7 músicas raras de Cazuza

“Meu caminho nesse mundo, eu sei, vai ter um brilho incerto e louco…” Cazuza

Cazuza é um dos mais prolíficos compositores brasileiros, principalmente no que tange a parcerias, não só a tempo de vida. Morto aos 32 anos, pelos efeitos da AIDS, o poeta exagerado praticou em vida a arte do encontro, e encarnou o ideal brasileiro da mistura, da mestiçagem, do liquidificador em segredos compartilhados com o público. Gregário e explosivo, lírico e desbocado, Cazuza passeia em raras parcerias ao lado de amigos como Léo Jaime, Fagner, Dulce Quental, Celso Blues Boy e o inseparável Roberto Frejat; e ídolos como Maysa e Belchior. 7 raridades dignas deste nome.

Diplomacia (dor de cotovelo, 1958) – Maysa
Ainda nos tempos de “Barão Vermelho”, provavelmente no ano de 1982, Cazuza registrou a sua curta versão para a dor de cotovelo de Maysa. “Diplomacia”, originalmente lançada em 1958, revela a visceral influência do gênero na obra de Cazuza, umbilicalmente ligada com a sua existência. Apesar de garantir que o seu olhar sobre os amores desfeitos do lado escuro da vida era sempre cínico, o intérprete se entregava em apresentações explosivas. Como na existência, Cazuza dá o seu recado de maneira curta e incisiva nesta canção responsável por mostrar porque o “Barão Vermelho” já era diferente.

Amor, amor (balada, 1984) – Cazuza, Frejat e George Israel
Depois da música “Pro Dia Nascer Feliz” ser lançada por Ney Matogrosso o “Barão Vermelho” experimenta, pela primeira vez, o sucesso. Mas começa a se acostumar com ele a partir de “Beth Balanço”, música criada para filme dirigido por Lael Rodrigues e protagonizado por Débora Bloch, em que os integrantes da banda fazem uma participação. No lado B do compacto estava, escondida, “Amor, amor”, balada de Cazuza, Frejat e George Israel também interpretada no longa-metragem. O discreto acolhimento deve-se, certamente, ao estouro da canção-título. Apesar de Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, preferir “Amor, amor”.

Hot Dog (rock, 1984) – Leiber e Stoller em versão de Léo Jaime
Cazuza e Léo Jaime sempre foram amigos de longa data. Foi Léo, inclusive, que indicou Cazuza para ser vocalista da banda “Barão Vermelho”, recusando ele mesmo o posto por considerar o estilo “pesado demais”, já que estava mais ligado ao rockabilly de “João Penca e Seus Miquinhos Amestrados”. Para compensar o fato de nunca terem composto uma canção juntos, exceção feita à debochada e brincalhona “me chamam pobre, mas meu nome é pobreza”, jamais registrada em disco; os dois celebraram a amizade nesta versão de Léo para “Hot Dock”, com a participação de Wanderley, o cachorro de Cazuza.

O Trapalhão Super-Herói (infantil, 1984) – Cazuza e Frejat
No ano de 1984, o “Barão Vermelho” e Cazuza participaram de um programa e um filme com a temática infantil. Em “PLUNCT PLACT ZUM 2”, cantaram “Sub-Produto de Rock”, também incluída no “Rock In Rio” um ano depois. No filme “O Trapalhão na Arca de Noé”, primeiro em que Didi aparece sem as companhias de Mussum, Zacarias e Dedé por desentendimentos, a banda canta “O Trapalhão Super-Herói”. Com todo o seu potencial narrativo, Cazuza adere ao universo das crianças e sublinha a própria personalidade: “Não levo nada a sério, o que eu quero é pintar o sete, enfrento qualquer bicho…”.

Contramão (MPB, 1985) – Fagner e Belchior
Cazuza foi criado em casa com os “Novos Baianos”, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e “Os Mutantes”. Essas presenças não eram impalpáveis, em discos, mas reais, lá estavam eles dividindo o sofá e a casa com seu pai, João Araújo, dono da gravadora “Som Livre”. Por isso não espanta que as influências do compositor passeiem pelo blues e a música nordestina. Ele mesmo dizia que era cantor de rock por acaso, e se caísse numa banda de pagode estaria compondo do mesmo jeito. Amigo de Fagner, os dois lançaram juntos a música “Contramão”, em 1985, composição do cearense com Belchior.

Marginal (rock, 1986) – Celso Blues Boy
Para dar vazão a seu lado mais transgressor e subversivo Cazuza aceitou, em 1986, o convite do amigo Celso Blues Boy para gravar com ele a música “Marginal”. Nome melhor não haveria. Cazuza afirmava “ser marginal por uma decisão poética. Os marginais amam mais, odeiam mais, sentem tudo mais intensamente. Toda ovelha desgarrada está mais perto de Deus”. Cazuza aparece menos nessa gravação que em outras parcerias, mas o suficiente para que sua interpretação escandalosa e rascante marque esse encontro entre ícones ao mesmo tempo tão próximos e distantes no cenário do rock brasileiro.

Tudo é Mais (MPB, 1986) – Aldo Meolla
A gravação “Tudo é Mais”, música de Aldo Meolla lançada por Cazuza e Dulce Quental no disco da cantora de 1986, guarda o seu segredo pro final. Com influências do rock e da música popular brasileira assim denominada por sua sigla, a canção dá pistas de seu desfecho, com máximas que bem representam a personalidade do poeta exagerado e da cantora egressa da banda “Sempre Livre”. Além de tudo fica nítida a amizade e simpatia entre os intérpretes, o que amplia a sensação de acolhimento ao ouvinte. “Por que ser contra ou a favor? Pra mim tanto fez, tanto faz, eu escolho pelo sabor, e hoje tudo é mais…”.

cazuza-raridades

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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