5 músicas cantadas por Zacarias

“Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmuro para mim mesma:
‘É tudo imaginação!’

Mas sei que tudo é memória…” Cecília Meireles

zacarias

Mauro Gonçalves já era conhecido nas rádios de Minas Gerais por suas locuções e imitações antes de levar para a segunda e mais conhecida versão do programa “Os Trapalhões” a personagem de Zacarias. Adornado com voz fina, risada característica, peruca, roupas e gestos infantis, Mauro era considerado pelos outros integrantes do quarteto o único “realmente ator”. Não só pela formação; Didi e Dedé são oriundos do circo, e Mussum do samba, mas especialmente pela gama de recursos que dominava.

Embora tenha se consagrado interpretando Zacarias, Mauro já demonstrara talento em mais de uma personagem no rádio, na TV Itacolomi, na “Praça da Alegria” e inclusive nos palcos de teatro, onde foi premiado com a peça “A Dama do Camarote”. Fazendo uso de sua voz bastante peculiar, criada, diga-se de passagem, especialmente para a personagem, Zacarias, mais de uma vez, interpretou músicas que ganharam todo um charme e humor em filmes ou programas dos “Trapalhões”. Não por acaso o nome da personagem era inspirado num galo que teve ainda na infância, morando em Sete Lagoas.

A Filha do Seu Faceta [Papai Eu Quero Me Casar] (pastoril, 1981) – Renato Aragão
Sem dúvidas a música mais famosa na interpretação de Zacarias. “A Filha do Seu Faceta”, adaptação de um pastoril feita por Renato Aragão, é aquele típico caso em que a força do povo modifica a música, e altera seu título para o refrão, repetido insistentemente pelo intérprete: “Papai eu quero me casar”. Muito se fala da conotação homossexual atribuída à personagem de Zacarias, pois a ligação com a inocência e ingenuidade da infância sempre o manteve neste lugar ambíguo. Caracterizado como mulher, Mauro Gonçalves faz um dueto inesquecível com Didi, o pai, numa troça a convenções sociais e morais como o casamento, a sexualidade e os interesses financeiros, e em que personalidades são chamadas à roda, como Ney Matogrosso e Marlon Brando.

Perdi minha nega num forró (forró, 1982) – Renato Aragão
Neste forró composto por Renato Aragão para o filme “Os Trapalhões na Serra Pelada”, de 1982, e interpretado por Zacarias, o autor da letra e o cantor em questão colocam à prova o talento musical, e não deixam a peteca cair. Renato mostra-se um compositor laborioso, perspicaz, capaz de assimilar o conteúdo simples e a estrutura tradicional do ritmo, e a ele acrescentar, numa letra inteligente, ingredientes de um humor sutil. Mauro Gonçalves demonstra, não só com a voz, mas os gestos, as expressões faciais, a diferença entre cantar uma música e interpretá-la, dando às palavras sentido e substância. O resultado é mais uma peça divertida do período mais profícuo destes dois artistas do humor nacional, que juntos criaram momentos inesquecíveis de riso.

A Volta do boêmio [Boemia] (samba-canção, 1957) – Adelino Moreira
Nesta peça do tradicional repertório de Nelson Gonçalves, que lhe valeu o epíteto de “O Eterno Boêmio”, Zacarias, em seu pioneirismo, graceja naquilo que pode ser chamado de interpretação ou homenagem irreverente, em que o cantor desestrutura e elimina a aura tradicional da música. O tropicalismo e Arrigo Barnabé são exemplos de vanguardistas que seguiram essa receita. Para saber desarticular e entortar uma canção, fazendo uso de desafinação e dissonância é preciso muito recurso. Como diz Mario Quintana: “É preciso escrever um poema várias vezes para que dê a impressão de que foi escrito pela primeira vez.” Mauro Gonçalves, novamente, comprova ser um humorista como poucos, num dos quadros de maior sucesso do programa “Trapalhões”.

Melô do Peru (paródia, 1989) – Mauro Gonçalves
O próprio Mauro Gonçalves, na pele do intrépido Zacarias, é o responsável por essa paródia à música “Ilariê”, na época em que Xuxa aceitava brincadeiras e não se levava tão a sério. O registro é de 1989, e flagra uma das últimas aparições da personagem. Um ano depois, Mauro faleceria aos 56 anos, em circunstâncias que a família prefere não revelar. Para as gerações que o assistiram e as posteriores, que tiveram a oportunidade de reconhecer seu legado pela assimilação que obteve, com merecimento, junto ao universo pop, fica o exemplo da alegria, da descontração, da inocência e da esperança, em sua criação da criança de peruca e gestos desgovernados. Um pouco dessas palavras tem seu melhor resumo na dança que apresenta ao final da letra.

Belorizonten (forró, 1981) – Vital Farias
Mauro Gonçalves volta às origens neste forró de 1981, criação de Vital Farias para o longa-metragem “O Forró dos Trapalhões”, e presta homenagem à cidade que o acolheu. Ator de múltiplos recursos, na pele de Zacarias o intérprete consegue captar o sotaque e a maneira arredia com que o povo mineiro costuma pronunciar as palavras, lhe valendo, com justiça, o adjetivo da desconfiança. Pois se “pra bom entendedor, meia palavra basta”, para quê praticá-las inteiras, assim revelando todo o segredo contido numa informação? Se as palavras parecem esmagadas, amontoadas entre si, é só porque o mineiro tem para com elas enorme carinho e intimidade, e assim as dispõe sem a pompa que conferimos a cerimônias oficiais, em que o distanciamento reina. Por isso também Zacarias é tão próximo do povo mineiro, e do brasileiro, pois ao falar e dar sua risada revela em nós a criança escondida de que temos saudade, essa palavra só nossa.

zacarias-musica

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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