica Salmaso recuperou preciosidades de Guinga e Paulo César Pinheiro com o aclamado álbum “Corpo de Baile”. Há dois anos, Izabel Padovani remodelou as criações de Guinga em um concerto com a Orquestra à Base de Sopro de Curitiba, que rendeu CD e DVD. A ligação com diversas intérpretes – ao longo da trajetória, ele tocou com Beth Carvalho (1946-2019), Elza Soares, Alaíde Costa e Nana Caymmi –, motivou o espetáculo “Guinga e as Vozes Femininas”, interrompido em virtude da pandemia de coronavírus. A última apresentação foi virtual, em março, pelo YouTube.

Presente. Guinga permanece em plena atividade. Em abril de 2019, ele esteve pela primeira vez no Japão, para uma série de quatro shows nas cidades de Tóquio e Osaka. Viajar até o outro lado do mundo não foi nada fácil, afinal ele nunca fez questão de esconder o pavor de voar. O trajeto aéreo passou por Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e durou 25 horas e meia. “Odeio avião, mas já viajei tanto que parece ironia. Só na Itália, estive 79 vezes”, contabiliza. A aventura através do Oriente resultou em “Japan Tour 2019”, disco com Mônica Salmaso, o clarinetista Nailor Proveta e o flautista Teco Cardoso, que apresenta seis faixas ao vivo e outras seis registradas em estúdio, todas de Guinga.

O álbum chega ao Brasil por meio da gravadora Biscoito Fino e tem arte gráfica assinada pela mineira Leonora Weissmann. Thiago Amud e Anna Paes surgem como os parceiros mais recentes, em “Contenda” e “Mello Baloeiro”, respectivamente. Para completar, o entrevistado deu o ar da graça no disco de estreia do duo D’Aguera, formado pela cantora Beatriz Tomaz e pelo violonista e cantor Ricardo Radik, na faixa “Visão de Cego”, dele e de Aldir. “Tudo isso só me honra e prova que a minha música foi criando raízes, se movimentando e se estendendo para as gerações mais novas. O meu projeto, em primeiro lugar, é viver. Depois, é compor e compartilhar o amor com quem me ama”, finaliza.

“Bolero de Satã” (1979) – Guinga e Paulo César Pinheiro
Levada à casa de João Nogueira pelo amigo Paulo César Pinheiro, a cantora Elis Regina ganhou de presente a música “Bolero de Satã”, com letra de Pinheiro e melodia de Guinga. Elis decidiu convidar para a faixa, gravada no álbum “Essa Mulher” (1979), Cauby Peixoto, que ela considerava o melhor cantor do Brasil. Como se sabe, Elis tinha um temperamento competitivo e era avessa a dividir os holofotes. Ela não gostava de duetos. De fato, o que se viu foi outra coisa, mesmo com seu ídolo maior. Ao longo dos 3 min 25s da canção, a presença de Cauby se resume a 32 segundos, sendo que em boa parte deles Elis faz vocalises ao fundo, e, nos cinco segundos finais, os dois, enfim, unem suas belas vozes.

“Chá de Panela” (1996) – Aldir Blanc e Guinga
“Chá de Panela” é uma homenagem da dupla Aldir Blanc e Guinga ao mais inventivo e irreverente compositor instrumental brasileiro. Hermeto Pascoal, conhecido por tirar som do impossível e até do possível é reverenciado nesta obra, pela qual o autor da melodia, Guinga, recebeu o “Prêmio Sharp” no ano de seu lançamento, em 1996. Aldir Blanc usa e abusa de sua habitual categoria e liberdade para rechear a letra ao sabor da criatividade de Hermeto. A música foi registrada por Leila Pinheiro no álbum “Catavento e Girassol”, todo dedicado ao trabalho de parceria entre Guinga e Aldir. Entre os ensinamentos de Hermeto que Aldir captura, salta aos olhos este: “Vi que música é tudo que avoa e rasga o chão”, entre outras deliciosas impropriedades. Belo uso da panela e do chá.

Fotos: Manfred Pollert/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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