A história do Trio Elétrico no Brasil

“Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu…” Caetano Veloso

Osmar_e_Fobica

Na década de 40, Adolfo Nascimento, conhecido como Dodô, e Osmar Macedo, lançaram o “pau elétrico”, o primeiro instrumento eletrificado que não provocava microfonia. Amigos desde 1938, quando da reestruturação do grupo “O Três e Meio”, do qual fez parte Dorival Caymmi, os dois músicos se dedicaram durante dez anos à pesquisa que buscava amplificar o som dos instrumentos de corda. No Carnaval de 1950, os dois saíram às ruas de Salvador em cima de um Ford 1929, que eles chamavam de fubica, tocando as músicas da Academia de Frevo do Recife em instrumentos fabricados por eles. Daí nasceu a “Dupla Elétrica”, com Dodô e Osmar tocando suas “guitarras baianas”. Um ano depois, em 1951, Temístocles Aragão se juntou à dupla para tocar um terceiro “pau elétrico”, conhecido como violão tenor, de som médio. Nascia assim, o Trio Elétrico do carnaval baiano, que em 1952, recebeu um caminhão da empresa de refrigerantes Fratelli Vita para se apresentar e assumiu o formato que mantém até hoje, 60 anos após sua criação.

1 – Vassourinha Elétrica (1980) – Moraes Moreira
Em 1950, a pedido do governador da Bahia, Otávio Mangabeira, o bloco “Vassourinhas” de Pernambucano desfilou pelas ruas do Centro de Salvador e causou uma grande animação na população. Era a primeira vez que o carnaval popular da Bahia conquistava abertamente um espaço da parte oficial da festa que, embora público, era reservado exclusivamente às atividades das elites. Parece que o desfile do “Vassourinhas”, cinco dias antes, com aqueles frevos recebidos com tanto entusiasmo pela população, tinha servido como uma espécie de ensaio para a estréia da Dupla Elétrica e sua fubica. Sobre o episódio, Osmar disse: “A Bahia quase inteira foi pra Avenida Sete ver o desfile do “Vassourinhas”, eles começaram lá pelo Campo Grande e vieram em direção à Praça da Sé, à Praça Castro Alves, e lá vinham eles, iam pela Avenida Sete, e eu também no meio da folia, pulando atrás, do lado. Foi uma loucura tão grande, o povo pulando… nunca se tinha visto frevo aqui na Bahia. Foi aí que eu dei a idéia pro Dodô, disse: “Dodô, vamos sair tocando essa música.” Já em1980, Moraes Moreira compôs a música “Vassourinha Elétrica” para o álbum de mesmo nome lançado pela Elektra / WEA, contando novamente o episódio histórico.

2- Atrás do Trio Elétrico (1969) – Caetano Veloso
Em 1969, enquanto no carnaval de Salvador o povo cantava e dançava “Atrás do Trio Elétrico”, seu autor vivia no Rio a expectativa de ser libertado da prisão imposta pela ditadura. A libertação aconteceu somente na quarta-feira de cinzas, só que de forma parcial, pois Caetano Veloso e Gilberto Gil passaram a um regime de confinamento na Bahia, seguindo-se o exílio em Londres. Gravada inicialmente num compacto em 1968, com Caetano Veloso acompanhado por um pequeno grupo dirigido por Rogério Duprat, esta marcha-frevo, mais tarde alcunhada de frevo baiano, homenageava o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, com a frase inicial que se tornou praticamente um dito popular: “Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu…”

3- Pombo Correio (1977) – Moraes Moreira / Elba Ramalho
Em 1975, apaixonado pela composição instrumental “Double Morse” de Dodô e Osmar e que existia desde a década de 50, Moraes Moreira compôs para ela uma letra que se relacionava com a ambiência romântica de antigas composições carnavalescas, como Colombina e Jardineira, na qual pedia a um pombo correio que entregasse uma carta a seu amor. A canção foi o primeiro sucesso em nível nacional do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, e deu nome a seu quarto LP, considerado o melhor da carreira da banda, que saiu pela Continental em 1977. Saltitante, elétrica, colorida, a marchinha é bem característica dos trios que animam o carnaval de Salvador e que se tornariam uma influência na música do próprio Moraes Moreira, que além de produzir alguns discos foi o primeiro cantor de Trio Elétrico, antes apenas instrumentais. A música também foi gravada por Elba Ramalho.

4- Satisfação (1976) – Gilberto Gil / Moraes Moreira
Em 1976, Gilberto Gil fez uma composição especialmente para Dodô e Osmar, chamada “Satisfação”, que saiu pela Continental no álbum “É a massa”, e que fazia referência no refrão à música “Satisfaction” dos Rolling Stones, já demonstrando a sede de antropofagia musical do guitarrista Armandinho, filho de Osmar e que havia sido incorporado ao grupo em 1974 com a missão de expandir a sonoridade do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”. A música foi regravada pelo grupo em 1983, no álbum “Folia Elétrica”, pela gravadora Som Livre. Em 1998, foi resgatado em um álbum lançado pela Polygram, intitulado “Satisfação – Raras e Inéditas”, um registro raro com a canção na voz de seu criador, Gilberto Gil.

Atrás do Trio (1978) – Moraes Moreira
No dia 15 de junho de 1978, Dodô morre. Apesar disso, o Trio, já contando com os filhos de Osmar, Armandinho, Aroldo, André e Betinho segue sua carreira e em julho do mesmo ano faz sua primeira incursão internacional de forma indireta, com a participação de Aroldo, André e Armandinho na banda “A Cor do Som” na noite brasileira do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. Nesse mesmo ano, Gilberto Gil compõe para o grupo a música “Atrás do Trio”, incluída no álbum “Ligação”, que saiu pela Continental em 1978.

Taiane (1978) – Gilberto Gil / Moraes Moreira
“Taiane”, música de Osmar, Dodô e Moraes Moreira foi lançada pelo “Trio Elétrico Dodô e Osmar” em 1978 no álbum Ligação, pela Continental. Já em 1996, foi regravada por Gilberto Gil no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, pela Eldorado.

5 – Bloco do Prazer (1979) – Gal Costa / Moraes Moreira
Em 1979, o Trio lançou pela Continental o LP “Viva Dodô e Osmar”. Nesse álbum, a banda consegue incorporar uma sonoridade afro para o seu repertório, antes bastante calcado no compasso binário do frevo. Porém, há ainda nesse disco um frevo de Moraes Moreira e Fausto Nilo que fez bastante sucesso e depois foi regravado em 1982 por Gal Costa no álbum “Minha voz”, que saiu pela Polygram, a música “Bloco do Prazer”.

6- Beleza Pura (1979) – Caetano Veloso / Armandinho
Sobre o som do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, Caetano Veloso disse: “O Trio Elétrico sai carnavalizando tudo o que vê, desde os clássicos mais populares aos populares mais clássicos”. Em 1979, dez anos depois do sucesso de “Atrás do Trio Elétrico”, ele agraciou os inventores da “guitarra baiana” com a música “Beleza Pura”. A canção trazia uma ambiência afro com forte acento percussivo e, pela primeira vez, vocais de Armandinho. Já a letra exaltava a beleza negra e blocos afros como o Badauê e o ILÊ Ayê.

7- Zanzibar (1980) – Elba Ramalho / Armandinho
Em 1980, devido à projeção nacional de Armandinho, filho de Osmar, que tocava também no conjunto “A Cor do Som”, o “Trio Elétrico Dodô e Osmar” passou a se intitular “Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar” e lançou pela Elektra / WEA o LP “Vassourinha Elétrica”. Nesse álbum, Armandinho canta o frevo-axé “Zanzibar”, também conhecido como “As cores”, parceria dele com Fausto Nilo e que também fazia parte do repertório da “A Cor do Som”. Em 1997, a música foi regravada por Elba Ramalho no álbum “Baioque”, que saiu pela BMG Brasil.

Manifesta (1979) – Elba Ramalho / Moraes Moreira
A música “Manifesta”, de Osmar, foi gravada pela primeira vez em 1979, no álbum “Viva Dodô e Osmar”, pela Continental. Na composição, que faz referência ao tango, Osmar toca com maestria sua guitarra havaiana. Em 1996, Elba Ramalho regravou a música no álbum ““Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, pela Eldorado.

8- Dodô no céu, Osmar na terra (1981) – Luiz Caldas / Moraes Moreira
Em 1981, Moraes Moreira compõe junto com Solon Melo e Osmar, a música “Dodô no céu, Osmar na terra”, em mais uma homenagem em vida a Osmar e póstuma a Dodô, que havia falecido em 1978. A canção, lançada no álbum “Incendiou o Brasil” é uma marcha frevo que fez sucesso no carnaval nordestino de 1982 e foi regravada por Luiz Caldas em 1996 no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, que saiu pela Eldorado.

9- Cadê o trio? (1983) – Moraes Moreira
Em 1983, Moraes Moreira compõe em parceria com Armandinho a satírica “Cadê o trio?” em protesto ao fato do “Trio Elétrico” ter tido de se apresentar em Itabuna nos carnavais de 1981 e 1982 por falta de apoio para desfilar em Salvador. A canção é incluída no disco “Folia Elétrica”, que sai pela Som Livre e conta ainda com a participação do músico Sivuca na faixa instrumental “Jazziquifrevo”.

Portando sonhos (1983) – Moraes Moreira / Ricardo Chaves
Em 1983, o Trio lança o álbum “Folia Elétrica”, pela Som Livre, que incorpora a intenção da banda de não ter a execução radiofônica restrita ao período do carnaval. O próprio Armadinho deixa “A Cor do Som”, para se dedicar integralmente ao grupo. Recheado de frevo-rock, frevo-afoxé, frevo-trioletrizado e até o ritmo caribenho merengue, é lançada nesse álbum a canção “Portando sonhos”, que fala sobre a saudade da primeira namorada, de Jairo Simões e Osmar. Em 1996, a música é regravada por Ricardo Chaves no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, pela Eldorado.

10 – Chame Gente (1985) – Moraes Moreira e Caetano Veloso
Em 1985, Moraes Moreira e Armadinho compõe o que se tornaria um dos hinos da Bahia. “Chame Gente” é também o título que dá nome ao disco, lançado pela RCA Victor, e faz uma verdadeira apologia à alegria característica da musicalidade e do espírito do povo baiano. O frevo foi regravado em 2005 por Moraes Moreira e Caetano Veloso, no álbum “Pure Brazil 2: Rio, Bahia, Carnival”, lançado pela Universal.

11 – Frevo do Trio Elétrico (1975) – Moraes Moreira / André Macedo
No ano de 1975 o “Trio Elétrico Dodô e Osmar” lança pela Continental o seu primeiro LP, intitulado “Jubileu de Prata”. Moraes Moreira, primeiro vocalista de Trio Elétrico, canta a canção de Dodô e Osmar “Frevo do Trio Elétrico”, que depois foi regravada em 1996 pelo filho de Osmar, André Macedo, no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, lançado pela Eldorado.

Desafilho (1975)
Outro destaque do álbum de estréia do Trio, é o pot-pourri “Desafilho”, que mistura composições eruditas e populares com trechos de “Asa Branca”  de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, “Dança das Horas” de Ponchielli, “Luar do Sertão” de Catullo da Paixão Cearense,”Fazer-Fazer” de Bronquinha, “Urubu Malandro” de Louro e Braguinha, “Moto Perpétuo” de Paganini” e “Rapsódia Húngara” de Liszt. Além disso, “Desafilho” registra um duelo de guitarras entre Osmar e seu filho Armandinho.

12- Frevo doido (1976) – Alceu Valença / Moraes Moreira
Em 1996, no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, Alceu Valença gravou a música “Frevo doido”, de Osmar, e que havia sido lançada 20 anos antes no disco intitulado “É a massa”, pela Continental.

Viva Nelson Ferreira (1976) – Moraes Moreira
“Viva Nelson Ferreira” é um frevo elétrico rasgado de Moraes Moreira em homenagem ao compositor pernambucano que foi o responsável pelo sucesso de vários frevos na década de 50 e que integravam o repertório do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”. Foi lançado no álbum “É a massa”, de 1976, pela Continental.

13- Diabolô (1977) – Carlinhos Brown / Moraes Moreira
No ano de 1977, o Trio lança a música “Diabolô”, de Osmar, no disco “Pombo Correio”, pela Continental. Em 1996 ela é regravada por Carlinhos Brow no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, pela Eldorado.

14- Bahia…Bahia…Bahia… (1978) – Moraes Moreira
Em 1978, o “Trio Elétrico Dodô e Osmar” grava o hino do clube mais popular do estado, o Bahia, em uma versão composta por Adroaldo Ribeiro Costa e cantada por Moraes Moreira, rendendo grande projeção radiofônica à banda.

15 – Natal, como te amo (1987) – Margareth Menezes
Para o disco “Aí eu liguei o rádio”, de 1987, lançado pela RCA Victor, Osmar compôs a música “Natal, como te amo”, regravada em 1996 por Margareth Menezes no álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, pela Eldorado.

16- Nosso grande Noé (1996) – Moraes Moreira
“Nosso grande Noé” é uma composição de Moraes Moreira em cuja letra é retratada a carreira artística e como engenheiro de Osmar, feita especialmente para o álbum “Filhos da alegria – Tributo a Osmar Macedo”, lançado pela Eldorado em 1996, um ano antes de um dos inventores do Trio Elétrico morrer.

17- Jubileu de Ouro (2000) – Moraes Moreira
No ano de 2000, Moraes Moreira compôs junto com Armandinho, filho de Osmar Macedo, a música “Jubileu de Ouro”, que fazia alusão ao primeiro disco do “Trio Elétrico Dodô e Osmar”, o “Jubileu de Prata”, e homenageava os 50 anos do Trio. A canção foi gravada no álbum “Jubileu de Ouro – Armandinho e Trio Elétrico Dodô e Osmar”, lançado pela Geléia Geral, e em “Moraes Moreira – 500 sambas”, lançado pela Abril.

Trio-Elétrico-Dodô-e-Osmar

Raphael Vidigal

Pesquisa feita para a rádio Itatiaia em 2010.

Fotos: Osmar e o primeiro Trio Elétrico; e Caetano Veloso, Osmar, Gilberto Gil, Armandinho e Wally Salomão num Trio na Bahia, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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