Vale a pena assistir ‘Boca a Boca’, nova série da Netflix?

*por Laura Maria (jornalista)

“Sem crueldade não há gozo, eis o que nos ensina a mais antiga e remota história do homem; o castigo é uma festa. Época de pessimismo. Naquele tempo em que a humanidade se não envergonhava ainda da sua crueldade, a vida sobre a terra era mais serena e feliz do que nesta época de pessimismo. Vergonha. Cruel infância da humanidade. O doentio moralismo que ensinou o homem a se envergonhar de todos os seus instintos.” Wally Salomão

A resposta é sim. Mesmo com algumas ressalvas, vale a pena assistir “Boca a Boca”, série brasileira que chegou na plataforma de streaming da Netflix em julho sem fazer muito barulho. Criada por Esmir Filho (“Os Famosos e os Duendes da Morte”) e dirigida por ele em parceria com Juliana Rojas (“As Boas Maneiras”), “Boca a Boca” é um suspense adolescente ambientado num cenário ultraconservador da cidade pecuarista Progresso.

Ótima para maratonar – são apenas seis episódios com duração de cerca de 40 minutos cada –, assisti em dois dias e selecionei três motivos que me fizeram aprovar “Boca a Boca”. No quarto tópico, reuni minhas ressalvas quanto a produção. Confira!

1) O enredo
Não há dúvidas de que a série foi criada para adolescentes, com roteiro recheado de questões típicas dessa fase da vida, como descoberta da própria sexualidade e o confronto com as expectativas dos pais. Mas isso, nem de longe, torna a série menos interessante. Pelo contrário. O ambiente essencialmente jovem é fundamental para o desenrolar do enredo que mistura distopia, suspense e ficção científica e é construído essencialmente na transmissão, por meio do beijo na boca, de uma doença ainda desconhecida.

Os afetados pela enfermidade adquirem uma mancha escura nos lábios, ficam praticamente cegos e não expressam mais qualquer tipo de sentimento. Transformam-se em mortos-vivos que são isolados compulsoriamente no único hospital da cidade. Sensação de déjà-vu? Apesar de os sintomas não chegarem perto da Covid-19, e de a série ter sido gravada bem antes da descoberta do novo coronavírus, é praticamente impossível assisti-la sem pensar na pandemia. Portanto, vá preparado.

2) A beleza
“Boca a Boca” é muito bela. Logo no primeiro episódio, os criadores mostram ser cuidadosos na escolha da estética, da trilha sonora e das cores. Há contrastes evidentes entre o ambiente sépia, ensolarado e seco, no qual prevalecem as cenas da cidade conservadora e interiorana comparados com o do libertário e progressista, que abusa de luzes, cores frias e brilho, do qual os adolescentes se sentem parte. Assistir à série pode levar ao desejo de presenciar tanto um quanto o outro ambiente.

3) O elenco
A montagem traz uma agradável surpresa ao combinar artistas mais experientes com atores mais jovens. Atrizes como Denise Fraga, que vive a desagradável e autoritária diretora Dona Guiomar, e a mineira Grace Passô, mãe resignada de Fran, dão ritmo importante à série. Já as atuações de Michel Joelsas (“Que Horas Ela Volta?”) e Caio Horowicz (“Hebe”) empregam o carisma, o frescor e o drama necessários à produção.

4) O que não curti: temas demais, sutileza de menos
“Boca a Boca” levanta bandeiras fundamentais para o Brasil de hoje, como a divisão de classes, a homofobia, o racismo, o machismo, o fanatismo religioso, o uso predatório do agronegócio e até o veganismo. Porém, o fato de quererem tratar de tantos temas numa única produção pode ter levado os criadores a perderem a mão em alguns momentos, o que resultou em cenas de atuações forçadas.

Sinopse: Em uma cidade do interior, uma garota acorda depois de uma festa infectada por um vírus transmitido pela boca. Além dos dramas comuns para a idade, os adolescentes do local vivem com medo da doença e de que seus segredos sejam descobertos.

Fotos: Netflix/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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