5 músicas brasileiras para o Dia das Bruxas

“Em todo clima, ao sol, a Morte te admira
Em tuas contorções, risível Humanidade,
E, ás vezes, como tu, ungindo-se de mirra,
Mescla a sua ironia à tua insanidade!’.” Baudelaire

Cantores brasileiros interpretaram músicas de teor místico

Embora não seja tradição nacional, o Brasil, país antropofágico por excelência, rapidamente aderiu o “Dia das Bruxas” ao seu calendário. A comemoração por essas bandas, no entanto, conta com as próprias lendas e fantasmas e, também, claro, músicas de sua autoria. Daí que Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Luhli, a turma dos “Secos & Molhados” e alguns outros sejam conclamados. A música deles, como se constata, é um assombro. Pois do susto para a admiração basta um salto. E é com as notas e versos musicais que espantaremos todos os males…

O Vira (MPB, 1973) – Luhli e João Ricardo
Antes mesmo de iniciar parceria de enorme sucesso com a cantora, compositora e instrumentista Lucina, a carioca Luhli conheceu duas figuras que mudariam sua trajetória artística: o português João Ricardo e o pantaneiro, como o próprio nome artístico dizia, Ney Matogrosso. Juntos eles foram parte de uma das bandas mais expressivas do Brasil, especialmente em tempos de ditadura militar, responsáveis por provocar e escandalizar o regime com vestes, maquiagens e movimentos corporais que lhes transformavam em figuras híbridas em cima do palco. Tais gestos, porém, não teriam o mesmo impacto se não estivessem acompanhados de frases tão ou mais emblemáticas. É o caso da música “O Vira”, que aludia a universo mágico e fantástico em 1973.

Bicho de 7 cabeças (MPB, 1979) – Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha
No final da década de 1970, o pernambucano Geraldo Azevedo lançou a música “Bicho de 7 cabeças”, de sua autoria com o paraibano Zé Ramalho e Renato Rocha. Desde o início da década, a música brasileira sofria uma oxigenação com as criações que vinham do nordeste do país. Essa canção insurge de forma tão vigorosa que recebeu inúmeras regravações em diferentes períodos, sempre mantendo o poder de impacto provenientes de sua melodia e letra. Nesta obra, os ditados transcritos são aqueles que emergem dos momentos de raiva, desacordo, com o intuito de expressar exagero e inconsequência. Por isso o clima não poderia ser outro. “Não tem pé, nem cabeça” e “Bicho de 7 cabeças” aparecem no decorrer desta simbólica peça.

Clara Crocodilo (experimental, 1980) – Arrigo Barnabé e Mário Lúcio Côrtes
Arrigo Barnabé tomou a cena de assalto dos anos 1980 com proposta completamente diferente àquela que tocava nas rádios e que reviveu a onda do rock nacional naquele período. Fundamentados em sólida formação musical – a maioria das vezes, erudita – grupos como “Rumo”, “Premeditando o Breque”, “Isca de Polícia” e, especialmente Arrigo e Itamar Assumpção inauguraram a vanguarda paulista, com proposta ousada estética e conceitualmente. O experimentalismo era o mote, e entre as influências mais fortes da música de Arrigo estavam a construção dodecafônica e as histórias em quadrinhos. Trocando em miúdos: sofisticado e popular convergiam. Assim ele criou ao lado de Mário Lúcio Côrtes a saga de “Clara Crocodilo”, além de peculiar estilo.

Olhos de Jacaré (tropicália, 1982) – Carlos Rennó e Geraldo Espíndola
Tetê Espíndola sempre chamou a atenção pela voz finíssima e o alcance extremamente improvável de seus agudos. Desde o surgimento em território nacional cantou as lendas e motivos de seu povo pantaneiro, o que contribuiu ainda mais para a aura de misticismo em torno de sua figura. Também soube transitar, com habilidade, entre o universo rural e rústico em parcerias com Luhli e Lucina ao construtivismo urbano da música de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, sempre levando consigo as influências de um universo carregado pelo mistério. No ano de 1982, Tetê gravou emblemático disco em que aparecia, na capa, nua tomando banho de cachoeira. Dentre as preciosidades do repertório, “Olhos de Jacaré”, de Carlos Rennó e Geraldo Espíndola.

Aprendiz de Feiticeiro (vanguarda paulista, 1999) – Itamar Assumpção
Tido e havido, com méritos, como um dos mais originais e criativos artistas da música brasileira, Itamar Assumpção experimentava no palco as facetas de cantor e ator com a mesma facilidade usada para distribuir sua obra. Compositor de mão cheia incumbiu a Cássia Eller o desafio de lançar a canção “Aprendiz de Feiticeiro”, em 1999. Na peça o autor busca retratar as desditas da existência com um olhar arguto e audacioso, misturando, como de seu feitio e da vanguarda paulista, sotaques, emblemas e territórios. Dois anos mais tarde, Cássia teria outra experiência com universo místico, ao regravar, para o especial do Sítio do Pica-Pau Amarelo, a música “A Cuca Te Pega”, também registrada por Angela Ro Ro. Com a voz capaz de encantos de outro mundo…

Saci Pererê desenhado por Ziraldo

Raphael Vidigal

Imagens: Montagem com fotos de Arrigo Barnabé, Cássia Eller, Tetê Espíndola, Itamar Assumpção e Zé Ramalho, de cima para baixo e da esquerda para a direita; e ilustração de Ziraldo, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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