Centenários 2015: Billie Holiday cantou para viver

Me Ensina Dançar Como Lennie Dale
E A Morrer Como Charlie Chaplin
E O Canto De Billie Holiday
E A Extravagância Que Vezenquando Nus Ilumina Seres Humanos

Billie_Holiday,_Downbeat,_New_York,_N.Y.,_ca._Feb._1947_(William_P._Gottlieb_04251)

Se Miles Davis afirma que “só existe a música negra americana”, Billie Holiday tem parte nisso. Poço de contradições, ela foi pioneira em se apresentar com uma banda formada por brancos na época da segregação racial explícita nos Estados Unidos. Revelada como celebridade por Benny Goodman, o “Rei do Swing”, a cantora pertence a uma seleta categoria de artistas em que não se distingue obra e vida. A música para Billie Holiday era a extensão vocal de sua dolorosa existência, atravessada por percalços e raros momentos de brilho. A “felicidade quando se está distraído”, de Guimarães Rosa, cabe bem a Billie. Mas não se pode culpa-la pela constante tensão dos nervos. A infância é comparável à de Edith Piaf, abandonada pelo pai, também músico, tendo que se virar junto à mãe como lavadora de prostíbulos e vítima de abuso sexual aos dez anos. Já os seus progenitores a conceberam quando tinham 15 e 13 anos respectivamente. Ou seja, crianças tomando conta de outra criança.

Prostituta, autodidata, procurada pela polícia, Billie deixou por escrito sua história, contada em filme lançado em 1972, após sua morte, e interpretada pela atriz e cantora Diana Ross. Na maturidade, a firmeza do temperamento e o envolvimento autodestrutivo com todos os tipos de drogas, especialmente o álcool, além da consolidação do caráter performático e visceral no palco lembram a maior cantora brasileira de todos os tempos, Elis Regina. E o fim precoce, como resultado de uma vida volumosa e intensa não deixam escapar a similaridade com outra cantora do gênero, Amy Winehouse. Se bem que tenha influenciado e recebido referenciais a trajetória de Billie Holiday pode ser comparada, mas sua voz não. Que a existência humana invariavelmente repete os mesmos sonhos, mesmos objetivos e fracassos diferentes, explica-se porque nos identificamos com enredos de Tchekhov e Shakespeare. Mas como uma voz é capaz de nos lembrar dores e alegrias é o grande mistério da vida.

Annex - Armstrong, Louis (New Orleans)_01

Raphael Vidigal

Fotos: Billie Holiday se apresenta em 1947; e ao lado de Louis Armstrong e Barney Bigard, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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