Nasi: ‘Bestas feras, pessoas escrotas e ignorantes saíram do armário’

*por Raphael Vidigal

“Farei jorrar tua ira em que estou oprimida
Sobre o instrumento mau dos teus atos malvados
E vou torcer tão forte essa árvore maldita
Que não mais nascerão seus brotos empesteados!” Baudelaire

Após um hiato de 13 anos, a banda colocou na praça o seu 12º álbum autoral e decidiu batizá-lo com o seu próprio nome, algo, até então, inédito em sua discografia. Essas coincidências atendem tanto ao Ira! quanto aos ingleses do The Who, que, nas palavras do próprio Nasi, 58, “sempre foi a maior influência” do grupo paulistano responsável por clássicos do rock nacional como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Flores em Você”, “Eu Quero Sempre Mais”, dentre outras. Além do The Who, o vocalista cita Black Sabbath, Led Zeppelin e The Clash como exemplos de grandes bandas que lançaram discos com sua alcunha.

“Sem dizer também que é um título que reflete os tempos que vivemos, tanto de ira justificada quanto irracional. É um período de choque, conflito, embate”, diz Nasi, que elenca um derradeiro motivo para o batismo. “É para firmar essa nova fase da banda”, completa. “Ira” (cujo detalhe diferencial é a falta de exclamação) apresenta 10 faixas inéditas – todas escritas pelo guitarrista Edgard Scandurra, algumas em parceria –, o que não acontecia desde “Invisível DJ” (2007). Nesse ínterim, o conjunto passou sete anos separado e protagonizou barracos públicos, com direito a matérias sensacionalistas exibidas no programa “Fantástico”, da Rede Globo. Ao mesmo tempo, os integrantes desenvolveram as suas carreiras individuais.

Reencontro. O retornou trouxe de volta os fundadores Nasi e Scandurra, com as inclusões do baterista Evaristo Pádua e do baixista Johnny Boy nos lugares de André Jung e Ricardo Gaspa. Com a nova formação, o projeto revisionista “Ira! Folk”, de 2017, foi filmado no Citibank Hall, em São Paulo, e rendeu CD e DVD, com as participações de Fernanda Takai e Yamandu Costa. “As pessoas precisam entender que coisas boas não se fazem com pressa”, afirma Nasi. A favor da trupe, pesou o fato de o novo trabalho ter saído de forma independente, “sem pressão de gravadora, como tivemos muitas vezes”, pontua. A produção musical ficou a cargo de Apollo 9, colaborador de Otto, Céu, Marina Lima e outros.

“Esse disco deixa claro que, sem dúvida nenhuma, o Ira! precisava de uma mudança. Se for comparar com o ‘Invisível DJ’ existe um abismo. Não que ele seja ruim, é um álbum irregular, mas não tem alma. Esse de agora tem”, garante Nasi. “A impressão sentida ao finalizar o disco” acabou corroborada com as primeiras críticas publicadas na imprensa, que comparavam “Ira” à arrebatadora sequência dos três primeiros álbuns gravados pelo grupo na década de 1980. “Apesar dessa longa pausa, conseguimos mostrar que o Ira! não voltou só para fazer shows, mas porque ainda temos o que dizer e tesão para fazer”, salienta o intérprete.

Exílio. A pandemia do novo coronavírus, que, oficialmente, já matou mais de 36 mil brasileiros – a despeito de uma manobra do governo federal para esconder o número de óbitos –, impediu o Ira! de promover uma turnê para divulgar a lavra mais recente de canções. O apelo dos fãs tampouco conseguiu mover a roda das incensadas lives para o quarteto. “Para a gente está difícil, estamos bem rígidos com essa quarentena, não estamos indo na casa um do outro e a gente não dispõe de uma tecnologia para tocar simultaneamente, sem delay (atraso no som). É uma tecnologia que custa mais de R$ 40 mil e não temos essa grana no momento”, informa Nasi.

Ele observa que “se alguma empresa ou site aparecer para financiar”, o grupo fará a live, mas aponta outros problemas de logística. “O nosso baterista mora em Passos, no interior de Minas, e o baixista está em quarentena no Guarujá (município de São Paulo). Não é legal para a gente agora ir em um estúdio, um ambiente fechado, onde várias pessoas circulam”, pondera. No perfil de Nasi no Instagram, usado para fins profissionais, ele promove bate-papos, discoteca uma vez por mês a bordo de sua coleção de discos, cheia de relíquias, aproveita esse vasto arquivo musical para oferecer dicas aos internautas e está “até cozinhando”, diverte-se. “Esse contato com o público nos ajuda a manter a sanidade mental”, declara. Scandurra também tem feito apresentações online.

Tropa. Flechas e lanças coloridas emergem de um cubo branco. A imagem foi apresentada a Nasi por Scandurra durante uma conversa dentro do carro. “Na mesma hora, eu falei que poderia ser a capa do nosso disco”, relembra Nasi. Acontece que o grupo “estava praticamente fechado com um grande artista plástico de São Paulo, da nossa geração, que teria feito uma capa incrível”, revela o cantor. Graças ao destino, houve uma reviravolta no desfecho. E, claro, “pela peculiaridade desta pessoa” – que Nasi prefere não dizer quem é, a fim de “não ferir ninguém” – ter aversão a telefones celulares. A espera por um retorno foi preenchida com a obra de Mayla Goerish, que, não bastasse ser artista plástica, ainda era baixista.

“Ela poderia bolar outras ideias para a capa, mas fechamos nessa que já estava pronta”, conta Nasi. A concepção gráfica também contou com Guilherme Pacola, outro músico e artista plástico da nova geração, fato que Nasi festeja. Para completar, ele percebeu, na ilustração, um certo tipo de referência a “Mulheres à Frente da Tropa”, uma das novidades mais emblemáticas do lançamento. Com versos como “Ouçam os gritos das ruas/ Peito à mostra, vozes agudas/ Ouçam as bombas que caem no solo/ Tremem os corpos das crianças de colo”, a música ganhou um videoclipe ambientado na Ocupação 9 de Julho, em São Paulo, lar de 122 famílias há três anos.

Resistência. A presença feminina define a tradução audiovisual. A direção de Luciana Sérvulo se une a um coro de mulheres, pinturas com os rostos de Marielle Franco (1979-2018) e Dandara (data indefinida-1694), símbolos de resistência de movimentos negros e feministas, e performances da bailarina Sandra Miyazawa, da líder indígena-guarani Sônia Ara Mirim, de Carmen Silva, do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) e de Preta Ferreira, cuja prisão, em 2019, foi acusada de possuir caráter político. “Todos nós assistimos com perplexidade a essas tragédias anunciadas que se sucedem no Brasil e ao redor do planeta, com todo tipo de intolerância: religiosa aos cultos de origem afro, racial, a homofobia, o feminicídio. Nunca vimos um mundo tão doente como o de hoje”, lamenta Nasi.

O músico invoca a atual “onda de manifestações contra o extermínio de pessoas negras”, desencadeadas pelo assassinato de George Floyd, um americano negro, por um policial branco, que se ajoelhou sobre o seu pescoço enquanto o mantinha imobilizado. Os apelos de Floyd, afirmando que estava sem ar, foram ignorados pelo agressor. A ação, ocorrida em Minneapolis, foi filmada através de um celular e correu o mundo, dando origem a uma série de protestos nos Estados Unidos e em diversos países. “Temos que lembrar, como John Lennon (1940-1980) dizia, que a mulher é o negro do mundo”, ressalta Nasi, em alusão a “Woman Is The Nigger of The World”, música lançada por Lennon e Yoko Ono, em 1972, e regravada por Cássia Eller (1962-2001).

Democracia. “Marielle (Franco), além de mulher, era negra e tinha uma orientação sexual não ortodoxa. Tudo isso a transformou em um símbolo de tudo o que a intolerância do Brasil atual persegue”, afiança Nasi. O crime envolvendo a morte da vereadora carioca, em março de 2018, completou 817 dias sem solução. “Cresci em meio a uma ditadura e nunca vi nada parecido com o que vivemos atualmente. Temos outras armas, mas que podem tanto ser usadas a favor da democracia quanto para a intolerância, que são as redes sociais. Esse exército de bestas feras, pessoas escrotas e ignorantes talvez estivesse dentro do armário e agora, com as redes sociais, elas ganharam voz, formam milícias e partidos políticos”, critica.

Nasi não tem dúvidas de que “a democracia brasileira está em risco”. “A democracia é uma forma de governo que pressupõe uma convivência civilizada. Por isso, ela será sempre testada, é da sua essência. Temos que responder com a atuação da sociedade civil e das instituições. Quando você começa a se acostumar com o governo falando todo dia de golpe militar e exército nas ruas, passamos do campo ideológico e entramos no crime contra a Constituição”, denuncia. No domingo (7), manifestantes pró-democracia e antifascistas foram às ruas pelo segundo final de semana consecutivo protestar contra o governo Bolsonaro. O entrevistado enxerga a situação com apreensão. Ele diz que considera as manifestações “politicamente necessárias, mas, ao mesmo tempo, estamos nos expondo no momento em que nem atingimos o pico da pandemia”, ressalva.

Impeachment. Nasi não foi às ruas, e trocou a participação presencial por protestos que ecoaram junto a seus vizinhos, batendo panelas para demonstrar a insatisfação com os rumos políticos do país. “É uma sinuca de bico. Eu gostaria de ter ido à manifestação, porém, me preocupo muito com a pandemia. Talvez seja a hora de a gente se ater às redes sociais, assinar abaixo-assinados e fazer panelaços”, reflete. Na opinião do vocalista, a pandemia causou um paradoxo no governo federal. “Se não fosse por ela, o povo teria feito manifestações à altura de 2013 e isso forçaria o Congresso a abrir um processo de impeachment”, assegura.

Ele coloca a manutenção de Jair Bolsonaro no cargo na conta da “bestialidade dos 30% que resistem à maneira genocida e irresponsável com que o governo atua nessa pandemia”. “Ao mesmo tempo, a pandemia é que o segura. Porque impede manifestações de rua com grande impacto e enorme adesão. É aquela história: ‘Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come’”, sublinha. “O que mais me preocupa é a inércia das instituições. Fui crítico em vários momentos ao Judiciário, mas, na atual conjuntura, ele está sendo pontual e exercendo seu papel. Por outro lado, o Congresso e o Legislativo estão acovardados”, analisa.

Luta. O mutirão com quem o Ira! se entrincheira para travar essa luta em busca de uma saudável libertação possui, em suas fileiras, diversas e diversificadas mulheres. Silvia Tape compôs, com Scandurra, “Respostas” e “Você Me Toca”, Bárbara Eugênia assina “Chuto Pedras e Assobio” com o guitarrista, e “Efeito Dominó” traz Virginie Boutaud na melodia e nos vocais. A antiga vocalista do Metrô tocava com Scandurra um projeto de músicas francesas em homenagem ao compositor parisiense Serge Gainsbourg (1928-1991). Juntos, eles excursionaram por Angola, na África. “A Virginie se destaca de forma absoluta no álbum. Todos ficamos chapados quando ela mostrou essa música que traz o estilo do Ira! de falar sobre amor”, elogia Nasi.

A cantora estava em Toulouse, onde vive, na França, e se dispôs a gravar de lá. Na ocasião, em 2019, o mundo ainda não enfrentava uma pandemia. “Somos contemporâneos e super diferentes, nunca pensei que surgiria essa parceria, foi uma grata surpresa. É um dos pontos altos do disco”, festeja o músico. “Efeito Dominó” rendeu videoclipe, dirigido pelo artista visual Gustavo von Ha. Cenas gravadas pelos integrantes dentro de casa se acoplaram a imagens cinematográficas. Depois de “O Amor Também Faz Errar”, a canção foi escolhida como segundo single do grupo. “O lugar do rock é onde ele está hoje, nas rádios segmentadas, web-rádios independentes e playlists do Spotify”, opina Nasi.

Rock. O intérprete não economiza nas palavras quando o assunto é o domínio do chamado sertanejo universitário nas paradas de sucesso mais populares. “Não consigo me imaginar tocando na mesma rádio que esse tipo de lixo. Nem eles nos querem, nem nós os queremos. Não pretendo me misturar com essa porcaria, que é reflexo do tempo que vivemos. Se você for ver, são todos bolsonaristas, chauvinistas, com péssimas letras. Renato Teixeira e Almir Sater deveriam processá-los por usarem o termo sertanejo para fazer uma música que não tem nada a ver com essa cultura tão tradicional do Brasil. É uma afronta”, dispara.

Ele chama a atenção para o fato de que, embora “em um breve período dos anos 80, as rádios comerciais tenham tocado Legião Urbana, Paralamas do Sucesso e Ira!, não podemos nos esquecer que elas também tocavam Sylvinho Blau-Blau e Dr. Silvana”. “Tem um ditado que fala: ‘antigamente era pior, depois foi piorando’”, ironiza. “As pessoas cuspiam no prato para dizer que o rock era o câncer da música brasileira. Se você for ver, o que era a música brega nas décadas de 1970 e 1980, como Wando e ‘Fuscão Preto’ (de Almir Rogério), soa erudito hoje em dia”, completa. A visão é compartilhada pelo mais polêmico companheiro de geração de Nasi. Na última semana, em entrevista ao “Roda Viva”, Lobão expôs a intenção de gravar um dueto com o vocalista do Ira!, em uma releitura para “Amigo É Pra Essas Coisas”, de Aldir Blanc (1946-2020), uma das vítimas da Covid-19 no Brasil.

Encontro. “Lobão sabe muito bem o que penso de política. Dividimos um show logo após o primeiro turno e ele estava ciente do que penso sobre o Bolsonaro. Sempre tivemos uma relação muito boa e ninguém nunca patrulhou ninguém. Conseguimos separar as coisas. Eu sou a favor de uma frente ampla e, para isso, é necessário unir todas as forças, e não ficar de sectarismo”, acredita Nasi. Ele admite que foi alvo de críticas ao realizar uma live com Lobão, quando o convite para revisitar o clássico de Blanc, lançado pelo MPB-4, em 1970, surgiu. “Falei: ‘Tô dentro’. Concordo com algumas coisas que o Lobão falou, e discordo de muitas, ou da forma que ele externou. Mas não vou deixar de admirá-lo como artista. A não ser que o cara fosse um pedófilo, um assassino. Ele disse besteiras sobre a ditadura das quais tem que se defender hoje e está dando a cara pra bater”, enaltece.

Nos primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro, o autor do eterno hit “Me Chama” retirou seu apoio ao presidente e se tornou um crítico ferrenho daquele que ajudou a eleger. “Lobão está sendo corajoso e reconhecendo que errou. Temos que levar em consideração. Prefiro pessoas que não são reféns da própria opinião àquelas que vão morrer abraçando o fascismo. Para outros da minha geração, parece que, apesar de tudo, a ficha não cai. Posso entender quem votou em Bolsonaro contra o PT, porque é simplório ou tem um pensamento mais básico. Mas, depois de ver como as coisas estão desde o dia que ele botou a faixa, não fazer uma autocrítica até esse momento, é impossível”, conclui.

Fotos: Carina Zaratin/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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