Entrevistas: A nova música mineira feita por mulheres

“Eu, mulher dormente, na líquida noite
alargo a ramagem de meus cabelos verdes.
Sigo dentro desse cristal ondulante,
contida como o som nos sinos imóveis.” Cecília Meireles

Para ninar o “filhote que acabava de chegar ao mundo”, Elisa de Sena, 37, compôs, em 2016, “Meu Preto”, quando o seu filho tinha apenas 2 meses. “Eu estava imersa na maternidade e na amamentação, sem dormir à noite, com 24 horas por dia de dedicação a ele”, conta Elisa. Luiza Brina, 31, também passou noites em claro. A morte do menino sírio Alan Kurdi, de 3 anos, numa praia da Turquia, em setembro de 2015, expôs ao planeta o drama dos refugiados e tirou o sono da cantora. A dor daquela imagem foi transformada por Luiza em “Estrela Cega da Turquia” (parceria com Thiago Amud), em que ela canta: “Nem incenso, nem ouro, nem manjedoura, nem altar/ Numa praia fria da Turquia/ Eu vou ninar um menino à beira-mar”.

“Gosto de aprender e me deixar absorver, para isso se refletir na minha música”, diz Luiza. Ao citar mulheres que lhe serviram como referências, a guitarrista e vocalista da banda Moons, Jennifer Souza, 31, enumera Billie Holiday, Cássia Eller, Elis Regina e Björk, e não deixa passar o nome da conterrânea e contemporânea Luiza Brina. “É sempre encorajador ver mulheres ocupando posições que foram majoritariamente ocupadas por homens”, destaca Jennifer. Abaixo você confere as entrevistas com essas três artistas lançam trabalhos novos.

Luiza Brina

1 – Porque o álbum foi batizado de “Tenho saudade Mas Já Passou” e o que esse batismo revela sobre o conjunto do disco?
Essa frase está presente em uma canção que, de última hora, acabou não entrando para o disco. Ao percebe-la ali, retirada do contexto inicial, a frase fez muito sentido para mim com relação ao caminho musical e ao assunto desse novo trabalho. Isso porque, de um lado, o disco é em si uma reverencia à canção produzida até agora no Brasil, e portanto a saudade, e, de outro, um apontamento para novas descobertas na música brasileira e um desejo de dialogar com o novo e os novos, ou seja, mas já passou.

2 – Porque a única música não autoral escolhida para ser interpretada foi “Queremos Saber”?
Sou fascinada pela obra do Gilberto Gil. Amo como ele fala de espiritualidade, política, filosofia, amor, tudo junto numa mesma canção, e em tantas canções, de um jeito tão direto e tão bonito. Além disso, ele é um gigante do voz e violão, né? “Gil Luminoso”, “Gil Ao Vivo na USP”, “Viramundo”, tantos discos aonde ele nos arrebata com sua performance voz e violão. Então comecei a tentar tirar os arranjos igual a como ele toca. E isso foi se tornando parte do meu repertório, do meu jeito de tocar, cantar, viver a canção. “Queremos saber” é uma dessas canções que toco há muito tempo nas rodas de violão, em casa, com os amigos, acho ela muito especial. E, embora essa música seja da década de 70, acho que, mais do que nunca, nesse contexto político delicado em que o Brasil se encontra, ela traz questionamentos essenciais para o tempo de agora.

3 – Queria que você comentasse a música “De Cara”. Como ela nasceu?
Eu amo as canções de amor. Acho que uma mesma canção de amor pode tocar pessoas muito distintas, porque é um tema que atravessa quase todos nós. E, dentre as canções de amor que eu amo, as que foram feitas pela Adriana Calcanhotto me tocam especialmente. E ela foi a referência para esta canção. “De Cara” é uma canção sobre um delicioso, mas desajeitado encontro entre duas personagens mulheres. A letra é do César Lacerda, que é o diretor artístico desse disco. Durante o processo de criação das canções, ele me instigou a compor algo inspirada nessas canções da Adriana, por conta das conversas que tivemos, dessa paixão pelas composições dela. Fiz então a música e ele a letrou.

4 – Qual a sua mais remota lembrança musical e quem são suas influências?
Difícil dizer qual a mais remota lembrança musical. Tenho algumas lembranças de quando criança, como eu pedindo às minhas avós, pianistas, que me ensinassem música, e elas então me ensinando a tocar e a entender as primeiras notas. Lembro também da minha mãe me chamando para escutar, bem alto, um disco da Rita Lee, de 1980. Minha mãe gostava de cantar abrindo uma segunda voz, e ficava me instigando a fazer isso também. Eu adorava, achava aquilo divertido. A Rita foi minha primeira grande influência. Aos 11 anos comecei a estudar violão para aprender a tocar as músicas dela. Depois veio a Adriana Calcanhotto, o Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso. Na adolescência também comecei a ouvir, conhecer e me encantar profundamente com a cena de Belo Horizonte, de uma geração que veio logo antes da minha, formada por Marina Machado, Mauricio Tizumba, Regina Souza, Titane, Makely Ka, Kristoff Silva, Pablo Castro, muita gente. Quando me mudei para o Rio de Janeiro, em 2009, comecei a estudar com o Itiberê Zwarg, baixista do Hermeto Pascoal e Grupo, e me apaixonei muito por essa música que o Hermeto nomeou de Música Universal. Também no Rio estudei com um percussionista chamado José Izquierdo, e me envolvi profundamente com os ritmos tradicionais da América Latina.

5 – Como surgiu a ideia do convite para a Fernanda Takai participar do álbum?
A Fernanda Takai é, para mim, uma referência de grande cantora e compositora, mulher. Admiro muitíssimo o seu trabalho e a sua carreira, desde o Pato Fu, que também marcou minha adolescência, até sua carreira solo. A canção que a Fernanda participa no disco é a “Acorda Para Ver o Sol”, parceria que fiz com o incrível letrista Ronaldo Bastos. Começamos a gravar o arranjo dessa canção no disco, e um dia imaginei ali a voz da Fernanda, percebendo alguma semelhança entre essa canção e o trabalho solo dela. Achei que ficaria bonito. Fiz o convite e ela aceitou. Foi uma alegria.

6 – Como é ser uma mulher compositora na cena de BH?
Embora meu desejo fosse responder que ser uma mulher compositora é igual a ser um homem compositor, infelizmente não funciona assim. Mas, nos últimos anos, temos lutado e conseguido conquistar, cada vez mais, visibilidade e reconhecimento das mulheres como agentes da música. Sinto que, cada vez que uma mulher se apropria desse lugar de compositora, outras se inspiram e começam a se apropriar também, e esse é um movimento em sentido ascendente. A relação com a composição é antiga na minha vida, e a mulher que me inspirou foi a Rita Lee, no início da adolescência. Porque além dela ser essa compositora gigante, ela já trazia essas questões à tona, falando abertamente sobre as dificuldades de ser uma mulher compositora e roqueira no Brasil, expondo radicalmente as dificuldades que teve de enfrentar por conta disso. E então, de alguma maneira, ela me fez acreditar na possibilidade de desejar tentar também esse caminho. E todo esse movimento acontece nacionalmente e também em Belo Horizonte, onde tem uma cena riquíssima e diversa com cada vez mais mulheres compositoras Eu sou de BH, minha raiz musical é sem dúvida nenhuma mineira, mas vivi durante quatro anos no Rio de Janeiro e atualmente vivo em São Paulo. Sinto que as cidades por onde já vivi refletem naturalmente na minha criação, e gosto disso, gosto de aprender e me deixar absorver pelos lugares até que eles reflitam na minha música.

7 – O que esse disco tem a dizer de mais forte sobre os dias atuais?
O Brasil vive uma panela de pressão. Gostaria que esse disco chegasse às pessoas como uma forma de respiro, uma possibilidade de encantamento com a música, um desejo de cantar, soltar a voz e, junto dela, as amarguras desses tempos sombrios, provendo em cada um a coragem pra enfrentar as gravidades do nosso tempo e o desejo de fazer o Brasil dar certo.

Elisa de Sena

1 – O que esse trabalho representa na sua trajetória e como recebeu a notícia de que ele havia sido selecionado para o Natura Musical?
Considero esse trabalho um marco e o primeiro grande passo na minha trajetória como artista solo. Gravar um álbum, por mais que tenha se tornado mais simples, tendo um home studio e a tecnologia a nosso favor, ainda é algo complexo, principalmente se pensarmos que há uma série de equipamentos, trabalhos e trabalhadores em torno da maturação, que envolvem tempo, dedicação e dinheiro. Eu tenho anos de trajetória na música e só agora consigo lançar esse disco de 11 faixas. Isso tem a ver com dedicação pessoal sim, mas tem a ver principalmente com apoio e patrocínio. Em 2017 eu consegui lançar um single de forma independente (“MAGIA + TEMPLO – poesia armada”), na época eu já queria lançar um EP de no mínimo 4 músicas, mas isso não foi possível por falta de dinheiro e tempo. Ter sido selecionada pela Natura Musical já transformou o meu trabalho como artista independente. Eu recebi a notícia da seleção com gratidão e alegria. Receber um apoio financeiro para realizar algum trabalho artístico sempre é uma grande conquista, receber o apoio da Natura para mim é uma realização. Há anos eu admiro o trabalho que a Natura vem fazendo na música e sou fã de várias das artistas que são e foram patrocinadas pela empresa. Tenho amigas artistas em Minas que, com muito trabalho, conseguiram lançar seus discos solo de forma independente. Eu, na atual conjuntura da minha vida, não teria condições de lançar esse disco se não tivesse as parcerias que tenho agora.

2 – Porquê o disco foi batizado como “Cura” e o que esse batismo revela sobre o conjunto das canções?
“Cura” é um nome que chegou durante o processo de gravação. A gente pensa mil nomes antes de ter um filho, mas parece que quem decide o nome é o próprio filho. “Cura” tem 3 significados com os quais me identifico muito nesse trabalho, que são os de melhora, restauração e restabelecimento da saúde; amadurecimento, maturação e conservação dos alimentos; e iré, ritual de iniciação espiritual. Esse disco chega quando eu completo 37 anos, foram anos de maturação, ele é meu ritual de iniciação e também um instrumento de retorno a minha essência, à minha melhora.

3 – De que maneira ser uma mulher negra interfere no seu fazer artístico?
Impossível separar meu lugar de fala do meu fazer artístico, sendo assim ser uma mulher negra atravessa diretamente a minha obra. Mas isso não me amarra, nem deve reduzir a minha liberdade de criação, por que eu, como qualquer mulher, sou múltipla e posso apresentar várias facetas Se eu puder falar de direitos humanos, de políticas sociais, de feminismo ou de amor, tudo isso será transpassado pelo meu lugar de fala, pelas minhas experiências, pelas dores e delícias de ser uma mulher, negra e mãe. A música autoral mineira sempre foi rica. Temos algumas grandes referências que conseguiram definitivamente ultrapassar as nossas montanhas, como Milton Nascimento e Clara Nunes. Mas não há dúvidas de que a música mineira conhecida nacionalmente é prioritariamente branca e masculina. Vejo várias artistas mineiras contemporâneas a mim fazendo um trabalho de difundir a música mineira diversa na sua origem e no seu resultado estético, como Nath Rodrigues, Manu Dias, Josi Lopes, Maíra Baldaia, Ohana, Tamara Franklin, dentre tantas outras. Eu venho somar ao coro delas.

4 – O que te inspira a compor e como é o seu processo?
Tudo que me “atravessa” me inspira a compor. O que me faça sentir viva, o que me tira um pouco de vida, o que me lembre que estou viva. O meu processo é muito natural, na maioria das vezes a música vem. Eu sinto algo forte, começo a pensar nisso e a música vem vindo. Depois, eu lapido ou não. A quarta faixa do álbum, chamada “Meu Preto” é uma música que eu fiz para o meu filho. Em 2016, ele tinha uns dois meses e eu estava imersa na maternidade, na amamentação, sem dormir a noite, 24 horas por dia de dedicação ao filhote que acabava de chegar ao mundo. Essa música veio como uma cantiga de ninar.

5 – Qual a sua primeira lembrança musical e quem foram as suas referências e inspirações?
Eu cresci escutando MPB. Minha mãe deixava um rádio ligado o dia inteiro e, na adolescência, eu já sabia cantar vários clássicos da MBP, Tropicália, Bossa Nova, Jovem Guarda, Mutantes, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Luiz Melodia e afins, foi o que entrou nos meus ouvidos de criança. Depois, eu ouvi muito pagode, axé music e funk das antigas, cresci no bairro Goiânia e isso explica muita coisa. Mas depois da fase da música de massa, eu comecei a me interessar pelos artistas que estavam ousando nas criações, experimentando recursos eletrônicos, novas formas de colocar a voz e, principalmente, percussão afro-brasileira como carro de frente da música popular. Minhas referências e inspirações são muitas, mas prioritariamente a música brasileira, que é tão diversa e rica. Hoje, eu posso citar a atemporal Elza Soares como uma artista conectada com seu tempo e que está sempre se reinventando. E também a banda BaianaSystem, como artistas contemporâneos que são certeiros na ética do discurso e na estética musical.

Jennifer Souza

1 – O que esse disco representa na trajetória da banda?
“Dreaming Fully Awake” é o nosso terceiro disco. A maneira como ele foi composto foi muito natural e amorosa. A medida que estreitamos os laços afetivos entre nós e nos tornamos uma família, que inclui a presença das nossas namoradas, esposas, cachorros e etc., o fazer musical se tornou muito espontâneo e sensível. Essas relações são a base do nosso trabalho. Nesse disco essa intimidade fica ainda mais evidente. Essa maturidade nas relações pessoais entre nós reflete de forma muito clara na evolução musical da banda. Até a forma como “Dreaming Fully Awake” foi gravado, ao vivo, num sítio, num gravador analógico de fita, sem computadores, com a banda tocando como se fosse um ensaio, só foi possível pelo fato de estarmos nesse nível de conexão afetiva e musical. Esse aspecto é o maior diferencial em relação aos dois primeiros álbuns.

2 – De que a maneira a influência de Nick Drake está presente no trabalho da banda e por quê a escolha de compor em inglês?
Nick Drake era uma figura de sensibilidade muito aguçada. Isso fica claro em sua obra. Talvez por isso não tenha suportado a vida e se foi cedo. É admirável e inspirador a forma sincera como ele deixava fluir suas emoções em forma de música. Isso nos toca e influencia. Sobre cantar em inglês, nada além de uma simples escolha estética.

3 – Como é ser uma mulher instrumentista dentro da cena de BH?
Comecei a tocar bem nova, aos 10 anos de idade. Com 18 anos, eu já tinha a primeira banda autoral e de lá pra cá não nunca parei de tocar profissionalmente. Então, para mim, foi um caminho muito natural e espontâneo desde muito cedo. Nunca acreditei de verdade que poderia seguir em outra direção mesmo que naquela época ainda fosse algo mais raro estar nessa posição. Cheguei a considerar estudar outras coisas, não por ser mulher, talvez por imaginar que seria muito difícil, e é, ganhar a vida como artista. Mas música sempre foi a minha vocação mais forte, principal. Acho que não só hoje em dia, mas sempre, mulheres ocupando lugares e posições, que na história foram e são majoritariamente ocupados por homens, é encorajador e fortalece muito os movimentos de criação, formação e de empoderamento, para que cada vez mais consigamos equilibrar essas diferenças.

4 – Você também compõe? O que te inspira a criar? Como é o seu processo?
Sim, componho. Todos os discos que lancei até aqui, tanto com os coletivos quanto com o trabalho solo, são autorais. A inspiração vem de muitos lugares, acho que para nós, artistas, quase tudo é combustível para criação. Se a gente tem tempo de prestar atenção, de estar de fato conectado com as coisas, as relações, a natureza, com nós mesmos, conseguimos acessar a poesia que a vida carrega e apresenta no nosso cotidiano. Acho que essa inspiração fica aqui guardada num lugar muito íntimo e profundo e consigo acessá-la para criar música em momentos raros, mas muito intensos. Componho pouco e normalmente quando sai alguma música, é algo pouco arquitetado, e quase sempre termino tudo, faço harmonia, melodia e letra, no mesmo dia.

5 – Em quais mulheres se espelhou para seguir a carreira na música e qual a sua primeira lembrança musical?
Pensando em quando era novinha, Adriana Calcanhotto sempre foi uma referência forte. Alanis Morissette quando estourou com o disco “Jagged Little Pill” mexeu muito comigo também. Mas são muitas as artistas que me inspiram. Citando algumas, me lembro de Nina Simone, Billie Holiday, Sarah Vaughan, Feist, Adrianne Lenker, Lhasa de Sela, Cássia Eller, Elis Regina, Luiza Brina, Ceumar, Déa Trancoso, Céu, Carole King, Janis Joplin, Fiona Apple, Björk, Jessica Pratt, Laura Mvula, Norah Jones, Mayra Andrade, dentre muitas outras. Minhas lembranças musicais mais antigas são da minha mãe em casa tocando violão, e do meu pai tocando e cantando seresta nos bares, na rua.

Raphael Vidigal

Fotos: Montagem com fotos de Renata Queiroz, Paulo Abreu e Nadja Kouchi; respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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