80 anos de “Aquarela do Brasil” em 10 curiosidades

“Quando o almirante Cabral/Pôs as patas no Brasil/O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris./Quando ele voltou da viagem/O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:/‘Não faz mal, isto é boa gente,/Vou arejar outra vez.’
O anjo transpôs a barra,/Diz adeus a Pernambuco,/Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim/Mas deu um vento no anjo,/Ele perdeu a memória…
E não voltou nunca mais.” Murilo Mendes

A rabugice de Ary Barroso (1903-1964) era conhecida, tanto que na biografia do compositor, escrita pelo jornalista Sérgio Cabral, conta-se o seguinte episódio: em seus últimos dias de vida, Ary telefona, do hospital, para o amigo David Nasser, e avisa: “- Estou me despedindo, vou morrer”. “Como é que você sabe?”, retruca Nasser. “- Estão tocando as minhas músicas no rádio”, devolve Ary.

Paródia
De tão lendário, o comportamento ranzinza acabou dando trela para um quadro no espetáculo do comediante José Vasconcellos, que imitava Ary no aguardado instante em que, durante o seu programa radiofônico e de TV “Calouros em Desfile”, ele recebia um participante. Sucedia-se o diálogo:

Ary: O que você vai cantar?
calouro: Vou cantar um sambinha.
Ary: É sempre assim. Se fosse mambo, não seria um mambinho. Se fosse bolero, não seria bolerinho. Mas samba é um sambinha. E que sambinha o senhor vai cantar?
calouro: “Aquarela do Brasil”.

A plateia, obviamente, caía na gargalhada. Mas o certo é que, oitenta anos após a sua criação, a música que deu início ao samba-exaltação no país tornou-se uma das mais regravadas da história, estando presente em diversas produções e se consagrando como a obra mais identificada ao mineiro nascido em Ubá que torcia pelo Flamengo e fazia tremer aspirantes a cantor com o seu temido gongo.

Comemorações
Para comemorar a data, a prefeitura de Ubá realiza, até o dia 7 de setembro, uma série de atividades, com exposição de fotos, apresentação da peça “Para Sempre Ary” e espetáculos musicais que trazem a presença da capoeira e de escolas de samba. Nada mais do que merecido, afinal, em 1997, “Aquarela do Brasil” foi eleita pela Academia Brasileira de Letras como a “música do século”.

História
Ary Barroso compôs “Aquarela do Brasil” no início de 1939, numa noite de chuva torrencial, que o obrigou a ficar em casa, contrariando seus hábitos. Em entrevista ao jornal Diário de Notícias, em 1957, o próprio autor, abusando das hipérboles que lhe eram caras, explicava a composição: “Senti iluminar-me uma ideia, a de libertar o samba das tragédias da vida e do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra. Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. O ritmo original cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo o samba que produzi, batizando de ‘Aquarela do Brasil’. Senti-me outro. De dentro de minha alma extravasara um samba que há muito eu desejara. Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso”.

Gravações
Lançada por Araci Cortes no teatro de revista, em junho de 1939, a música só se destacou um mês depois, quando voltou a ser apresentada, desta vez pelo barítono Cândido Botelho, no espetáculo “Joujoux e Balangandãs”. A primeira gravação em disco foi feita pelo cantor Francisco Alves, acompanhado por uma orquestra que executava o arranjo de Radamés Gnattali. Daí por diante, nomes como Sílvio Caldas, Carmen Miranda, Tom Jobim, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, Bing Crosby e Frank Sinatra a regravaram. Durante a ditadura militar, Elis Regina interpretou a versão mais sombria da canção, acompanhada por um coral que reproduzia os cantos dos povos indígenas do Brasil.

Internacional
Graças à “política da boa vizinhança” promovida por seu país – que visava impor a influência cultural norte-americana na América Latina e se contrapor ao sucesso feito, por exemplo, pelos boleros mexicanos –, o cineasta Walt Disney veio parar em terras brasileiras e descobriu por aqui o balanço do samba. Logo ele se encantou com a “Aquarela do Brasil” e a escolheu para trilha sonora do filme que tinha o papagaio Zé Carioca no papel principal, a animação “Alô, Amigos”. No país norte-americano, a música ganhou o título de “Brazil”, recebeu versos em inglês escritos por Ray Gilbert e atingiu um milhão de execuções.

Letra
Ao ouvir a composição, o cunhado de Ary Barroso não se aguentou e perguntou ao músico, já ciente de que receberia uma resposta atravessada: “- Mas qual coqueiro que não dá coco?”. “E você queria que coqueiro desse o quê?”, teria respondido Ary. Essa era uma das críticas frequentes feitas à composição, que se valia da redundância nos versos “meu Brasil brasileiro” e “esse coqueiro que dá coco”. Ary se defendia dizendo que “estas expressões são efeitos poéticos indissolúveis da composição”. Outra polêmica atingia o caráter rebuscado da letra, cheia de termos que eram, já à época, pouco usuais, como “inzoneiro”, “merencória” e “trigueiro”. Aliás, na própria gravação original, Francisco Alves canta “mulato risoneiro” no lugar de “inzoneiro”, por não ter compreendido a caligrafia ilegível de Ary. Inzoneiro que quer dizer manhoso, sonso, malandro.

Arranjo
Os arranjos criados pelo maestro Radamés Gnatalli, com um piano imitando o som de tamborins, e a percussão comandada por Luciano Perrone, contribuíram decisivamente para abarcar ainda mais grandiosidade à “saudação eterna” de Ary Barroso, como ele próprio dizia. Sobre a façanha, Radamés comentou: “Esse negócio não é meu não. É do Ary Barroso. Eu apenas botei no lugar certo. O Ary queria que eu usasse o tema nos contrabaixos, mas não ia fazer efeito nenhum. Eu então botei cinco saxes fazendo aquilo. O que eu inventei foi o arranjo para botar a sugestão no lugar certo”.

Censura
Por exaltar as qualidades e a grandiosidade do país, “Aquarela do Brasil” marcou o início do samba-exaltação. Pela natureza ufanista, a canção passou a ser vista por alguns como favorável à ditadura de Getúlio Vargas. A família negava essa admiração do compositor pelo regime, destacando o fato de que ele também escreveu “Salada Mista”, música gravada em 1938 por Carmen Miranda, que criticava o fascismo apoiado por Getúlio. Outro fato importante é que, antes do lançamento de “Aquarela do Brasil”, o Departamento de Imprensa e Propaganda vetou o verso “terra do samba e do pandeiro”, por entender que ele “depreciava o Brasil”. Ary teve de conversar com os censores para preservar o verso.

Briga
Dois dos maiores defensores da música brasileira romperam laços por conta de “Aquarela do Brasil”. Em 1940, Ary inscreveu a canção no concurso de sambas para o Carnaval, que tinha Heitor Villa-Lobos na comissão julgadora. Ao sair derrotado, Ary se considerou vítima de uma injustiça e encontrou no maestro o culpado. Apenas em 1955, ao receber a Comenda da Ordem do Mérito Nacional ao lado de Villa-Lobos, foi que Ary ficou sabendo que o maestro, ciente de dificuldades financeiras passadas por David Nasser, resolveu ajudá-lo com o prêmio do fatídico concurso. Com a notícia, Ary e Villa-Lobos se reconciliaram.

Raphael Vidigal

Fotos: Disney; e Museu da Imagem e do Som, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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