Joyce Moreno: “Nunca tinha visto um governo com este ódio à cultura”

“Procuro palavras para definir o que sinto e não encontro. Talvez elas nem sequer existam, talvez seja apenas um fluxo mais forte de vida abrindo os sentidos, embrutecendo o raciocínio.” Caio Fernando Abreu

Logo que surgiu, a cantora Joyce Moreno, 71, chamou atenção por ser uma mulher dona do próprio discurso. Ou seja, além de cantar, ela era a autora de obras que, com melodias inspiradas na bossa nova e uma lírica particular, desvendavam o universo feminino sob o prisma único da mulher que se colocava como detentora dos próprios desejos e vontades. Ao festejar, em 2018, os 50 anos de seu LP inaugural, ela decidiu regravá-lo na íntegra. Ali estava presente “Me Disseram”, que integra a sétima coletânea da Mostra Cantautores. Joyce comemora o lançamento mas, com todo seu tempo de estrada, se revela preocupada com a valorização da autoria, grande mote da mostra.

1 – O que foi mais marcante para você na sua participação na Mostra Cantautores?
Gostei muito de tudo, as conversas sobre música e criação com músicos e jornalistas, o show solo para um público incrível, foi tudo ótimo. Mas o ponto alto em Minas são sempre as comidinhas, não conte pra ninguém (risos). Agora falando sério, acho muito importante que se celebre a autoria, sempre. Estamos vivendo um momento em que os autores são escondidos do público por estas novas plataformas digitais. Ninguém mais sabe quem são os autores das músicas. Isso é muito grave, pois somos produtores de conteúdo, e sem conteúdo as plataformas não existem.

2 – Como tem visto o momento político de polarização do país e o que pensa sobre a situação da cultura?
Bom, em minha carreira de 50 anos na música, pensei que já tinha visto de tudo. Mas este ódio a cultura que vem sendo fomentado pelas altas instâncias governamentais, isso eu nunca tinha visto. Acho essa polarização terrível, o país está muito doente. Famílias se desentendendo, amizades de anos e anos sendo desfeitas, uma parte da sociedade rejeitando a ciência, o progresso, a cultura, a civilização. Outra parte se sentindo exausta, deprimida, sem energia. Isso é alimentado diariamente, como uma forma perversa de manutenção do poder. Ou mesmo para desviar a nossa atenção. Isso não vai dar certo nunca. Quando a ficha cair, tudo que foi conquistado e construído por décadas terá desmoronado. E levaremos o dobro do tempo para reconstruir. Por mim, não tenho medo de nada, mas temo pela geração dos meus netos. São eles que terão que lidar com as consequências do que deixamos acontecer hoje.

3 – Quais são os seus planos mais imediatos?
Não sou muito de fazer planos, as coisas vão acontecendo em sequência e eu apenas acompanho o fluxo. No momento, estou numa turnê entre Europa e Estados Unidos. Daqui a um mês estarei no Japão. O próximo projeto é o de um DVD referente aos 50 anos de carreira, mas bem diferente do formato de show gravado, será uma coisa mais documental mesmo. Basicamente, é isso.

Raphael Vidigal

Fotos: Léo Aversa/Divulgação

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on linkedin
LinkedIn
Share on email
Email

Comentários pelo Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recebas as notícias da Esquina Musical direto no e-mail.

Preencha seu e-mail:

Publicidade

Quem sou eu


Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

Categorias

Já Curtiu ?

Siga no Instagram

Amor de morte entre duas vidas

Publicidade

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com