30 músicas brasileiras em defesa da liberdade

*por Raphael Vidigal

“O presente é repugnante. Mas, quando penso no futuro, como tudo se torna maravilhoso! Sinto-me leve, sinto-me libertado e vejo ao longe surgir uma luz… Vejo a liberdade” Tchekhov

Premissa fundamental da arte, a liberdade está no centro das discussões brasileiras na contemporaneidade. O caso mais recente foi o da tentativa de censura do atual governo federal contra o chargista Renato Aroeira, por meio do Ministério da Justiça e da Secretaria de Comunicação, que ameaçaram processá-lo por uma charge em que ele criticava o incentivo dado por Jair Bolsonaro para apoiadores invadirem hospitais de campanha, cujos leitos são reservados a pacientes da Covid-19, doença que já matou mais de 40 mil brasileiros e que é responsável por uma pandemia sem precedentes. Mas o tema é recorrente na cultura de um país que foi o último da América Latina a abolir, oficialmente, a escravidão e enfrentou duas décadas de ditadura militar. Dos anos 1920 aos 2000, a diversidade de abordagens e ritmos oferece um leque de opções ao ouvinte, que passa pelo samba-enredo, rock, MPB, frevo, rap, rasqueado e funk. Todos dispostos a louvar, em conjunto, um dos valores mais importantes da vida em sociedade: a tão perseguida liberdade.

“O Canto dos Escravos” (domínio público, 1928) – Clementina de Jesus, Geraldo Filme e Doca da Portela
Lançado pela Eldorado, em 1982, o disco “O Canto dos Escravos” remonta a uma pesquisa empreendida por Aires da Mata Machado Filho, na Chapada Diamantina, no ano de 1928, quando ele recolheu “cantigas populares em língua africana ouvidas outrora nos serviços de mineração”. Segundo ele próprio, foi através de “notas apressadas” que este tesouro da história nacional tomou forma e corpo, 53 anos depois, através das vozes de Clementina de Jesus, do sambista paulistano Geraldo Filme e do carioca Doca da Portela, trio extremamente identificado com as causas negras e o combate ao racismo no Brasil. Ao todo, a coletânea apresenta 14 cantos e duas faixas extras.

“Exaltação a Tiradentes” (samba-enredo, 1949) – Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado
“Exaltação a Tiradentes” nasceu de um sonho do sambista Mano Décio da Viola, que agregou, aos versos recebidos durante a noite, outros propostos por Estanislau Silva e Penteado. Antes da consagração, Décio e Silas de Oliveira haviam oferecido três sambas com o mesmo tema para a Escola de Samba do Império Serrano. Passada a frustração, a música foi cantada na avenida em 1949, mas só chegou ao disco em 1955, na gravação de Roberto Silva. Outros intérpretes não menos tarimbados a registraram posteriormente, dentre os quais Jorge Goulart, com seu vozeirão, e a irrepreensível Elis Regina, além de Maria Creuza, Cauby Peixoto e Mestre Marçal. Pioneiro, como o seu inspirador, é considerado o primeiro samba-enredo a ultrapassar os limites carnavalescos.

“Chica da Silva” (samba-enredo, 1963) – Anescar do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira
Carnavalesco de primeira linha e horas a fio, Monsueto era também um grande intérprete, e foi o responsável por cantar na avenida o samba enredo do Salgueiro no ano de 1963, o histórico e inesquecível “Chica da Silva”, de autoria de Anescar do Salgueiro e Noel Rosa de Oliveira. A letra revive a trajetória de uma das mais simbólicas personagens do Brasil, a escrava mineira Chica da Silva, natural do Serro e que viveu em Diamantina, alforriada após se casar e ter treze filhos com o rico contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira. Chica aparece em outras letras do cancioneiro brasileiro, como, por exemplo, na música de Jorge Ben Jor. Embora tenha desfilado neste ano pelo Salgueiro, Monsueto nunca se vinculou a nenhuma escola de samba específica, sendo bem recebido em várias delas.

“Opinião” (samba, 1964) – Zé Kéti
A música composta por Zé Kéti sobre o processo de remoção de favelas que era executado pelo governo da Guanabara, seria o mote perfeito para que, no final de 1964, os artistas pudessem dar o seu primeiro grito de liberdade silenciada. E foi também no ambiente do Zicartola, onde, segundo Zé Kéti, os compositores podiam cantar à vontade, que surgiu a ideia do musical homônimo. Escrito por Paulo Pontes, Ferreira Gullar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho, e contando com a direção de Augusto Boal, “Opinião” tornou-se um dos espetáculos mais bem sucedidos do teatro brasileiro, e consagrou definitivamente o sambista e poeta do povo Zé Kéti, que interpretava, mais uma vez, o malandro dos morros cariocas, e atuava ainda ao lado de Nara Leão, no papel da mocinha da zona sul, e João do Vale, representado a força do nordeste. O espetáculo encenado no Teatro de Arena, em Copacabana, e que depois daria nome a um famoso grupo de teatro de São Paulo, ficou mais de um ano em cartaz.

“Tributo a Martin Luther King” (samba, 1967) – Wilson Simonal e Ronaldo Bôscoli
Wilson Simonal não era santo, e tampouco o diabo que o pintaram após o polêmico e controvertido envolvimento com as forças de segurança do Estado durante o período nefasto da ditadura militar no Brasil. Por outro lado, é inegável que sua trajetória representou uma vitória de classe, do negro que ascende de condição social, circunstância rara no país, cuja exceção reside, justamente, em profissões de destaque e com pouco mercado, como a música e o futebol. Embora não fosse ligado a movimentos sociais, Wilson Simonal se afirmava, e identificava-se com a luta do negro nos Estados Unidos, presidida por Martin Luther King, para quem ele compôs um bonito e comovente tributo em parceria com Ronaldo Bôscoli.

“Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” (rasqueado, 1968) – Geraldo Vandré
Uma das canções brasileiras mais representativas de todos os tempos, “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” já nasceu controversa. O hino contra a repressão composto pelo paraibano Geraldo Vandré, no auge da ditadura militar no Brasil, em 1968, insuflou os espectadores presentes ao Maracanãzinho no III Festival Internacional da Canção e despertou a ira dos militares. O público aplaudiu com volúpia e intensidade e exigiu que a música, na definição do autor “um rasqueado de beira de praia”, vencesse o concurso. No entanto, o júri resolveu premiar “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, incessantemente vaiada após o anúncio. Definida pelo general Luís de França Oliveira, secretário de Segurança da Guanabara, como “subversiva e com cadência do tipo Mao Tsé-Tung”, referência ao líder da ditadura comunista na China, a canção que rendeu a Vandré sucesso e adoração popular foi também artifício para exilá-lo no Chile e, em seguida, ele abandonar a carreira.

“É Proibido Proibir” (tropicália, 1968) – Caetano Veloso
O projeto tropicalista liderado, no âmbito musical, por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, e outros, tinha a pretensão literal e ambiciosa de criar uma cultura tipicamente brasileira a partir da mistura e da influência que viriam de todas as partes do mundo, no processo que se considerou chamar de “antropofágico”. Caetano Veloso, sempre um dos mais ousados e inquietos artistas nacionais, enfrentava a crítica tanto da direita, por seu desprezo ao conservadorismo expressado na utilização de vestimentas e gestos tradicionalmente femininos, quanto da esquerda nacionalista, que urrava, entre outras coisas, contra a guitarra elétrica, por considera-la um símbolo do imperialismo norte-americano e do pensamento de colônia. Sem dar trela para os limites impostos por qualquer ideologia, Caetano apresentou, no III Festival Internacional da Canção, em 1968, a polêmica “É Proibido Proibir” que, recebida com vaias e agressões, como o arremesso de frutas e verduras, recebeu o adendo de um irado discurso do cantor.

“Heróis da Liberdade” (samba-enredo, 1969) – Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola
Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Mas é inegável que a principal contribuição de Silas se dá, em especial, nos terreiros dos sambas-enredo. Foi ao lado dele que Dona Ivone Lara tornou-se a primeira mulher a derrubar barreiras e preconceitos e invadir esse ambiente marcadamente masculino, com a coautoria de “Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio”, périplo que reconta a história de magia, aventura e sedução do Brasil imperial e a chegada do período republicano. Não foi sem méritos que a Império Serrano tornou-se a grande vencedora daquele carnaval de 1965. Também conta no vasto currículo de sambas-enredo criados por Silas de Oliveira, e que ultrapassaram as barreiras do tempo, a canção “Heróis da Liberdade”, que sofreu retaliações da censura.

“A Tonga da Mironga do Kabuletê” (samba, 1971) – Vinicius de Moraes e Toquinho
Monsueto foi convidado, em 1971, por Vinicius de Moraes e Toquinho, autores da música, para uma esdrúxula participação em “A Tonga da Mironga do Kabuletê”: emitir sons ininteligíveis. Sabendo ser um convite de poeta para poeta, é claro que Monsueto aceitou. Hábil inventor de expressões carregadas de influência africana, mas, sobretudo, de humor e ironia, ele estava em casa quando se intrometia nos versos de “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, como o haviam pedido. E é para lá, nesse lugar estranho e desconhecido, que Vinicius de Moraes e Toquinho pretendiam mandar com inteligência aqueles que atentavam contra tal princípio neste momento triste da política brasileira, abafada sobre o regime ditatorial que permaneceu de 1964 até 1985. Monsueto, ao contrário, era um homem livre, e legou, com alegria, este princípio e este ritmo.

“Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua” (marcha-rancho, 1972) – Sérgio Sampaio
Com sua loucura lúcida, como disse Lygia Fagundes Telles a respeito de Caio Fernando Abreu, Sérgio Sampaio criou uma das mais emblemáticas canções de carnaval de todos os tempos. Em meio à ditadura militar que se instaurara no Brasil, o compositor capixaba, tido por muitos como “maldito”, dá uma aura lamentosa à festa popular mais famosa do país, ao entoar versos confessionais em tom melancólico, emendando logo na sequencia o refrão esperançoso que garantiu o sucesso da canção: “Eu quero é botar meu bloco na rua, brincar, botar pra gemer…”. Além do conteúdo sexual abordado no refrão, há também referências ao uso de drogas, tudo feito com muito deboche, misturando lamento e alegria e dando seu aval definitivo à festa máxima brasileira: o Carnaval.

“Chuva, Suor e Cerveja” (frevo, 1972) – Caetano Veloso
Com seu projeto tropicalista, Caetano Veloso revisitou e explorou os gêneros mais representativos e típicos da cultura nacional brasileira. Dentre eles, não poderia ficar de fora o frevo. Composta em 1972, “Chuva, Suor e Cerveja” é um exemplo dos mais bem acabados da capacidade do compositor em unir instâncias, aparentemente distantes, como a modernidade e a tradição, e o que propõe, na letra desta canção, é a irrestrita liberdade de ser e estar. “Chuva, Suor e Cerveja” é uma música que brada contra toda e qualquer caretice, qualquer tipo de censura, costumes ou moralismos, e conclama para o prazer e a diversão, representados pelos itens líquidos que compõe este cenário, onde não poderia ficar de fora a água que se bebe, que se exala e que se recebe. A chuva aparece como graça, memória, folia e vida: “Acho que a chuva ajuda a gente a se ver…”.

“Luz Del Fuego” (rock, 1975) – Rita Lee
Rita Lee certamente é a compositora com o maior número de obras identificadas ao feminismo, e também a que mais homenageou personagens desta seara. À sua maneira leve e descontraída, Rita inicia o ritual em 1975, no rock “Luz Del Fuego”, uma ode à icônica dançarina que provocou escândalo na sociedade brasileira com suas práticas liberalistas. Adepta do nudismo e do naturalismo, Luz foi brutalmente assassinada em 1967, aos 50 anos, mas seu legado de liberdade e amor continuou colocando fogo nos costumes e na hipocrisia. Sua história foi levada ao cinema em 1982, quando foi interpretada por Lucélia Santos. Luz Del Fuego foi aquela “que não tinha medo”, canta Rita.

“Amanhã” (balada, 1977) – Guilherme Arantes
No mesmo ano de 1977, Guilherme Arantes compôs uma balada de espírito hippie, mas, sobretudo, um hino de esperança. O próprio título já entregava a proposta. “Amanhã” retrata a incansável luta, a busca eterna, por um destino melhor e mais confortável do que o oferecido pelo momento presente, tudo por uma lente otimista, leve e confiante. “Amanhã, será um lindo dia, da mais louca alegria, que se possa imaginar”, relata Guilherme nos versos da canção lançada por ele mesmo no álbum “Ronda Noturna”. A música foi regravada por Caetano Veloso, em registro impecável, acompanhado apenas por um violão. “Amanhã, a luminosidade, alheia a qualquer vontade, há de imperar! Há de imperar!”.

“Gente” (tropicália, 1977) – Caetano Veloso
Ainda sob o ritmo e a respiração da Tropicália, Caetano Veloso compôs, em 1977, para seu álbum “Bicho”, uma canção mais próxima ao modelo clássico brasileiro. “Gente”, com seu estilo charmoso e dançante, conclama à solidariedade, faz uma ode à beleza humana, e presta homenagem a pessoas admiradas pelo autor, citadas nominalmente: “Marina, Bethânia, Dolores, Renata, Leilinha (…); Rodrigo, Roberto, Moreno, Francisco, Gilberto, João”. “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”, determina Caetano, em discurso que não poderia estar mais próximo ao do sociólogo Betinho, defensor ardoroso da liberdade. Em outros versos, ele volta ao tema: “Gente quer comer, gente quer ser feliz, gente quer respirar ar pelo nariz”. “Gente, espelho da vida, doce mistério”, finaliza o compositor com sabedoria.

“Cálice” (MPB, 1978) – Chico Buarque e Gilberto Gil
O tema religioso perpassa toda a estrutura da música “Cálice”. Composta numa Sexta-Feira da Paixão, a lembrança do martírio de Cristo inspirou Gilberto Gil a identificá-lo com a situação vivida pelos brasileiros no auge da ditadura militar no país. A melodia, também de memória sacra, acompanha os versos que falam da “bebida amarga”, a “força bruta”, o “monstro da lagoa” e “o grito desumano”, entre outros. Todas essas imagens fortes seriam, ainda, coroadas com o refrão que mistura o sentido das palavras “cálice” e “cale-se” através do som. A figura imponente de “um pai que destrói as individualidades” fez com que Gilberto Gil jamais regravasse a canção após a tentativa, censurada pelo regime, de apresentá-la em show ao lado de Chico Buarque, no ano de 1978.

“O Bêbado e a Equilibrista” (MPB, 1979) – João Bosco e Aldir Blanc
Outro compositor alçado à fama por Elis Regina foi o mineiro de Ponte Nova, João Bosco. Ele já havia se encontrado e mostrado músicas, inclusive, para Vinicius de Moraes, mas foi o poder de elevação do canto de Elis que o colocou, em definitivo, no panteão da música brasileira. Além disso, João formaria, no Rio de Janeiro, uma das mais frutíferas parcerias da nossa canção, ao lado do carioquíssimo Aldir Blanc. “O Bêbado e a Equilibrista” narra, com contundentes e líricas referências a vítimas da ditadura, como a viúva do jornalista Vladimir Herzog, torturado e enforcado nas prisões do regime militar, e Herbert de Souza, o Betinho, identificado na letra como “o irmão do Henfil”, as asperezas e esperanças daquele período de chumbo. Ainda havia espaço para lembrar de Charlie Chaplin, o Carlitos, pobre vagabundo que amava a humanidade.

“Bloco do Prazer” (frevo, 1979) – Fausto Nilo e Moraes Moreira
O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do “Pessoal do Ceará” ainda na década de 70, e, desde então, passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e, mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, entre outros. No ano de 1979, o Trio Elétrico Dodô e Osmar, banda criada pelos inventores do trio elétrico na Bahia, lançou no carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. O frevo, em ritmo acelerado, é uma conclamação desenfreada à alegria, à festa e à liberdade. Gravada por Nara Leão, em 1981, tornou-se sucesso nacional na voz de Gal Costa, um ano depois. Era apenas o início do desfile daquele cearense de Quixeramobim.

“Super-Homem, a Canção” (MPB, 1979) – Gilberto Gil
Em 1979, após a trilogia iniciada com “Refazenda”, e que seguiu com “Refavela” e “Refestança”, ao lado de Rita Lee, Gilberto Gil lançou o álbum “Realce”, um dos de maior destaque de toda a sua trajetória. Novamente, o compositor aborda de maneira sensível o universo que se tangencia por mulheres e homens. Eliminando a linha imaginária que se consolidou por moral e costumes, Gil afirma sobre a canção: “todo homem é mulher e toda mulher é homem”. A inspiração para a música veio após o parceiro Caetano Veloso chegar entusiasmado para lhe contar a história do filme do “Super-Homem” que acabara de assistir no cinema. O ponto que mais impressionou Gil foi o herói “mudando o curso da história por causa da mulher”, ao tentar reverter o tempo.

“Agito e Uso” (rock, 1979) – Angela Ro Ro
Angela Ro Ro sempre conciliou o teor confessional a um distanciamento propício ao deboche em suas composições, sem nunca abrir mão da veia autobiográfica. Polêmica, perspicaz, piadista e homossexual assumida, foi uma das compositoras que melhor representaram a estética do blues no Brasil, e por isso se tornou admirada por artistas como Cássia Eller e Cazuza. Logo em seu disco de estreia, em 1979, Angela desafiava padrões, convenções e até a polícia. É o que fica explícito no rock “Agito e Uso”, de 1979, em que ela manda as regrinhas do bom comportamento para as cucuias, como a mulher corajosa que sempre foi. “Sou uma moça sem recato”, elabora nos versos iniciais.

“E Vamos à Luta” (samba, 1980) – Gonzaguinha
Durante a sua trajetória, Gonzaguinha conviveu com a pobreza na favela, problemas de saúde, como as duas tuberculoses que teve, e a falta de liberdade imposta pela ditadura. Apesar disso, deu um jeito de driblar as armadilhas para conquistar o que achava que tinha direito. “E Vamos à Luta” é talvez o samba mais animado, emblemático e contagiante de sua obra. A música traz um recado otimista de persistência e coragem, direcionado aos brasileiros que batalham seu lugar ao sol diariamente, com espaço para uma fezinha especial na juventude. Através dos versos esfuziantes da canção, Gonzaguinha cultiva as delícias da união e do sonho. Gravada por ele em 1980, a música foi apresentada depois em duetos descontraídos com Alcione e Roberto Ribeiro.

“Brasil Mestiço, Santuário da Fé” (samba, 1980) – Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte
A mineira Clara Nunes, natural de Caetanópolis, no interior do estado, foi, sem dúvida alguma, a principal voz do sincretismo religioso no Brasil. Ao aderir à umbanda e ao candomblé, cravou sua marca no nosso samba de tantas intérpretes e interpretações. Além dos adereços, das danças, e do cabelo, Clara se portava como uma autêntica filha da influência africana no país. Interpretava as músicas com esse sentimento. O samba “Brasil Mestiço, Santuário da Fé”, composição feita especialmente para ela pelo marido Paulo César Pinheiro e o parceiro Mauro Duarte, em 1980, comprova essa tese. O batuque da Cabala, da Umbanda e da Luanda se integram no canto de Clara.

“Sorriso Negro” (samba, 1981) – Jorge Portela e Adilson Barbado
Dona Ivone Lara foi a primeira mulher a ter um samba-enredo cantado na avenida no Brasil. Como se não bastasse, mulher negra, pobre, imersa em reduto machista e de preconceitos. Mas Dona Ivone Lara venceu todos eles, com voz mansa e andar macio, embora se impondo pela graça de suas músicas e o talento que comprovou na raça. “Sorriso Negro” foi um presente dos amigos Jorge Portela e Adilson Barbado para ser gravado no álbum da cantora de 1981, que recebeu este título. Verdadeira música de afirmação e de combate ao racismo, confirma entre seus versos: “Negro é a raiz da liberdade”. A música foi regravada pela trupe do “Fundo de Quintal” e por Mart’nália.

“Masculino e Feminino” (MPB, 1983) – Pepeu Gomes e Baby do Brasil
Em 1983, o casal Pepeu Gomes e Baby Consuelo, que depois se tornaria Baby do Brasil, compôs um dos hinos da diversidade e contra o preconceito no Brasil. Já devidamente embalados pela aura mística que sempre os acompanhou, os compositores iniciam uma reflexão sobre o sexo do Criador para, em seguida, afirmar: “Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”. A música foi lançada por Pepeu, em álbum com o mesmo nome, “Masculino e Feminino”, e depois regravada mais de uma vez por Baby. Recentemente, o casal voltou a interpretá-la em parceria no “Rock in Rio” de 2015. Um dos versos que se tornou mais conhecido foi justamente o da introdução, uma lição de vida contra o machismo: “Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino…”.

“Podres Poderes” (tropicália, 1984) – Caetano Veloso
Embora aposte no rock que invadia a cena nacional desde o estouro da Blitz em 1982, Caetano Veloso conserva em suas composições uma assinatura muito peculiar, sendo pouco efetivo o rótulo do ritmo, e mais abrangente o do movimento do qual foi um dos líderes musicais, a Tropicália. Com dialética e poesia que buscam emoldurar os acontecimentos políticos do país, Caetano adota um discurso incisivo, sem abrir mão dos jogos de palavras e da maleabilidade de sentidos que sempre o encantaram. “Podres Poderes” abre fogo contra o cenário atual de 1984, sem deixar de se reportar ao passado que interfere neste futuro, para se ter a consciência de que o mesmo acontecerá ao presente. “Será que nunca faremos senão confirmar/ A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?”. E avalia uma saída nas artes de Hermeto Pascoal e Tom Jobim.

“Mal Nenhum” (rock, 1985) – Cazuza e Lobão
Similaridades de comportamento e gostos em comum uniam Lobão e Cazuza. Em 1985, ambos expulsos de seus respectivos grupos, Barão Vermelho e Os Ronaldos, encontraram-se no Baixo Leblon e, por sugestão de Cazuza, iniciaram uma parceria musical. A música “Mal Nenhum”, lançada por Cazuza em seu primeiro disco solo, “Exagerado”, de 1985, foi apresentada pelo cantor durante o Rock In Rio daquele ano, ainda na companhia do grupo Barão Vermelho. Antes de cantá-la, Cazuza faz uma defesa, a seus modos, de Lobão. O autor da letra afirma que o texto diz respeito a “uma fase em que nem eu me aguentava. Andava meio agressivo e o Lobão estava parecido comigo”. Já Lobão, responsável pela melodia, diz que, “apesar de parecer simples, foi bastante trabalhada”. O que emerge deste conjunto é uma música visceral, lírica, recado de uma geração para seus afetos e opressores. Regravada, entre outros, por Lobão, Cássia Eller e Arnaldo Antunes.

“Meu Homem” [Carta a Nelson Mandela] (samba, 1988) – Martinho da Vila
Com o acompanhamento de Raphael Rabello no violão de 7 cordas, Martinho da Vila registrou, em 1990, no álbum “Martinho da Vida”, a composição de sua autoria que já havia sido lançada dois anos antes, em 1988, por Beth Carvalho, no LP “Alma do Brasil”. Na canção, o sambista descreve um sonho em que, libertos de preconceitos, os ensinamentos do líder sul-africano, Nelson Mandela, são seguidos, até que no final lembra-se dos tristes tempos do Apartheid e roga para que um dia os sonhos sejam somente doces. “Meu Homem [Carta a Nelson Mandela]” combina, em seu percurso, melancolia e sensualidade, tanto na interpretação de Martinho da Vila quanto na de Beth Carvalho.

“Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós” (samba-enredo, 1989) – Niltinho Tristeza, Preto Joia, Vicentino e Jurandir
Responsável por dar à Imperatriz Leopoldinense o título do Carnaval de 1989, o samba-enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós” é um marco da canção popular brasileira, tanto que o seu título tornou-se praticamente um ditado nacional, repetido para representar as mais diversas situações em que se apresenta a necessidade de escapar à repressão e clamar pela liberdade. Ainda hoje, este samba é considerado um dos mais representativos da história do Carnaval carioca. Niltinho Tristeza, o autor mais conhecido, ficou famoso depois que sua canção “Tristeza”, parceria com Haroldo Lobo, foi gravada por Jair Rodrigues, em 1966. Como se constata, Niltinho sabia versar sobre tristeza e liberdade com igual compreensão da força desses sentimentos na nossa vida. A composição foi regravada por Dominguinhos do Estácio, no LP “Gosto de Festa”, e Dudu Nobre.

“Sou Negrão” (rap, 2001) – Rappin’ Hood
Desde os primórdios, o rap nacional bebia na fonte do samba e suas diversas intersecções com a música negra. Os próprios Racionais MC’s e Mano Brown já apresentavam influências trazidas por Jorge Ben Jor, assim como o rapper Athalyba Man se aproximava da canção de tradição romântica. O histórico de engajamento político e da crítica social presente nas letras dos Racionais MC’s, Sabotage, MV Bill, Rappin’ Hood e Black Alien legou à música brasileira canções potentes e atemporais, que não disfarçavam a dura realidade. Um dos exemplos mais bem acabados é “Sou Negrão”, rap em que Rappin’ Hood não abaixa a cabeça nem abre mão da sua liberdade de ir, vir, ser e estar: “Sou negrão, certo sangue bom/ 20 de novembro temos que repensar/ A liberdade do negro, tanto teve de lutar/ O negro não é marginal, não é perigo”, dispara.

“Tá Pra Nascer Homem que Vai Mandar em Mim” (funk, 2014) – Wallace Vianna, André Vieira e Leandro Pardal
Valesca Popozuda é uma das personagens mais polêmicas da nova cena cultural no Brasil. Com seu discurso proativo em favor do prazer feminino, é capaz de causar discórdia tanto na ala das feministas quanto na dos machistas, o que lembra a trajetória, em parte, de Leila Diniz (1945-1972), também incompreendida em seu tempo. O certo é que Valesca não esconde seus sentimentos e, muito menos, suas vontades, sejam elas quais forem. Emblema maior desta atitude libertária, a música “Tá Pra Nascer Homem que Vai Mandar em Mim” é um funk lançado em 2014, de autoria de Wallace Vianna, André Vieira e Leandro Pardal e que deixa claro que, nesse caso, é a mulher quem escolhe, seja a cama, o sexo, ou a atividade no mercado de trabalho.

“Maria da Vila Matilde” (MPB, 2015) – Douglas Germano
Não é de hoje que Elza Soares representa a mulher sobrevivente, batalhadora, livre, dona de seus desejos e vaidades. Para coroar a carreira da nonagenária intérprete, nada melhor do que a canção “Maria da Vila Matilde”, peça que conjuga samba e música eletrônica, na veia da nova MPB, cheia de modernidade sem esquecer a tradição, bem ao estilo ousado e inquieto de Elza Soares. Denúncia clara à violência contra a mulher, a canção serviu para suscitar debates e cumpriu sua função social. Mais do que isso, exprimiu a arte de uma mulher talentosa, guerreira, determinada, que não abre mão de seus prazeres e é um símbolo de perseverança. Para a qual não existe idade, credo, gênero ou raça. É simplesmente um ato de liberdade. A música ganhou uma versão do bloco feminista Sagrada Profana.

Imagem: Charge de Renato Aroeira/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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