7 curiosidades sobre João Gilberto

“Então houve um silêncio. Olharam-se; e seus pensamentos, confundidos na mesma angústia, abraçaram-se com força, como dois peitos palpitantes.” Gustave Flaubert

Tiete, o rapaz não titubeou ao avistar o poeta: o chamou de mestre, pediu um autógrafo e guardou a preciosidade num envelope pardo. Poucas horas depois, assim que chegou aos estúdios da gravadora Odeon, no Rio de Janeiro, largou com displicência a assinatura de Carlos Drummond de Andrade em um canto qualquer e nunca mais a avistou nem se preocupou com isso. O rapaz era João Gilberto (1931-2019), Papa da Bossa Nova. Essa e outras histórias são contadas na entrevista a seguir, concedida pelo jornalista Raphael Vidigal à repórter Jessica Almeida.

1 – O João Gilberto veio parar em Diamantina por conta de uma irmã dele que morava lá, a Dadainha. Mas a vinda não foi simplesmente uma visita e ele acabou ficando mais tempo por duas temporadas, uma em 1955 e outra em 1957. O que fez com que ele resolvesse ficar?
Na verdade, essa questão permanece um mistério, como muita coisa que ainda cerca a vida de João Gilberto. O que se pode dizer é que talvez ele tenha encontrado na cidade o sossego que procurou durante toda a vida para tocar o seu violão. João Gilberto era um homem nascido no interior da Bahia, em Juazeiro, que nunca gostou dos holofotes e deu raríssimas entrevistas. O certo é que, como relatam, mesmo em Diamantina ele pouco saía de casa. Primeiro ficou hospedado na casa da irmã, que na época estava grávida, e depois em um sobrado na cidade de Diamantina.

2 – Como foram esses períodos que ele passou lá? A história que mais se conta é a de que ele ficava enfurnado no banheiro fazendo suas experimentações musicais porque a acústica ali seria mais adequada… em que medida isso é verdade e o que mais ele fez em Diamantina durante esses períodos?
É difícil saber em que medida isso é verdade, porque há relatos contraditórios. Que João passava horas dentro de casa tocando violão, isso ninguém nega, aliás é algo que aconteceu até o final da vida. O maior contato dele com as pessoas do mundo externo era através do telefone. Todas as pessoas que tiveram algum contato com ele ao longo da vida contam que o viram uma ou duas vezes, no máximo, ou nunca o viram, mas que falaram diversas vezes com ele pelo telefone, que costumava ligar até de madrugada, enfim. Também se sabe que nesse período em Diamantina, João foi abastecido com vários discos de jazz que pessoas da cidade levavam para ele, muitas vezes eram discos ainda raros o Brasil.

3 – Além do Wander Conceição, autor do livro, você conversou com a sobrinha (Glaucia Assumpção) de uma pessoa que foi vizinha (Eni Baracho) do sobrado em que o músico ficou hospedado. O que ela conta?
A Glaucia é sobrinha da Eni Baracho que, além de vizinha, era regente do conservatório de música de Diamantina. O relato da Glaucia é interessante porque diz que a tia, uma pessoa que obviamente entendia de música pela profissão que exercia, achava a coisa mais estranha do mundo aquela pessoa o dia inteiro tocando a mesma nota, e também falava que o João era muito introvertido, fechado, claramente não queria se entrosar com as pessoas. Mas a questão de repetir a nota é reveladora da personalidade do João e do estilo que ele ajudou a construir. Além da obsessão pela perfeição, se você ouvir as canções de João Gilberto, parecem sempre as mesmas músicas, o que ele fazia era pegar qualquer música e formatar dentro de um estilo que concebeu, essa batida de violão que caracterizava a bossa nova. João Gilberto gravou até ‘Me Chama’ do Lobão, com a mesma batida que gravou ‘Corcovado’, de Tom Jobim.

4 – Na reportagem tem uma fala do Zuza Homem de Mello, autor de “João Gilberto” (2001), focado na obra do compositor, e de “Eis Aqui os Bossa-Nova”, sobre as principais etapas do movimento. Ele refuta um pouco a teoria ou talvez a forma como ela é transmitida. O que ele diz sobre a influência dessas passagens por Diamantina na obra do João Gilberto, afinal?
A constatação que o Zuza faz é que dizer que a bossa nova nasceu num banheiro em Diamantina torna essa história mais saborosa e até inusitada, o que ele quis dizer é que, provavelmente, João já vinha procurando aquela batida de violão há muito tempo, ou seja, começou a construir um pouco aqui, outro pouco ali, foi um processo contínuo, em várias etapas, e talvez tocar num banheiro em Diamantina tenha sido uma dessas etapas, mas não foi algo tipo um eureka, entrei no banheiro e criei a bossa nova.

5 – Ary Barroso e Geraldo Pereira teriam sido os únicos mineiros gravados pelo João Gilberto, não fosse por um terceiro, seu contemporâneo, que você também ouviu na matéria. Quem é ele e qual é a história dessa gravação?
O nome dele é Roberto Guimarães, está com 80 anos e mora em Belo Horizonte até hoje. Roberto conheceu João quando ele veio se apresentar na cidade em 1959, no antigo teatro do Minas Tênis Clube. Depois, foram todos para a casa da tia de uma amiga em comum, inclusive o João. Eram todos jovens de 20 e poucos anos e o Roberto foi incentivado pelos amigos a mostrar ali na hora uma música dele para o João. O Roberto mostrou 4, e o João resolveu gravar “Amor Certinho”, que saiu um ano depois no LP “O Amor o Sorriso e a Flor”, o segundo da carreira do João Gilberto, que trazia a clássica gravação para ‘Samba de Uma Nota Só’.

6 – Além de Diamantina, ele também tinha uma relação com Belo Horizonte, foi amigo e parceiro do Pacífico Mascarenhas, músico aqui da capital. O que o Pacífico conta dessa relação?
Ele se lembra de um caso inusitado vivenciado com João, quando os dois se encontraram no hotel Normandy, na rua dos Tamoios, isso na década de 60. Como de costume, João não trouxe violão para tocar, sempre pegava o de alguém emprestado. Dessa vez, pegou o do Pacífico, era um violão com corda de nylon, feito para se tocar bossa nova. O Pacífico emprestou para o João e, quando apareceu o Pedro Matheus, um cantor cego, ele ficou doido com o violão e João simplesmente deu o violão, que era do Pacífico, para o Pedro Matheus.

7 – Ele chegou a oferecer pro João Gilberto um lugar pra morar em Diamantina. Como foi isso?
No final da vida João enfrentou algumas situações muito difíceis, entrou numa penúria financeira, estava morando de favor na casa de amigos no Rio, foi interditado pela família porque não podia mais tomar decisões importantes, como assinar contratos e outras questões. A obra dele ainda está embargada por conta de brigas na justiça entre familiares e gravadoras. O homem que gravou inúmeros sucessos morreu sem dinheiro, lamentavelmente, e o Pacífico ofereceu essa casa em Diamantina como forma de tentar ajudar, mas já muito recluso, João não chegou a responder. Quem falou com Pacífico foi a Miúcha, ex-mulher dele, que também morreu no ano passado, e transmitiu o recado de que o João tinha ficado comovido com a oferta.

Fotos: Michael Ochs/Divulgação

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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