5 músicas de Cazuza para o Brasil atual

*por Raphael Vidigal

“Brasil, mostra a tua cara!
Quero ver quem paga pra gente ficar assim…
Brasil, qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim…” Cazuza

Questionado pela jornalista Marília Gabriela sobre a quem direcionava o seu desprezo total, Cazuza não titubeou, como era de seu feitio: “Eu tenho desprezo total pela direita e pela igreja. Eu acho a direita uma coisa tão mesquinha, o poder individual. A Aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da igreja. A Aids caiu assim como um tailleur para eles, que nunca estiveram tão elegantes. E deselegantes, principalmente”, disparou.

A entrevista foi concedida em 1988, no programa “Cara a Cara”, mas, assim como grande parte da obra de Cazuza, ela dialoga diretamente com o momento atual, como uma lâmina cravada sobre o coração do mundo. Ao ser entrevistado por Jô Soares no SBT, ele anunciou seu apoio ao PT, que via como “uma coisa nova, cheia de esperança”. No mesmo ano, Cazuza protagonizou outro episódio polêmico, ao cuspir na bandeira do Brasil durante uma apresentação no Canecão, famosa casa de shows do Rio de Janeiro.

“Eu realmente cuspi na bandeira, e duas vezes. Não me arrependo. Sabia muito bem o que estava fazendo, depois que um ufanista me jogou a bandeira da plateia. O senhor Humberto Saad (jornalista) declarou que eu não entendo o que é a bandeira brasileira, que ela não simboliza o poder, mas a nossa história. Tudo bem, eu cuspo nessa história triste e patética. Os jovens americanos queimavam sua bandeira em protesto contra a guerra do Vietnã. Será que as pessoas não têm consciência de que o Vietnã é logo ali, na Amazônia, que as crianças índias são bombardeadas e assassinadas com os mesmos olhos puxados?”, declarou.

Em 1985, no dia da eleição de Tancredo Neves, após duas décadas de uma sinistra ditadura militar, Cazuza se enrolou em uma bandeira do Brasil na apresentação do Barão Vermelho no primeiro Rock in Rio, enquanto cantava a música “Pro Dia Nascer Feliz”, e, ao final, desejou: “Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã, com um Brasil novo, uma rapaziada esperta”. A esperança segue impávida no horizonte.

“Ideologia” (rock, 1988) – Cazuza e Roberto Frejat
Às vésperas de entrar em estúdio para gravar o seu terceiro disco solo, Cazuza foi internado em Boston, nos Estados Unidos, onde deu prosseguimento ao tratamento contra a Aids com a qual ele havia sido diagnosticado em 1987. É desse período a letra de “Ideologia”, que batiza o mais importante álbum da carreira do eterno exagerado. Com melodia de Roberto Frejat, a composição é “sobre o que eu acreditava quando tinha 16, 17 anos, e como estou hoje. Eu achava que tinha mudado o mundo e que, dali para a frente, as coisas avançariam mais ainda. Não sabia que iria acontecer esse freio. É como se agora a gente tivesse que pagar a conta da festa”, nas palavras de Cazuza. A música foi regravada por Marina Lima, Paulo Ricardo, Sandra de Sá, entre vários outros.

“Brasil” (samba-rock, 1988) – Cazuza, Nilo Romero e George Israel
A partir de uma composição feita sob encomenda, Cazuza criou um dos hinos da música brasileira, e não apenas de sua geração. “Brasil” foi um pedido do cineasta Lael Rodrigues para a trilha sonora do filme “Rádio Pirata”, e surgiu exuberante na voz de Gal Costa na abertura da novela global “Vale Tudo”, em 1988. Cazuza e Gal a interpretaram em um dueto descontraído no especial da Rede Globo dedicado ao compositor. A música é pródiga em imagens impactantes e encontra Cazuza na plenitude de sua criatividade. “Brasil é um deboche sem autocompaixão, em que eu peço à pátria que me conte todas as suas sacanagens, que eu não vou espalhar para ninguém. Os problemas do Brasil parecem os mesmos desde o descobrimento: renda concentrada, a maioria da população sem acesso a nada. O problema todo do Brasil é a classe dominante, mais nada”, disse Cazuza. Cássia Eller a regravou.

“Blues da Piedade” (blues, 1988) – Cazuza e Roberto Frejat
A letra impiedosa e implacável de “Blues da Piedade” oferece uma espécie de paradoxo com o título dessa canção, lançada em 1988 no álbum “Ideologia”, e cantada por Cazuza em dueto com Sandra de Sá em show. Em outras palavras, Cazuza pede piedade a todos aqueles que são dignos de dó: “Agora eu vou cantar pros miseráveis/ Que vagam pelo mundo derrotados/ Pra essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas/ (…) Pra quem não sabe amar/ Fica esperando alguém que caiba no seu sonho/ Como varizes que vão aumentando/ Como insetos em volta da lâmpada”. Com metáforas poderosas, Cazuza enfia uma estaca no peito dos hipócritas e medíocres. Como era comum na parceria dos dois, Frejat criou a melodia depois de receber a letra de Cazuza.

“O Tempo Não Para” (rock, 1988) – Cazuza e Arnaldo Brandão
Todas as músicas do espetáculo de lançamento do álbum “Ideologia” já estavam definidas quando Cazuza apresentou a Ney Matogrosso uma novidade. O antigo vocalista do grupo Secos e Molhados era o responsável pela direção, iluminação e cenografia do show. Amigos de longa data, Cazuza e Ney haviam sido namorados em meados da década de 1970. Ao se deparar com a letra arrebatadora de “O Tempo Não Para”, Ney não teve dúvidas de que a música daria nome à turnê. Parceria com Arnaldo Brandão, “O Tempo Não Para” mescla a batalha pela vida de Cazuza com as agonias de um país em constante crise. “A música é sobre essa velharia que está aí e vai passar. Vão ficar as ideias de uma nova geração”, afirmou Cazuza. Ney, Simone e Zélia Duncan a regravaram.

“Burguesia” (rock, 1989) – Cazuza, Ezequiel Neves e George Israel
Urgência era a palavra de ordem na vida de Cazuza em 1989, já bastante fragilizado pela Aids. A música que deu título a seu derradeiro trabalho, um álbum duplo com 20 canções, foi definida pelo parceiro George Israel como “um verdadeiro tratado”. Já o outro compositor, Ezequiel Neves, produtor e companheiro inseparável de Cazuza, a definiu com seu humor ferino: “Quando Cazuza estava gravando ‘Burguesia’, eu falei: ‘Essa coisa está muito chata, você fala umas coisas que parece Titãs’. Faltava alguma coisa na letra e, de repente, eu tive essa tirada do ‘Enquanto houver burguesia/ Não vai haver poesia’, na qual depois os críticos caíram de pau”. Ácida, a letra traz momentos de autocrítica que são, no mínimo, inusitados e divertidos: “Pobre de mim que vim do seio da burguesia/ Sou rico, mas não sou mesquinho/ Eu também cheiro mal”.

Fotos: Sociedade Viva Cazuza/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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