Tom Zé ganha biografia que o define como ‘O Último Tropicalista’

*por Raphael Vidigal

“Meu sangue é de gasolina
Correndo, não tenho mágoa
Meu peito é de sal de fruta
Fervendo no copo d’água” Tom Zé

Tom Zé abre o violão e de lá retira repiques e passarinhos. Abre a saia e retira de si uma moça prendada, aquela da música “Menina, Amanhã de Manhã”, referência à ditadura. Ironias à parte, o mais ácido dos tropicalistas, como cansaram de defini-lo, não se enquadra. “Só posso ser útil se eu apenas oferecer aberturas”, explicou ele melhor que ninguém e do que qualquer um. A performance do artista guarda íntima ligação com o discurso. “Cada passo na arte é sobre o fio da navalha, entre o ridículo e o brilhante”, definiu certa vez. Baiano de Irará, octogenário, prestes a comemorar outro aniversário em outubro, ele acaba de ganhar uma biografia escrita pelo italiano Pietro Scaramuzzo, cuja versão em português chega agora ao Brasil. O título da obra, novamente, tenta apreendê-lo, numa busca impossível. Tom Zé é escorregadio como as utopias.

“O Último Tropicalista” resume em 336 páginas uma personalidade inquietante. “Logo que pensei em escrever a biografia me veio o título, foi o primeiro que me veio à cabeça e se refere à época do ostracismo”, explica Scaramuzzo, que compreende Tom Zé, “como o artista remanescente, o último representante, aquele que mantinha conceitos e linguagem que o movimento propunha na época, e que incluem o antropofagismo da cultura musical internacional e a preservação das raízes culturais brasileiras”. Formado pela Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde estudou composição e estrutura com Ernst Widmer e história da música com H. J. Koellreutter, dois de seus maiores mestres, Tom Zé foi um dos artífices da Tropicália, o que não o impediu de ser escanteado do movimento, numa exclusão silenciosa que perdurou por décadas.

Do chão ao céu. “Acredito que poucas pessoas teriam tido a força de enfrentar 20 anos de ostracismo como Tom Zé fez”, afirma o biógrafo. “Eu acho que, pela primeira vez, através da biografia, podemos conhecer o Tom Zé na sua totalidade, como homem e como artista. Antes disso, a gente só conhecia uma parte da sua história. Eu quis contar o ‘lado B’, focando na infância e no período do ostracismo. Para mim, é essa a força desse livro”. Tom Zé foi resgatado das sombras pelo escocês David Byrne, líder dos Talking Heads, que descobriu o disco “Estudando o Samba”, de 1976, ao acaso, em uma loja de sebos do Rio de Janeiro, e saiu de lá embasbacado. A partir daí, Tom Zé, que mantinha a carreira com shows universitários, tornou a ter virados para si os holofotes da ribalta e atingiu os píncaros da glória, sendo aclamado de Nova Iorque a Paris.

Não à toa, Byrne assina o prefácio de “O Último Tropicalista”. “David Byrne me disse que, quando o escutou pela primeira vez, ficou surpreendido. Afinal, era um artista brasileiro que utilizava elementos musicais que poderiam pertencer aos ambientes de Nova Iorque ou Berlim. É o famoso misturar ‘chiclete com banana’. Na música de Tom Zé, esta mistura insólita é constantemente presente e se renova a cada disco. O hip-hop se mistura com o samba, a bossa nova com a música eletrônica e por aí vai. Acho que, entre os tropicalistas, Tom Zé foi o que mais conseguiu canibalizar as outras culturas”, conceitua Scaramuzzo, que chegou a seu protagonista por meio dos colegas de movimento. “Como a maioria dos estrangeiros que se aproximam da música brasileira, me deparei com o Tropicalismo. Assim, conheci Caetano, Gil, Os Mutantes, Rita Lee, Tom Zé”, diz.

Descobertas. O real interesse do jornalista por Tom Zé nasceu anos mais tarde. “Era uma época em que eu viajava muito para o Brasil e, durante uma dessas viagens, entrei em contato para organizar uma entrevista com o Tom Zé. Ele me recebeu na casa dele e, durante a entrevista, fiquei fascinado ao ouvi-lo falar sobre o Tropicalismo. Tom Zé é, além de um artista genial, um homem de grande cultura”, relata Scaramuzzo, que ouviu histórias de Aristóteles, Euclides da Cunha, dos poetas provençais e de compositores alemães contadas pelo compositor de “Senhor Cidadão”, “Augusta, Angélica e Consolação”, “Complexo de Épico”, “Amarração do Amor” e outras preciosidades. “E tudo isso tinha a ver com o Tropicalismo. Enfim, achei a história interessantíssima. Um quebra-cabeça a ser resolvido”, continua. Ele começou a juntar as peças imediatamente.

“Logo depois dessa conversa, pesquisei muito sobre Tom Zé. Encontrei várias matérias, depoimentos e algumas teses de doutorado, mas nenhuma biografia oficial. Então, surgiu a ideia do livro, comentei com Tom Zé e, para minha grande surpresa, ele curtiu”, rememora. Desde então, a dupla colocou em prática um trabalho para reconstruir os últimos 80 anos do cantor. “Eu e Tom Zé passamos um ano inteiro conversando via WhatsApp. A gente marcava dia e hora, eu propunha um tema, seguindo uma ordem cronológica, e nós destrinchávamos o assunto”, elucida o autor, que não poupa elogios ao perfilado. “Para mim, foi uma experiência inesquecível, além de um privilégio extraordinário. Nessas longas conversas, tive a possibilidade de apreciar muitos aspectos de sua personalidade”, afirma Scaramuzzo, que resolve destacar dois dentre todos eles.

Curiosa coragem. “No livro ‘Os Sertões’, Euclides da Cunha afirma que o nordestino é, antes de tudo, um forte. Tom Zé, baiano, encarna perfeitamente essa definição, quem o conhece sabe. A segunda característica que eu destacaria é a curiosidade. Este é o tempero que ele usa em todas as suas experimentações musicais. Nunca vi uma pessoa tão sinceramente interessada pelo mundo e pela natureza humana”, exalta. Justamente por isso, o escritor está, nesse momento, “literalmente apaixonado” pelo disco “Vira Lata na Via Láctea”, lançado por Tom Zé em 2014, em que o anfitrião canta com Caetano Veloso. Nomes da nova geração também comparecem, como Criolo, Silva e Tim Bernardes, que participa da irônica “Papa Francisco Perdoa Tom Zé”, um sarro direcionado aos críticos que achincalharam o compositor nas redes sociais após ele participar de um comercial da Coca-Cola durante a Copa do Mundo de 2014.

O mais recente álbum foi colocado na praça em 2017, com “Sem Você Não A”, onde ele aborda o universo infantil com uma perspectiva própria. Antes, gravou o não menos provocativo “Canções Eróticas de Ninar” (2016). “Tem uma música que se chama ‘Curiosidade’ (do disco ‘Defeito de Fabricação’). Para mim, é a descrição perfeita da essência de Tom Zé e, de alguma forma, é o resumo da história da humanidade. Tudo que o homem fez foi por curiosidade. É genial”. Da lavra antiga, o entrevistado elege “Pecadinho”, presente no seminal LP de 1972. “A primeira música que aprendi a amar foi ‘Frevo’, mais conhecida como ‘Pecadinho’. Fiquei impressionado não só pela música em si, que remete com força ao Nordeste, mas também pela poética sagaz. Gostei do pecadinho como ideia de libertação”.

Futuro. “Tom Zé é fruto do momento histórico que ele viveu, na sua poética ele costuma se concentrar sobre o presente, e nunca sobre o futuro”, continua Scaramuzzo, que não se arrisca a elaborar o que o artista pensa a respeito do Brasil de Jair Bolsonaro. “Como a última obra é de 2017, não temos um disco que retrate esse momento”. Mas ele é capaz de tecer as próprias considerações. “Eu acompanho a situação brasileira bem de perto e, infelizmente, a vejo como dramática. Acredito que falte uma classe política que saiba realmente guiar um país complexo como o Brasil. Tenho a impressão de que o Brasil esteja, literalmente, sem rumo. A gestão da pandemia está um desastre tanto quanto as políticas sociais. E quem paga o preço de tudo isso é o povo. Em geral, acho que a oposição precisa se movimentar urgentemente”, avalia o repórter italiano.

Na música “Amarração do Amor”, do álbum “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012, Tom Zé canta: “A cartomante me garantiu/ Quando o baralho se abriu/ Que você vai me pedir perdão/ Com os joelhos arrastando no chão…”. Mas, sem uma bola de cristal confiável, que ninguém se atreva a conjecturar os próximos passos de Tom Zé. Em outubro de 2020, uma compilação com gravações obscuras foi editada sob o nome de “Raridades”, em que se sobressaem o registro ao vivo de “Jeitinho Dela” e uma versão da valsa “A Dama de Vermelho”, sucesso de Francisco Alves em 1943. Recém-saída do forno, segue como a novidade mais fresca, embora haja notícias de que o músico anda enfurnado preparando outras. “Não sei quais são os projetos futuros dele, mas, se soubesse, manteria o segredo”, disfarça Scaramuzzo. Afinal de contas, o artista escapa como a utopia.

Foto: André Conti/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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