A homossexualidade na música de Cazuza

Exagerado

“O mundo é azul
Qual é a cor do amor?” Cazuza

Cazuza foi um dos mais importantes cantores e compositores da década de 80, tendo sido um dos principais personagens do rock nacional que se instalou definitivamente na música brasileira a partir dali. Em sua obra, a representação da homossexualidade não se deu de forma linear e única, pelo contrário, Cazuza tocou de diversas formas no assunto, a maioria das vezes nas entrelinhas e através de metáforas, como era seu estilo.

Além de ter se assumido bissexual publicamente, Cazuza foi um dos compositores mais importantes na música popular brasileira na abordagem do tema, por tê-la feito de tantas maneiras tão distintas em mais de 10 canções durante a breve carreira, de 1982 a 1990.

1- Por que a gente é assim? (1984)
Primeira música gravada por Cazuza com referência à homossexualidade, em 1984. A canção é de Cazuza, Ezequiel Neves e Roberto Frejat e enfrentou resistência dos companheiros de banda de Cazuza para ser gravada por conta dos versos que remetiam à homossexualidade.

2- Narciso (1984)
Em seu terceiro disco como vocalista do Barão Vermelho e no mesmo ano que gravara sua primeira canção com referência à homossexualidade, Cazuza também gravou a segunda, que contava uma história de amor mal resolvido e trazia os versos: “nós somos iguais na alma e no corpo”. A música é de Cazuza com Roberto Frejat.

3- Só as mães são felizes (1985)
Fora do grupo Barão Vermelho, em seu primeiro disco solo Cazuza resolveu fazer uma homenagem a todo tipo de comportamento considerado marginal, maldito, e compôs com Roberto Frejat a música “Só as mães são felizes”. A homossexualidade aparece como um desses tipos de comportamento, e é representada através de uma citação debochada a uma das grandes referências literárias de Cazuza, o poeta beatnik Allen Ginsberg, ativista das causas homossexuais nos Estados Unidos.

4- Culpa de Estimação (1987)
Em mais uma canção sua em parceria com Roberto Frejat, Cazuza discursa sobre a culpa cristã que adquiriu ao longo dos anos por ter, segundo ele, sempre estudado em escolas católicas. A partir desse contexto ele refere-se à sua bissexualidade utilizando-se de nomes bíblicos, Eva e Adão, ao dizer-se indeciso entre o amor de um homem ou uma mulher.

5- Quarta-feira (1987)
O disco “Só se for a dois”, de 1987, marca o ano em que Cazuza fala de forma mais escancarada em uma música sua sobre a homossexualidade. Mesmo já tendo dito diversas vezes em entrevistas ser bissexual, apenas em 1987 Cazuza cantou sua opção de forma definitiva em uma música, através dos contundentes versos: “eu ando apaixonado por cachorros e bichas (….) porque eles sabem que amar é abanar o rabo, lamber e dar a pata”. A música é uma parceria de Cazuza e Zé Luiz.

6- Heavy Love (1987)
Ainda em 1987, Cazuza voltava a fazer referência à homossexualidade de forma implícita, enigmática, com os versos da música que continham quase que uma idéia de rebeldia e transgressão associada à homossexualidade: “pro nosso amor descarado e virado o mundo lá fora não serve pra nada.” A música foi composta por ele em parceria com Roberto Frejat.

7- Guerra civil (1988)
No disco Ideologia, de 1988, Cazuza lançou sua primeira canção que fazia referência clara à homossexualidade feminina. Em parceria com Ritchie, “Guerra civil”, continha os fortes versos: “freiras lésbicas assassinas”, revelando mais uma vez o modo transgressor com que Cazuza tratava do tema.

8- O Tempo não pára (1989)
Em janeiro de 1989, Cazuza lançou a música que marcaria definitivamente sua carreira, “O Tempo não pára”, parceria dele com Arnaldo Brandão, falava entre outras coisas, de uma visão sobre a forma como a sociedade costumava tratar os homossexuais à época, com os famosos versos: “te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam um país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro”.

9- Eu quero alguém (1989)
No mesmo ano de 1989, em seu último disco em vida, “Burguesia”, Cazuza lançou “Eu quero alguém”, música em parceria com Renato Rocket que fazia referência à bissexualidade através da idéia de vestimentas que tradicionalmente identificavam o masculino e o feminino, com os inicias versos: “eu quero alguém, que use calça ou saia”.

10- Como já dizia Djavan (Dois homens apaixonados) (1989)
Também em 1989, Cazuza utilizou-se do discurso de outro compositor para se referir à homossexualidade. Adotando a frase de Djavan no título e nos versos finais da música, Cazuza, como raramente aconteceu na sua obra, dessa vez foi claro em sua referência.

11- Preconceito (1989)
Cazuza também fez referência à homossexualidade assumindo o papel de intérprete, como quando em 1989 gravou a música “Preconceito”, de Fernando Lobo e Antônio Maria e que já fora sucesso na voz de Nora Ney na década de 50, já naquele momento a música era cultuada pelos homossexuais e Nora se tornou diva entre eles. Anos mais tarde, Cazuza a regravou novamente utilizando-se de seu discurso para provocar o sentido da homossexualidade.

12- Esse cara (1989)
Em entrevistas ao longo do anos de 1988 e 1989, Cazuza, que já era bissexual assumido, dizia querer explorar mais em suas músicas seu lado feminino. Ao gravar a canção “Esse cara”, de Caetano Veloso, em 1989, Cazuza colocava-se como mulher e expunha sua faceta mais delicada. A música vinha no disco duplo “Burguesia”, na sequência de “Preconceito” que já fora reveladora de traço homossexual na década de 50 e agora era regravada por Cazuza. A composição das músicas na sequência conceituava o sentido homossexual presente em ambas.

13- Jovem (1990)
Cazuza também tratou do tema da homossexualidade apenas como compositor. “Jovem” foi composta por ele em parceria com Arnaldo Brandão, e gravada pelo grupo Hanói Hanói em 1990. A música trazia a idéia de que a homossexualidade era perante os olhos de alguns uma coisa nova, transgressora, moderna, além disso, a expressão usada para designá-la na música é carregada de coloquialidade e deboche, através dos versos: “você tá muito avançado, seus amigos desconfiam que você é veado”.

14- Problema Moral (1984 ou 1985)
Sem data definida, a canção “Problema Moral”, de Cazuza, Roberto Frejat e Dé”, gravada originalmente por Paulette, perdeu-se no tempo, mas seus versos permaneceram resguardados. A música discursa sobre a história de um amigo que conquista a namorada do outro, e acaba se justificando com uma irônica referência à bissexualidade, além de trazer a idéia de que ainda era preciso disfarçá-la: “mulher de amigo meu, pra mim é homem, eu transo no breu”.

15- Quero ele (1989)
A canção “Quero ele”, foi feita especialmente por Cazuza e Lobão para o espetáculo teatral “Querelle”, estrelado em 1989 pela transformista Rogéria. A música conta a história do personagem principal da peça, o marinheiro homossexual Querelle, e faz referências também à quem o interpreta, em versos contundentes: “Quero Querelle e seu irmão, Quero Rogéria e seu pauzão”.

Beth Balanço

Raphael Vidigal

Produzido para o Projeto Experimental da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

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17 Comentários

  • Sempre com sua sensibilidade, visão e percepção diferenciadas Vidi!
    Muito bom! =D

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  • Cazuza, sempre ‘exagerado’ e autêntico… Parabéns pelo texto Raphael Vidigal!

    Resposta
  • Amo Cazuza! Sempre… Idéias e obras maravilhosas, jamais esquecidas.
    Parabéns pelo texto, Raphael. Beijos!

    Resposta
  • Obrigado a todos pelos comentários! Lembrando: esse ano foi descoberta música inédita de Cazuza(“Sorte e Azar”), na voz do próprio, a ser lançada em novembro na coletânea de 30 anos do Barão Vermelho.

    Resposta
  • pra mim o hino da causa glbt e malandragem cazuza (letra) casia eller( vocal)
    realmente cazuza grande poeta

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  • Poxa cara, através do que vc escreveu consegui chegar a musica do Hanoi-hanoi e também conheci o trabalho da Adriana, enfim, parabéns aí pelo trabalho.

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  • Olá Raphael,
    O texto sobre a homossexualidade nas músicas de Cazuza vai virar ou já é um artigo científico? Muito bom o tema e o texto também, parabéns.
    Abraço.

    Resposta
  • Lindo. Eu estudo história e estou tentando encontrar uma alavanca para que eu possa trabalhar o Cazuza de acordo com algum aspecto historiográfico. 🙂 Parabéns pela iniciativa, levando o nosso mestre para todos!

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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