Letícia Persiles lança ‘O Baile das Andorinhas’ e saúda mulheres do Cangaço

*por Raphael Vidigal

“Em breve. Em breve, soluçou. Mas rompia os laços aveludados que a cobriam, os pequenos detalhes de estanho, os paninhos verdes nas extremidades, o difícil jogo de eliminar as paredes uma a uma. Esquecia lentamente o espaço. Esquecia que sentara no muro e escrevera cartas, vendo passar as andorinhas.” Ana Cristina Cesar

Letícia Persiles olhou “bem dentro dos olhos de uma andorinha” e percebeu que todo aquele “horizonte sem fim poderia também ser contemplado no fundo dos olhos de Maria Bonita”, a primeira cangaceira a integrar um bando, a quem ela dedica “O Baile das Andorinhas”, seu mais novo disco. “O que mais me impressiona é seu inconformismo, seu desejo de ser livre ou sua coragem, porque pra mim desejo e coragem caminham juntos”.

Com sete faixas inéditas, sendo cinco da lavra da anfitriã, uma regravação para “Caravana”, de Geraldo Azevedo, e a declamação de “Lígia”, cangaceira vítima de um brutal feminicídio, o álbum é o segundo da carreira solo da ex-vocalista do Manacá, que atuou em novelas da Rede Globo como “Amor Eterno Amor”, “Além do Tempo”, “Orgulho e Paixão” e “Espelho da Vida”. A vaguidão do olhar de passageiros no metrô lembrou a Letícia a andorinha ferida, para a qual não há salvação sem liberdade.

Como se deu a sua descoberta da trajetória de Maria Bonita?
Sempre tive uma grande identificação com a cultura e história do Nordeste brasileiro, principalmente pela região do Cariri. Já fiz trabalhos e pesquisas sobre a Pedra do Reino, Canudos, Caldeirão de Santa Cruz do Deserto… já fiz romaria em Juazeiro do Norte mais de uma vez, e toda essa cultura tem toda a minha admiração e respeito. Não sei dizer quando foi a primeira vez que entrei em contato com a história do Cangaço, mas tenho na memória duas experiências que foram muito marcantes em relação a esse assunto no passado. A primeira foi em uma exposição com objetos originais do Cangaço, que visitei ainda adolescente, no final dos anos 1990, no Centro Cultural dos Correios do Rio de Janeiro. Lá, pude ficar de frente para um manequim vestido com as roupas e os sapatos de Maria Bonita, que me permitiu ter a noção perfeita das dimensões do seu corpo, sensação que pra mim foi muito forte. Outra vez foi por volta de 2006 ou 2007, no caminho de Caruaru para Juazeiro do Norte, quando estava indo pela primeira vez acompanhar uma romaria lá, passei uma noite em Serra Talhada e aproveitei para encontrar um amigo que morava lá. Serra Talhada é a cidade onde nasceu Lampião e esse meu amigo me levou para conhecer o Museu do Cangaço que existe lá e que na época ainda tinha em seu acervo os supostos óculos de ouro de Lampião, e que um tempo depois foram roubados. Mas, fora os óculos, muitas outras peças originais de cangaceiros podem ser vistas por lá.

O que mais te impactou quando você entrou em contato com essa história pela primeira vez?
Mas foi só há mais ou menos dois anos que venho pesquisando especificamente a participação das mulheres no Cangaço, e foi aí que conheci melhor a trajetória de várias cangaceiras, inclusive de Maria Bonita. Meu interesse sempre foi entender melhor quem eram essas mulheres e me surpreendeu descobrir que a participação delas transformou muitos aspectos importantes do movimento, inclusive a estética. Difícil dizer o que mais me impactou ao entrar em contato com suas histórias, mas posso dizer que, em relação à Maria, que foi a primeira mulher a integrar um bando, o que mais me impressiona é seu inconformismo, seu desejo de ser livre ou sua coragem, por que pra mim desejo e coragem caminham juntos.

Quando surgiu o desejo de conceber um disco inspirado em Maria Bonita?
Tem mais ou menos dois anos que comecei a compor as músicas do “Baile das Andorinhas”. Comecei inspirada nos movimentos migratórios do nosso mundo, na coragem dos refugiados, e acabei entrando no Cangaço através da minha identificação com o assunto, claro, e pelo aspecto de revolta popular que é pra mim a característica mais marcante e interessante dele. Comecei a entender os cangaceiros como refugiados, indivíduos que tentavam escapar de uma sociedade socialmente injusta, que mantinha oprimida a maior parte da população humilde, sendo explorada por alguns líderes políticos e donos de terras. Quando se fala da participação de mulheres nesse movimento, estamos acrescentando mais uma camada à questão, no caso a camada que mais me interessa. Pois, quando mulheres participam de movimentos de revolta popular e ainda com papéis de destaque, o machismo e o patriarcado também são atingidos. Foi quando me deparei com esse fato que me apaixonei pelo período em que as mulheres participam do Cangaço e me encantei com Maria e sua trajetória de vida. Decidi, então, que seria sobre isso que eu queria falar com essas músicas, com esse novo disco.

Qual a importância da figura histórica de Maria Bonita nesse contexto?
Escolhi dar destaque à história de Maria Bonita, e não às histórias de Enedina, Durvinha, Sila, Cristina, Dulce ou mesmo Dadá, que sabemos ter sido a única mulher a empunhar armas e que chegou a comandar um grupo inteiro de cangaceiros. Isto por que, além de ter sido a primeira a ingressar no movimento, contrariando a regra básica de proibição da presença feminina, Maria entrou com seus próprios pés, negando-se a obedecer os padrões de comportamento exigidos das mulheres na época, para viver do seu próprio modo, ao lado de quem ela escolheu amar. Quando Maria deu passos em direção à sua autonomia, ela mexeu com todas as estruturas da sociedade em sua volta. Acho importante reconhecer Maria, assim como outras cangaceiras, como figura histórica brasileira, latino-americana e não somente como parte de um folclore regional. Assim como enaltecer seu caráter de força e subversão através da contextualização histórica de sua trajetória, reafirmar a importância e dar o devido protagonismo às mulheres brasileiras que, sim, fizeram parte da construção do que somos hoje como sociedade. A historiografia oficial e seus livros didáticos, a meu ver, deixou de dar a devida importância a muitas figuras femininas. É preciso reescrever muitos capítulos da nossa história para que tenhamos mais mulheres reconhecidas por seus feitos e, assim, reafirmamos a importância da luta feminista hoje e da quebra da hegemonia masculina.

Como chegou ao batismo do disco “O Baile das Andorinhas”?
Gosto de comparar Maria e outras cangaceiras a aves migratórias, porque esses são seres que só conseguem viver em liberdade e que estão em constante movimento. Eu já tive a oportunidade de olhar bem dentro dos olhos de uma andorinha. Uma vez, durante esse tempo de criação do álbum, tentei salvar uma que encontrei machucada. Não consegui, porque depois de muito tentar alimentá-la, descobri que essas pequenas aves só comem o que podem caçar e essa andorinha tinha uma lesão irreversível na asa, segundo o veterinário que consultei, e nunca mais voltaria a voar. Andorinhas que não podem voar, não podem viver, foi o que aprendi. E olhando no fundo dos olhos dela, imaginei que todo o horizonte sem fim que eu enxerguei ali, também poderia ser contemplado no fundo dos olhos de Maria, se eu pudesse um dia olhar no fundo dos olhos dessa mulher. Por isso o álbum ganhou esse título.

O que te inspira a compor e como é o seu processo de composição?
Costumo me inspirar no conteúdo das minhas pesquisas, mas também sou muito observadora e introspectiva, o que faz com que tudo à minha volta possa trazer alguma inspiração. Compor pra mim é, na maioria das vezes, um processo solitário. Costumo trabalhar bem sozinha na parte da criação, além da parte da pesquisa, criação das músicas, do conceito e da identidade visual dos meus trabalhos. Faço as capas e tudo mais. Uso o tempo como um grande aliado também. Trabalhos assim independentes, têm essa vantagem, pelo menos essa (risos), não há prazos a se cumprir, e o ritmo de criação então pode seguir livre e contínuo, recebendo cada estímulo que o mundo exterior pode oferecer.

Poderia nos contar como se deu o nascimento de uma das canções do álbum?
Em “Trem Fantasma”, que é a primeira faixa do disco, por exemplo, nas muitas viagens de metrô que eu fazia na época, ainda morava no Rio, minha cidade, e estava num bairro longe do centro, eu observava os rostos de quem ia ou vinha do trabalho, dos artistas que ali passavam seus chapéus, dos estudantes, dos malucos, dos aleijados. E a grande maioria me parecia sempre muito cansada, cansados de ir e vir a lugar nenhum, era o que me parecia. E quando eu me sentia muito sufocada com toda aquela falta de esperança, eu olhava pela janela e primeiro aparecia o meu reflexo, depois a escuridão dos túneis e depois todo um universo se revelava por trás do vidro. Existe um mundo lá embaixo. Desde sinalizações, caminhos, trilhos, escadas, portas, luzes e até imagens de santos protetores. Numa dessas viagens, olhando pela janela do vagão, lembrei dos olhos negros daquela andorinha que uma vez eu tentei salvar. Aquelas duas janelinhas pequenininhas que também revelavam um universo escondido, cheio de força e luz, me ensinaram que não há salvação para andorinha que não pode mais voar. Sem metáforas, como eu já expliquei aqui, andorinhas não se alimentam em cativeiro, são aves migratórias e só se alimentam do que podem caçar. Não há outro caminho para uma andorinha que não a sua liberdade, mas e toda aquela gente presa no metrô? Que caminho é esse que seguem? De que maneira estamos vivendo? Oprimidos? Presos a um sistema? Do que precisamos mais, de comida ou de coragem? Assim escrevi essa música.

Você também assina a capa e o design gráfico do álbum. O que procurou transmitir com a bela imagem que ilustra o disco?
Costumo desenhar e pintar enquanto componho e pesquiso, gosto de fazer isso. Também é uma das minhas maneiras de me expressar. Usar esses desenhos na capa do disco e dos singles foi uma maneira de mostrar um pouco mais do processo criativo. Os desenhos da capa do disco são referências às pesquisas e às músicas, e lá você pode perceber que tá tudo saindo da minha cabeça (risos).

De que maneira a sua formação e experiência de atriz interfere na sua atividade musical e vice-versa?
Com certeza o que crio como compositora é fruto do que eu sou, da minhas experiências e tudo mais. Atuar como cantora e atriz para mim sempre foi quase uma coisa só, são duas atividades que se complementam. A atriz pode cantar em cena, no palco, e a cantora quando se apresenta também está encenando. Além de que, pra mim, o palco é um terreno sagrado, que se pisa de uma outra forma, como se estivesse num templo, numa igreja ou num terreiro, isso vale tanto para a música quanto para o teatro e o audiovisual.

Quem são as suas principais referências musicais?
Acho que eu poderia passar horas aqui listando artistas (risada), mas vou citar alguns que acho que estão mais presentes no meu dia-a-dia: Elomar, Marinês, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga, Mercedes Sosa, Estrella Morente, Clube da Esquina, André Minvielle, Banda de Pífanos de Caruaru, Taraf de Haidouks, Goran Bregovic, Fanfare Ciocarlia, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elis Regina, Clara Nunes.

A faixa “Lídia” traz a declamação de um texto e toca na questão do feminicídio. Qual a importância de tocar nesse assunto no Brasil atual?
Essa faixa é a narração de um trecho adaptado do capítulo “A Presença Feminina no Cangaço”, do livro “Maria Bonita”, de Antônio Amaury Corrêa de Araújo, acompanhada pelo piano de Lucas Vasconcellos. Quando li esse livro fiquei muito emocionada ao ler esse capítulo, que descreve as camadas de roupas, acessórios, armas, remédios e alimentos carregados no corpo pelas cangaceiras. Me fez pensar no peso que os corpos femininos ou efeminados carregam e sustentam ao longo da vida. No Cangaço, apesar de estarem participando de um movimento que, até então, era composto somente por homens, de não terem as obrigações que outras mulheres tinham em relação aos trabalhos domésticos, como lavar e cozinhar, pois esse era um serviço feito pelos homens, e de terem a liberdade para usar perfumes, maquiagem e joias, as cangaceiras ainda eram vistas como propriedade pelos seus companheiros. Não tinham também a chance de criar os próprios filhos. Quando engravidavam e pariam, os bebês que sobreviviam eram entregues a outras famílias para que lá vivessem. Muitas foram as violências que essas mulheres sofreram, muitas são as violências que as mulheres sofrem ainda hoje, simplesmente por serem mulheres. Lídia era o nome da cangaceira companheira de Zé Baiano, a mulher que dizem ter sido a mais bela cangaceira de todas e que sofreu o feminicídio mais famoso da história do Cangaço. Segundo alguns pesquisadores, Lídia entrou no cangaço por vontade própria e Zé Baiano a tratava com muito carinho e ternura, lhe dando até comida na boca e reservando para ela os melhores pedaços de carne do prato. Porém, quando ela confessou que havia se apaixonado e se relacionado com outro cangaceiro, o Bem-te-Vi, do bando de Corisco, foi brutalmente torturada e morta por Zé Baiano. Esta faixa está aqui para nos lembrar de como e por que Lídia foi morta e que, apesar de toda a luta feminista de décadas, muitas Lídias são apagadas, silenciadas, violentadas, agredidas e assassinadas todos os dias no nosso país.

O que te levou ao encontro de Edzita, que participa da faixa “Lígia”?
Tive a sorte de conhecer Edzita pouco tempo antes de começar as gravações do disco. Seu trabalho tem tudo a ver com o texto dessa faixa. Por isso, poder contar com a sua voz e experiência preciosa foi muito enriquecedor e prazeroso. Edzita é uma multiartista sertaneja, comunicadora social e mestre em Ciências Sociais, com pesquisa em arte têxtil, feminismos, saberes ancestrais, escrita poética e muito mais. Além de ser bordadeira, costureira e ter uma trajetória de trabalhos que investigam desdobramentos político-corporais em torno da menstruação. Edzita é, pra mim, uma dessas vozes femininas que se levantam e merecem lugar de destaque. Desejo que ela seja ouvida por muitos!

Por que decidiu regravar “Caravana”, do Geraldo Azevedo, nesse álbum?
Primeiro porque amo essa música! Ela me remete muito ao universo do Cangaço. Quando na letra aparecem as velas e o cais, sempre me vem à mente as canoas de tolda, como a Luzitânia e a Prazeres, que levaram tantos cangaceiros de uma margem a outra do Rio São Francisco.

O que te levou a encerrar o álbum com uma faixa cantada em inglês, “Shine”?
Sempre fui contra a ideia de gravar uma música em inglês, por questões ideológicas mesmo, mas, quando o Lucas Vasconcellos, que é o produtor e arranjador do disco, me mostrou essa música dele, eu mudei de ideia, achei a música linda e quis que ela fizesse parte do álbum. Gravar uma música com letra em inglês, por ser algo inédito para mim, acabou me trazendo uma ótima sensação de renovação. Bom, ela é a última faixa de um disco que, de alguma forma, conta a história de Maria Bonita, e o fim dessa história todos nós conhecemos. Ela acaba com o massacre de Angicos, onde onze cangaceiros foram mortos, incluindo Maria Bonita. Mas eu não queria que esse disco terminasse assim, com sua morte. Quero que termine com sua memória viva, e de todas as cangaceiras, para que não sejam lembradas somente como companheiras e amantes, mas como protagonistas da suas histórias, da história do Cangaço, que foi profundamente modificado com a participação delas. “Shine”, então, finaliza o disco com uma atmosfera luminosa, de renascimento.

Qual a sua opinião sobre o momento político do Brasil que elegeu Jair Bolsonaro à presidência da República?
Infelizmente, boa parte disso é resultado de décadas de falta de investimentos em educação por parte de muitos governantes, de falta de políticas culturais, o que gera desvalorização e desconhecimento da nossa própria cultura, falta de entendimento da nossa história. Ficamos totalmente desprotegidos como comunidade, grupo ou nação quando perdemos ou deixamos de lado nossa identidade cultural, nossas raízes. O resultado é essa tristeza, essa tragédia total que tomou conta do nosso país. O fascismo, o negacionismo e o fanatismo religioso preencheram a lacuna criada pela grande falta de escolas de qualidade, pela falta de manutenção das nossas tradições culturais. Juntando tudo isso com a maneira como esse desgoverno e seus seguidores têm lidado com a pandemia parece que estamos vivendo um pesadelo.

Como você tem lidado com esses dias de quarentena?
Estou firme e forte respeitando a quarentena há seis meses, por mim e pelos outros. Admirando cada vez mais os profissionais de saúde desse país que são verdadeiros heróis. Cada vez mais indignada e triste com a quantidade de mortes que só aumenta, sabendo que muitas delas, muitas mesmo, poderiam ter sido evitadas, não fosse essa necropolítica criminosa do atual desgoverno.

Fotos: Fábio Audi/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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