Liberdade e intolerância na internet

“Ele é um cidadão livre e seguro da Terra, pois está atado a uma corrente suficientemente longa para dar-lhe livre acesso a todos os espaços terrenos e, no entanto, longa apenas para que nada seja capaz de arrancá-lo dos limites da Terra. Mas é, ao mesmo tempo, também um cidadão livre e seguro do céu, uma vez que está igualmente atado a uma corrente celeste calculada de maneira semelhante. Assim, se quer descer à Terra, a coleira do céu o enforca; se quer subir ao céu, enforca-o a coleira da Terra. A despeito de tudo, tem todas as possibilidades e as sente, recusando-se mesmo a atribuir o que acontece a um erro cometido no primeiro ato de acorrentar.” Franz Kafka

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Sim, Chuck Berry fields forever, mas rock não é mais nosso tempo, como o ex-ministro e eterno tropicalista Gilberto Gil cantou. A rumba, o mambo, o samba e o rhythm ´n´blues são filhos de Xangô, mas e o pai do nosso virtual tempo? Será que já chegou? A internet, um dos suportes mais utilizados pelo virtual promove em certa escala uma inversão, na medida em que altera a relação entre produtor e consumidor, colocando-os numa disposição anárquica em referência à produção e escolha de conteúdo. Isso em parte, pois os filtros desses mecanismos ainda são controlados pelos mesmos, mas não apenas por eles, e essa é a grande novidade da internet, mais gente envolvida na produção e na recepção de conteúdo.

A internet não destrói os nichos geográficos e sociais construídos no território físico pelo homem, nem deixa de construir novos deles, posto que é notório que esse tal ser humano, em via de regra, sempre se sentiu mais confortável quando posto em contato com seu semelhante. O diferente tende a gerar um certo desconforto e desemboca algumas vezes pro que se costuma chamar de preconceito e discriminação. Assim sendo, têm-se uma coletividade individualista, ou um individualismo coletivo, gerado não pela internet, mas pelo homem desde que se viu como gente. É difícil determinar se a internet contribuiu para uma maior individualidade ou não, posto que estabelece-se um paradoxo a partir do momento que ela se propõe a e permite uma grande interação entre os agentes participantes, além de vasta diversidade de estética e conteúdo.

No entanto é preciso observar que a internet além de facilitar o encontro de diferentes facilita também o de iguais. Você pode se deparar tanto com seu igual como com seu oposto com a mesma facilidade e velocidade. Gisnberg e Madonna podem andar de mãos dadas como Madonna e Britney Spears também, assim como Ginsberg e Kerouac. É inegável que a internet proporciona uma melhora considerável no acesso à informação do mais variado tipo, quem está na Polônia pode ouvir nosso samba e quem está no Brasil o samba dos poloneses também. O problema disso tudo é que essa grande quantidade de informações jorradas a todo tempo e postadas quase que no mesmo instante em que são geradas acaba por resultar numa baixa considerável no critério de seleção dessas. A era virtual atinge o auge do tudo ao mesmo tempo agora, e esse tudo ao mesmo tempo resulta inevitavelmente num nada quase que profundo a todo tempo agora.

O grande perigo dessa imensa quantidade de informações que precisam ser renovadas e acabam muitas vezes sendo não recicladas, mas sucateadas por tudo e por todos é a superficialidade a que a pressa leva. Já disse Cleyde Yáconis que “uma coisa rápida não pode ser profunda.” O conceito de rápido é um tanto quanto relativo, mas objetivando a questão, o que vemos é que a internet navega muitas vezes em águas rasas em razão da pressa e da falta de seleção de estética e conteúdo que muitas vezes a conduz. Retomando a questão da facilidade em encontrar sua alma gêmea social, futebolística, sexual ou estúpida que a internet proporciona, outro risco inerente a esse tipo de suporte é criar uma maior taxa de intolerância nas pessoas, pois fica muito mais fácil afirmar seu ponto de vista quando tantos outros membros de sua comunidade no Orkut o ratificam.

Todas as tecnologias virtuais favorecem a maior interação entre as pessoas e são as maiores responsáveis pelo constante processo de globalização no qual a sociedade atual vive. A informação circula com mais desenvoltura e abrangência. É veiculada pelos mais diversos tipos de seres humanos e consumida da mesma forma. As tecnologias virtuais tendem por vezes a deixar a impressão de que põe fim ao espaço privado e criam uma grande sociedade conjunta, pois em via de regra quase todo mundo tem acesso a tudo, e esse parece ser um processo contínuo que só tende a aumentar. No entanto, como já foi dito, é preciso se atentar para o também crescente individualismo coletivo, resultante do conceito liberalista de se estabelecer nessa mesma sociedade que tudo vê e tudo mostra. Ou nem tudo.

O celular é o grande baluarte dessa interação entre as pessoas. É possível através dele saber onde elas estão e se comunicar com as mesmas independentemente do estado físico ou crença religiosa das mesmas. Quase sempre. As tecnologias virtuais são capazes de unir pessoas, conteúdos, informações, opiniões, imagens em movimento e paradas, sensações e sons. Elas aparecem como as capazes de reunir em si todos os tipos de suporte, ao mesmo tempo agora, tudo, ao mesmo tempo agora, tudo. O que lhes falta ainda é a informação e o conteúdo presente somente no tato e na sensação do objeto físico, por sua óbvia natureza. Alguns artistas plásticos jamais serão parte delas, pelo menos por enquanto. Pode ser que o homem afaste-se cada dia mais de sua condição carnal, tornando-se uma mera representação de algo físico, agora transportado para o cenário virtual.

Corre-se o risco constante da superficialidade, que encontrará sempre maior facilidade em contaminar aqueles de baixa imunidade, mas também é possível com um ou dois cliques conhecer toda a história das esculturas gregas, de Discóbolo à A Vitória de Samotrácia. Em suma, as tecnologias virtuais têm o poder de serem uma maravilha para aqueles que tem consciência de que elas não a são, e uma maldição para aqueles que acreditam em nona maravilha do mundo. É preciso derrubar o Cristo e eleger Borba Gato como a oitava, empenhou-se Peréio em nos alarmar. Dessa forma, com olhar crítico a tudo, tudo ao mesmo tempo agora torna-se mais saudável. Celular, Internet, Iphone, Videolog : os quatro cavaleiros do após-calipso. Era Virtual, Capítulo Um, Versículo Vinte. Alguns artistas serão sempre atuais. Gilberto Gil, um deles.

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Raphael Vidigal

Texto produzido para a PUC Minas em 2009.

Fotos: Capa do disco de Gilberto Gil; e revista “Careta”, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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