100 anos de Carmen Costa, a voz que lançou ‘Cachaça’ e Luiz Gonzaga

*por Raphael Vidigal

“São cinco horas da manhã.
Observo a tradição,
Vou para o trabalho já:
Meu anzol já está prontinho,
Até logo, vou pescar.” Murilo Mendes

Carmen Costa (1920-2007) foi uma cantora popular na acepção da palavra, basta dar uma olhada em seu rol de sucessos, que se tornaram, inclusive, mais conhecidos do que ela própria. Nascida há cem anos em Trajano de Moraes, na região serrana do Rio de Janeiro, ela lançou, em 1942, o hino oficial do fim de festa, “Está Chegando a Hora”, uma versão da valsa mexicana “Cielito Lindo”, de 1882, feita por Rubens Campos e Henricão: “Ai, ai, ai, ai, está chegando a hora/ O dia já vem raiando, meu bem/ Eu tenho que ir embora”. Primeiro marido de Carmen, o compositor Henricão foi quem sugeriu que ela trocasse o nome de batismo Carmelita Madriaga por Carmen Costa para estrear na carreira artística.

Juntos, eles formaram uma dupla que colocou na praça alguns registros em 78 rotações, sem muita repercussão. De origem humilde, Carmen trabalhava como empregada doméstica na casa do exímio cantor Francisco Alves, o Rei da Voz, quando foi incentivada por ele a se arriscar no ofício. Em uma festa com a presença de Carmen Miranda, entoou o samba-choro “Camisa Listrada”, de Assis Valente, e foi aplaudida por todos. Logo, ela se acostumaria com a aclamação do público. Em 1943, a primeira diva negra da música brasileira apresentou ao país o então iniciante compositor Luiz Gonzaga, que participou da gravação de “Xamêgo”, parceria com Miguel Lima: “Todo mundo quer saber/ O que é o xamêgo/ Ninguém sabe se ele é branco/ Se é mulato ou negro”, avisava o irresistível refrão.

Um ano depois, Carmen emplaca o hit “Só Vendo Que Beleza”, outra de Rubens Campos com Henricão, popularizada como “Marambaia” e regravada por Elis Regina, Maria Bethânia e Elza Soares: “Eu tenho uma casinha lá na Marambaia/ Fica na beira da praia/ Só vendo que beleza”. O início da década de 1950 marca o estouro definitivo com “Cachaça” e dá a pista sobre um insurgente romance. Entre os compositores da marchinha, propagada a plenos pulmões pelos foliões, está Mirabeau, de quem Carmen se tornará amante. “Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não/ Cachaça nasce no alambique/ E água vem do ribeirão”, ensinam os versos etílicos. Na sequência, ela aposta no mesmo tema com “Tem Nego Bebo Aí”, de 1955.

Mas, nesse ínterim, dá voz a “Eu Sou a Outra”, de Ricardo Galeno, que escandaliza a hipócrita sociedade da época – não muito diferente da atual, diga-se de passagem: “Quem me condena/ Como se condena/ A mulher perdida/ Só me vê na vida dele/ Mas não o vê na minha vida”, canta Carmen. Com Mirabeau, ela tem a única filha, Silézia, e passa os noves meses da gestação escondida para preservar o amante, a quem, depois, acusa de ingratidão. Antes do rompimento entre eles, a cantora prossegue na estrada do samba-canção com “Quase”, de 1954, e “Obsessão”, de 1956, revivida por Clara Nunes em 1979, todas de Mirabeau com outros parceiros.

Ela mesma se torna parceira dele ao assinar canções com o pseudônimo Dom Madrid que criara para si, como “Lágrimas de Sangue”, de 1958. O samba carnavalesco “Jarro da Saudade”, de 1957, prenuncia o desfecho da lua de mel entre Carmen e Mirabeau: “Iaiá, cadê o jarro?/ O jarro que eu plantei a flor/ Eu vou te contar um caso/ Eu quebrei o jarro e matei a flor”. A intérprete passa temporadas nos Estados Unidos e se casa com o norte-americano Hans von Koehler. Em 1962, mesmo sem ter nada a ver com a Bossa Nova, participa do emblemático concerto no Carnegie Hall, em Nova York, que reuniu Tom Jobim, João Gilberto, Roberto Menescal e Carlinhos Lyra, e toca cabaça.

No mesmo ano, reafirma a ligação com a festa mais popular do Brasil ao gravar a “Marcha do Cordão do Bola Preta”, de Vicente Paiva: “Quem não chora, não mama/ Segura meu bem a chupeta/ Lugar quente é na cama/ Ou então no Bola Preta”. É, talvez, o último momento de ápice de Carmen. Nas décadas seguintes, ela presta tributo em disco a Paulo Vanzolini, realiza duetos com Agnaldo Timóteo e dedica, em 1980, um álbum inteiro a canções que têm como temática a prostituição, como “Dama do Cabaré”, de Noel Rosa, “Garoto de Aluguel”, de Zé Ramalho, “Valsa do Bordel”, de Toquinho e Vinicius de Moraes, “Sob Medida”, de Chico Buarque e “Boneca de Pano”, de Assis Valente, dentre outras. Uma preciosidade a ser redescoberta.

Durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula, que tinha como Ministro da Cultura o músico Gilberto Gil, Carmen, que atuou em chanchadas de sucesso como “Pra Lá de Boa” (1949), “Carnaval em Marte” (1955), “Depois Eu Conto” (1956), e gravou mais de 100 canções, distribuídas em compactos e discos, caso de “Se Eu Morrer Amanhã”, de José Garcia (“Se eu morrer amanhã/ Não levo saudade/ Eu fiz o que quis/ Na minha mocidade”), é publicamente “tombada” numa cerimônia realizada no Palácio do Planalto em 2003, e se torna, em vida, patrimônio cultural do Brasil. Ela agradece cantando, da forma como sabia melhor: “Eu sou a raça/ Sou mistura/ Sou aquela criatura/ Que o tempo vai tombar”.

“Cachaça” (marchinha de carnaval, 1953) – Mirabeau, Lúcio de Castro, Héber Lobato e Marinósio Filho
Batizada pelo sambista Henricão com o nome artístico de Carmen Costa, com quem, aliás, iniciou carreira em dupla nos palcos de Juiz de Fora, numa feira de mostras no Arraial do Rancho Fundo, interior das Minas Gerais, a intérprete especializou-se em sucessos carnavalescos, sendo o mais reconhecido de todos eles “Cachaça”, marchinha de carnaval lançada em 1953, cujos versos “Se você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não/ Cachaça nasce no alambique/ E água vem do ribeirão”, de inegável inspiração na sabedoria popular, ecoam até hoje nas festas momescas. A exemplo dos precedentes sambas-enredo, a música conta com a assinatura de um número expressivo de compositores, algo que se tornaria mais comum nas décadas seguintes.

“Defesa” (samba-canção, 1953) – Mirabeau, Vital de Oliveira e Jorge Gonçalves
Criado pelo educador Paulo Freire (1921-1997) na década de 1970, o termo “empoderamento” voltou à baila nos anos 2000. De acordo com uma pesquisa do Google, o primeiro pico de buscas pela palavra aconteceu em junho de 2013, durante protestos que marcaram o Brasil. Em 2016, “empoderamento” ficou em primeiro lugar na lista das palavras mais procuradas. Na música brasileira, o empoderamento feminino não é novidade. Antes da expressão alcançar a fama atual, Carmen Costa esbanjava atitude e coragem ao entoar “Defesa”, samba-canção de 1953: “Pouco importa que digam de mim o que quiser/ Mas na verdade eu sei honrar o meu santo nome de mulher/ Embora você diga a todo mundo que eu não presto/ Mas pra ganhar meu pão, eu ganho honesto”.

“A Dama do Cabaré” (samba, 1936) – Noel Rosa
O samba de Noel Rosa contém informações que possibilitam ao ouvinte associar a tal dama a uma prostituta. No entanto, relatos históricos afirmam que não era bem isso. Juracy Correia de Morais, conhecida como Ceci, viveu com Noel Rosa um tórrido romance, e desempenhava, na verdade, apenas a função de dançarina no cabaré, algo bastante comum na época. Pelo menos aparentemente. A forte repressão moral do período não nos desvia o olhar da hipocrisia como pano de fundo social. O certo é que esse samba lançado por Orlando Silva, e regravado por Marília Batista, Carmen Costa, Marcos Sacramento e diversos outros, revela os contornos de uma história de amor que não se importava com estereótipos. Permanece um sucesso de 1936 até hoje.

“Maria Que Ninguém Queria” (samba, 1974) – Paulo Vanzolini
Na década de 1950, o compositor paulistano Paulo Vanzolini produziu, com Raul Duarte, o primeiro Festival da Velha Guarda, que reergueu Pixinguinha, João da Baiana, Donga, e muitos outros. Já completamente entrosado no meio musical, em 1974 foi a sua vez de receber homenagem, através do amigo Marcus Pereira, dono da gravadora de mesmo nome, e dos cantores Paulo Marques e Carmen Costa, que sambaram, entre tantas, a irresistível “Maria Que Ninguém Queria”, composição que esbanja o humor afiado e incorreto de Vanzolini, destilando suas ironias contumazes sobre um caso conjugal prenhe de convenções absurdas e, incrivelmente, aceitas com naturalidade: “Maria que ninguém queria/ Eu resolvi reformar…/ Orgulho eu não tenho/ Mas sou homem demais pra 50%!”.

Imagens: Museu da Imagem e do Som/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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