Com ‘Ao Redor do Precipício’, Roberto Frejat fica no meio do caminho

*por Raphael Vidigal

“Com o tempo, é possível que vocês descubram tudo o que haja por descobrir, e ainda assim o seu avanço há de ser apenas um avanço para longe da humanidade. O precipício entre vocês e a humanidade pode crescer tanto, que ao grito alegre de vocês, grito de quem descobriu alguma coisa nova, responda um grito universal de horror.” Brecht

A imagem é intrigante. Com o título de seu novo disco, Roberto Frejat, 58, não se coloca à beira e nem diante, mas “Ao Redor do Precipício”, com a cautela de quem observa o desastre tendo o olhar privilegiado de não estar totalmente envolvido. Sucessor de “Intimidade Entre Estranhos” (2008), o trabalho encerra um hiato de 12 anos em sua carreira solo, engatada em 2001 com o estouro de “Amor Pra Recomeçar”, que faturou disco de ouro pelas 105 mil cópias vendidas e preencheu um espaço cativo, mas que estava vago, na música brasileira: o das baladas românticas que superam o rame-rame dos clichês.

Com “Sobre Nós Dois e o Resto do Mundo” (2003) ele reforçou essa trilha e foi indicado ao Grammy Latino pelo simpático videoclipe de “Segredos”, que se valia das insurgentes técnicas de animação. Desde então, o guitarrista ensaiava uma despedida definitiva do Barão Vermelho, o que só ocorreu, de fato, em 2017, embora o grupo não lançasse um disco há mais de uma década. Frejat é daqueles casos que burilou suas qualidades com o passar do tempo.

Ao assumir o posto de vocalista do Barão Vermelho, em 1985, com a saída repentina e abrupta de Cazuza – um talento bruto que já mostrava a amplitude de seu potencial com “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” no álbum de estreia da banda – Frejat foi um dos responsáveis pelo renascimento da trupe, e se transformou em um cantor com domínio cada vez maior do ofício.

Roteiro. A alternativa, válida, em “Ao Redor do Precipício”, era manter-se fiel às origens e, ao mesmo tempo, tentar dialogar com a contemporaneidade. Acontece que, ao colocar um pé aqui e outro acolá, Frejat ficou no meio do caminho, sem conseguir soar antenado com as questões e os sons atuais e demonstrando certo cansaço e desinteresse em revisitar temas que ele conhece tão bem. Homônima ao álbum, a faixa de abertura, instrumental, serve como espécie de prelúdio.

Composta com Zeca Baleiro e lançada pelo parceiro no volume 1 de “O Amor no Caos”, a balada “Te Amei Ali” surge menos envolvente na interpretação de Frejat, mas propicia belas imagens, com versos encadeados por uma melodia inspirada, embora, ali, a sensação de reciclagem da própria obra já se instale: “A noite era uma criança/ E você cantava um blues/ Seu corpo, sua dança/ No palco escuro era luz”. Feita com o companheiro de geração Leoni, “Amar um Pouco Mais” coloca peso nas guitarras e a esperança no além: “Tem que ter mais que só esse mundo/ Tem que ter mais que só essa vida”, clama Frejat.

Única não autoral do repertório, “Pergunta Urgente” traz a assinatura de Nenung, fundador de Os The Darma Lóvers, conjunto roqueiro com influências budistas que deu vazão ao chamado zen rock. Com os vocais de Ritchie, também egresso dos anos 1980, a canção, que rendeu videoclipe, se fia no violão capitaneado pelo anfitrião, e não chega a empolgar. Mais uma com Leoni, “Cartas e Versos” tem cara e jeito de hit radiofônico. O romantismo explícito não a prejudica, pois a elegância é mantida. Para completar, a faixa possibilita a Frejat explorar seus dotes vocais.

Contemporâneo. O interlúdio “Batidão Mix” anuncia um novo capítulo da empreitada. A fome de novidade dá a partida com “E Você Diz”, criada com Jards Macalé e Luiz Melodia (1951-2017). O espírito inquieto de Macalé, que participa cantando, é responsável pelas sacadas que dão brilho à composição. Ironicamente, Frejat a conduz na direção contrária, com invocações moralistas que pedem “saúde, educação e plenitude, rogar por boa juventude e tatuar no peito a fé”. O xote, assim, perde parte de sua aura atrevida.

As batidas eletrônicas de “Planetas Distantes”, que agregam o nome de Dulce Quental à ficha técnica, revitalizam o discurso de reencontro com um antigo amor. A letra, graciosa, funciona nesse contexto. Em “Tudo Que Eu Consegui”, o arranjo sinuoso de Serginho Trombone (1950-2020) prevalece sobre a poesia de Antonio Cicero. “A Sua Dor É Minha”, composta com George Israel e Mauro Santa Cecília, guia o ouvinte a um sentimento lancinante através da voz de Alice Caymmi. O resultado, no entanto, é menos sedutor do que a intensidade pretendida com a interpretação que emula o canto de Cássia Eller (1962-2001). O que sobressai, novamente, são o arranjo e as guitarras de Frejat.

“Todo Mundo Sofre” é tão pálida quanto a constatação lacônica expressada no batismo. “Porque a dor é muito menos dor pra quem tem amigos”, recorrem os autores, Leoni e Frejat, a uma frase mais que batida. “Por Mais Que Eu Saiba”, outra da dupla, não eleva o nível. O poslúdio instrumental “Parada de Estrada Vazia” encerra um disco irregular, cuja dubiedade resulta da indecisão de Frejat sobre qual caminho tomar. Entre o velho e o novo, ele apenas rodeia o precipício.

Fotos: Leo Aversa/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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