Tudo em Volta Está Deserto

“Uma gaiola saiu
à procura de um pássaro” Franz Kafka

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos: os seres humanos viviam em pequenas ilhas e o que antes chamávamos de mundo se encontrava submerso, restando apenas retalhos de lares, comércios. Dessas ilhas, não mais distinguíamos os dias das noites. Sol ou lua não delimitavam o tempo do alto do sistema solar. Era tudo meio igual. Uma continuação de um período que sempre desembocava no vazio. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O tempo não passava de um papel transparente e duro e nele era difícil construir alguma coisa que não esfarelasse. Assistimos a televisão e a televisão é a única que nos assiste. Para muitos, o experimento é enlouquecedor. E no sonho, vejo isso pelas janelas.

O telefone era agora uma extensão dos braços e das duas mãos, vinculando nosso olhar ao que insiste lá fora e no interior das ilhas. É assim que os humanos agora se tocam, ouço dizer. A cidade agora é habitada por fantasmas sem crânios, de lógicas e formatos mais ou menos animalescos. Entre eles há um rei – também sem crânio – que dita as regras nesse deserto e transita feito o rei de nada mas acreditando que é rei de alguma coisa, convocando os fantasmas e as ilhas para uma espécie de segunda morte. Cada passo do rei é um descompasso e ouvimos amedrontados a desestruturação da terra de nossos pequenos espaços. Assistimos a transmissão da catástrofe diretamente das nossas casas: é do rei que sai o anúncio da miséria, o início e a progressão de uma guerra sem data para acabar: os fantasmas ameaçam demolir o que restou – as ilhas – enquanto do lado de fora acontece um massacre silencioso, invisível: um vírus que se espalhou por todo o globo terrestre, adoecendo e matando pessoas e por isso precisamos nos manter fixos e sozinhos em nossos devidos lugares. Da solidão das ilhas, encaramos todas as mortes, todos os túmulos, contabilizamos os corpos, os finais do desejo e uma vida que morreu e que talvez ressuscite completamente transformada. Não sabemos.

É transmitido pela televisão o pronunciamento do rei sem crânio: ele nos convida à saltar para a morte. Alguns aceitam, outros recusam. A cada palavra dita, o mundo submerso se ergue e se esvazia em um deslocamento de pura fúria. Fantasmas e ilhas observam atentamente os movimentos do corpo mais deserto no mundo: o rei desfila sem o seu crânio e a cada passo o rei se mistura ao deserto e o deserto se mistura ao rei, o que resulta numa massa amorfa. Os desertos têm a reputação de serem capazes de sustentar pouca vida assim como na Antártida, alguém grita de uma pequena ilha.

Certa manhã acordei de sonhos intranquilos: tudo em volta está deserto mas o conjunto de ilhas que ainda resiste, atendia pelo nome de Brasil.

Juliana Magalhães, escritora, roteirista, modelo e atriz

Pintura: “Melancolia”, obra de Edvard Munch.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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