10 anos da morte de José Saramago são lembrados com documentário

*por Raphael Vidigal

“É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.” José Saramago

Há uma passagem de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (1991) em que José Saramago (1922-2010) se revolta: “Ninguém pecou tanto que mereça morrer duas vezes”. O comentário ácido sobre a ressurreição de Lázaro surge na boca de Maria Madalena, e dá uma medida do temperamento do autor português, morto há dez anos. A data será lembrada com a exibição do documentário “Um Humanista por Acaso Escritor” (2015), dirigido pelo baiano Leandro Lopes, nesta quinta (18), às 19h, no canal da plataforma Cardume no YouTube, de forma gratuita.

O filme procura criar um mosaico acerca do protagonista, com depoimentos dos escritores Valter Hugo Mãe, Andréa Del Fuego e Gonçalo Tavares, e de familiares, como a viúva Pilar Del Rio, presidenta da Fundação José Saramago, e a neta Ana Matos, entremeados por falas do próprio homenageado. Filiado ao Partido Comunista Português, ateu – seus embates com a Igreja Católica ficaram célebres – e único autor de língua portuguesa a vencer o prêmio Nobel de Literatura, em 1998, Saramago é retratado, sobretudo, como um humanista incorrigível, alcunha que estimula o batismo da produção.

O estilo facilmente identificável do romancista, que também publicou contos, crônicas, poemas, memórias, peças teatrais e livros infantis, trazia experimentações de linguagem fundamentadas na tradição oral que subvertiam a lógica da pontuação formal – eliminando vírgulas, travessões e estendendo parágrafos – e se aliavam a uma perspectiva densa e dura da existência, sem, contudo, abdicar totalmente de um certo pendor lírico comum aos portugueses. Apesar de todo o ceticismo, Saramago tinha crença no amor e na consciência como forças transformadoras.

Títulos como “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (1984), “História do Cerco de Lisboa” (1989), “Ensaio Sobre a Cegueira” (1995) – adaptado para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles e estrelado pela atriz hollywoodiana Julianne Moore – “Caim” (2009) e “Claraboia” (2011), o alavancaram à condição de um dos principais autores dos séculos XX e XXI. Mas há quem garanta que Saramago pertence ao panteão de clássicos como William Shakespeare (1564-1616) e Miguel de Cervantes (1547-1616), que ele citava frequentemente como suprassumos do ofício.

No momento em que uma pandemia assola o planeta e deixa como rastro milhares de cadáveres, a persistência de Saramago na necessidade de justiça social, dever cívico e responsabilidade com o semelhante retorna com a urgência de uma onda – que ele descrevia como “o tempo”, enquanto a espuma seria a espécie humana. Diante de um sistema que apregoa e induz ao individualismo e alçou a independência como valor supremo, os ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade convergem para uma palavra que se tornou tão escassa quanto o próprio gesto e, a exemplo de virtudes baseadas em direitos humanos, bondade e comunhão, acabou estigmatizada: a solidariedade.

Tendo em vista os resultados da ação da Covid-19 na madona do capitalismo, os Estados Unidos, e seu atual subordinado direto, o Brasil, a conclusão é que o egoísmo e a avareza – um dos sete pecados capitais – têm prevalecido. Ao que a angústia, a um só tempo localizada e atemporal de Saramago, emerge feito um bumerangue: “Nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”. Ao manter a perenidade de sua obra – por obra de Deus, da humanidade ou do acaso? – o mundo parece contribuir para que Saramago não morra pela segunda vez.

Fotos: Armando França/Fundação José Saramago/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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