A Parábola do Poder

“E ele disse: Por Deus, isto é incrivelmente engraçado,
Ter metade do óleo do mundo, e não poder ter o bastante
Para acionar uma máquina de governo!’” Ezra Pound

charge-aroeira

Dá voltas ao redor do ouvido: zumbindo. O movimento é rápido e escapa do braço, sem franzido de testa, sem alarde: pica. Não dá tempo, é demais para o tempo, o tempo não pega Fernanda. Com livros, papéis, sarapatéis e paparicos: cai no colo. O louvor ao ócio é incapaz de acompanhá-la. O raciocínio lógico de tão matemático determina: aonde devem estar as causas e circunstâncias: Fernanda é exata. A amplitude dos movimentos crepusculares escapa da crônica: Fernanda amanhece de noite: fora de tempo dos arredores: quer revanche, revolução, progresso: dar à Santa a bofetada de adrenalina: que ela merece tirar do conforto provocar no útero contrações do parto: brindá-la com gêmeos, trigêmeos, quádruplos. Comprime os beiços na ansiedade, martírio, angústia: é preciso mexer com essa gente, vivendo no mundo da lua.

Santa Maria, uma lua: o queijo amarelo à espera das bocas: o sossego incomoda Fernanda: Gente mais sossegada, fora de órbita. E nesse meio a meio, corpo a corpo, Fernanda se diz tão voraz: que é capaz de engolir a fruta sem chupar o suco. Um lápis na orelha (o zumbido), um caderninho amarelo debaixo do braço (agoniza) – Tudo está fora do lugar de Fernanda. Boa pessoa aproveita as honras: quando passa uma gente importante: oferece quitutes e badulaques: ao Grilo: quando passa uma gente do povo: direta, ignora: falta-lhe o olho para as pretas horas: o mendigo. Inchando, estouram os pés, os cadarços, bolhas por sobre cascas, os dedos alcançam os telhados, tocam os pássaros: fugidos, tantos. Lambe o dinheiro, lambe o chão do poder, dá voltas ao redor do ouvido: zumbindo, Fernanda.

grauna-henfil

Raphael Vidigal

Imagens: charges de Aroeira e Henfil, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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