10 músicas brasileiras para crianças

“Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
(…) Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças” Fernando Pessoa

Música brasileira feita para criança

“A infância é a camada fértil da vida”, definiu o poeta mato-grossense Nicolas Behr. Seu conterrâneo, Manoel de Barros preferiu o lado da brincadeira (nada mais apropriado, não é?) para tecer uma louvação parecida: “As Nações já tinham casa, máquina de fazer pano, de fazer enxada, fuzil etc./ Foi uma criançada mexeu na tampa do vento/Isso que destelhou as Nações”. A mesma irresponsabilidade infantil ganhou ode em versos de Fernando Pessoa: “Ai que prazer/Não cumprir um dever,/Ter um livro para ler/E não o fazer!/ (…) Grande é a poesia, a bondade e as danças…/Mas o melhor do mundo são as crianças”. Através da música, compositores brasileiros habituados ao universo “adulto” também se permitiram voltar aos primeiros anos, como Sidney Miller que, ao fim da canção “O Circo” (“Vai, vai, vai, começar a brincadeira/Tem charanga tocando a noite inteira/Vem, vem, vem, ver o circo de verdade”) de 1967, concluiu com saudade: “Foi-se embora e eu ainda era criança…”.

“O Bom Menino” (1960) – Altamiro Carrilho e Irani de Oliveira
Em 1960, o flautista Altamiro Carrilho, aclamado no universo do choro, encarou uma missão diferente: compor a melodia de uma canção infantil para Carequinha, palhaço interpretado por George Savalla. Para completar a obra, foi chamado o compositor Irani de Oliveira, gravado por nomes como Emilinha Borba e Vicente Celestino, a fim de dar conta da letra. O resultado foi um dos maiores sucessos do palhaço Carequinha, eternizado nos versos: “O bom menino não faz pipi na cama/O bom menino não faz malcriação”.

“O Porquinho” (1981) – Vinicius de Moraes e Toquinho
No ano de 1970, Vinicius de Moraes lançou livro infantil baseado na trajetória bíblica da Arca de Noé. A obra se transformou em especial da rede Globo, exibido no Dia das Crianças do ano de 1980. Devido ao sucesso do espetáculo, apresentado no ano da morte de Vinicius, um ano depois surgiu a continuação: “Arca de Noé 2”. E foi nessa segunda versão que o ator e compositor Grande Otelo apareceu em cena cantando “O Porquinho”, poema musicado por Toquinho com arranjos de Radamés Gnatalli.

“Piruetas” (1981) – Chico Buarque
A versão em português com músicas de Chico Buarque para o musical italiano “Os Saltimbancos” serviu de base para o filme dos Trapalhões de 1981, que também trazia Lucinha Lins no elenco. A italiana, por sua vez, era uma adaptação do conto dos Irmãos Grimm, “Os Músicos de Bremen”. Ao unir um universo fantástico protagonizado por animais com a magia típica do mundo circense, Buarque criou uma trilha sonora delicada, onde ele próprio interpretava a primeira faixa: “Uma pirueta/Duas piruetas/Bravo/Bravo!”.

“Sítio do Pica-Pau Amarelo” (1982) – Gilberto Gil
Para comemorar os 100 anos de nascimento de Monteiro Lobato, a rede Globo produziu, em 1982, o especial de TV “Pirlimpimpim”, baseado na obra infantil mais famosa do autor paulista. A faixa-título da franquia que eternizou personagens como Narizinho, Pedrinho, Tia Nastácia, Dona Benta, Visconde de Sabugosa e Cuca, ficou a cargo do baiano Gilberto Gil. Além do programa, a iniciativa rendeu um álbum que trouxe as participações de Baby do Brasil, Angela Ro Ro, Jorge Ben Jor, Moraes Moreira e Zé Ramalho.

“Lindo Balão Azul” (1982) – Guilherme Arantes
Quando montou a Moto Perpétuo, uma banda que misturava rock progressivo com música brasileira, Guilherme Arantes provavelmente não imaginava que um dos maiores sucessos da sua carreira viria do universo infantil. Ao ser convidado em 1982 para compor a música do especial de TV “Pirlimpimpim”, Arantes aproveitou um tema que havia feito ao piano e se valeu de expressões que vinham na própria sinopse. Assim nasceu “Lindo Balão Azul”: “Pegar carona nessa cauda de cometa/Ver a Via-láctea…”.

“Carimbador Maluco” (1983) – Raul Seixas
Após o sucesso de iniciativas como a “Arca de Noé” e “Pirlimpimpim”, a Globo voltou a investir no formato em 1983, ao criar o programa “Plunct, Plact, Zuuum”. À época já relegado ao ostracismo pela indústria fonográfica, o eterno maluco beleza viu no convite a oportunidade de voltar às paradas de sucesso, embora fazer músicas para crianças não fosse exatamente a sua praia. Inspirado por sua filha Vivian, à época com dois anos de idade, Seixas criou canção e personagem que ficaram associados a ele até o fim da vida.

“Planeta Doce” (1983) – Léo Jaime e Guto
Jô Soares também participou do especial infantil “Plunct, Plact, Zuuum”, interpretando uma música de Guto e Léo Jaime. “Planeta Doce” não poderia ser mais propícia ao ator, que sempre brincou com o fato de ser gordo e ter uma paixão por doces. Na pele do Mestre Cuca e Rei, ele cantou acompanhado pela trupe de “João Penca e Seus Miquinhos Amestrados”, primeira banda de Léo Jaime, também fundada no humor. Ainda participaram do programa o vocalista Júlio Barroso, Eduardo Dussek e Fafá de Belém.

“O Trapalhão Super-Herói” (1984) – Cazuza e Frejat
O longa-metragem “O Trapalhão na Arca de Noé” foi o primeiro em que Didi aparece sem as companhias de Mussum, Zacarias e Dedé, devido a desentendimentos entre os integrantes. Como já havia composto “Sub-Produto de Rock” para o especial “Plunct, Plact, Zuuum”, da Globo, a banda Barão Vermelho foi convidada a criar a música-tema do filme. Com todo seu potencial narrativo, Cazuza adere ao universo infantil e sublinha a própria personalidade: “Não levo nada a sério, o que eu quero é pintar o sete”.

“Alexandre” (1997) – Caetano Veloso
Ao criar a personagem Adriana Partimpim, Calcanhotto também se deu a liberdade de recriar canções para o universo, à priori, infantil do seu espetáculo. Como, por exemplo, a interpretação da música “Alexandre”, lançada sob o espectro tropicalista do disco “Livro”, de Caetano Veloso, em 1997. Nesse número, a canção é de tal maneira transformada em brincadeira de criança que os versos referentes aos amores gays do grande guerreiro se unem a outros acontecimentos de sua vida com a mais pura naturalidade.

“Sem Você Não A” (2017) – Tom Zé
Inquieto como de costume e sem perder a curiosidade típica das crianças, o baiano e eterno tropicalista Tom Zé acaba de anunciar disco novo nas paradas. Para contrariar as expectativas ou até dar um nó na lógica, o sucessor de “Canções Eróticas de Ninar” evolui biologicamente, já que vai do bebê para a criança, mas, ao invés de assuntos sexuais, trata agora do aprendizado escolar, ao apresentar dez faixas que, juntas contam uma história sobre o alfabeto. “Sem Você Não A” celebra os 81 anos do músico.

Música infantil do Brasil

Raphael Vidigal

Publicada no jornal O Tempo em 14/10/2017.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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