Televisão de cachorro

“E vi seus dedinhos magros seguindo os contornos do desenho, movimentando-se lentamente, como se sua imaginação os cobrisse de tinta.” Sebastião Vidigal

Obra do pintor Joan Miró

Pode ser fervorosa. Uma Messalina doidivana. O escafandro está enferrujado, encardido. O domador de cavalos da barba amarela-gema pratica quiromancia. Quixotesca: da cor creme: o Corcunda de Notre-Dame, desconfortável em sua França, aqui se estabeleceria. Da forquilha, dos pirilampos. Do mel melado, cor de canela, colher de chá: uma folha de camomila. Patos na lagoa: a fonte no meio da praça em alameda. O velho barbudo e gordo numa bicicleta imensa? Pequena para seu tamanho. A arara no poste da praça: a dama dos velhos em balcões de lata. Os moradores não ficam: praticam a arte da travessia: andam doentes: à deriva: navegam mares: rumam aos montes: a doença inflama.

Os rostos calvos na paradeza ressonante. Onde o trabalho dignifica o homem a cultura cristã se apodera para justificar cruzes: o desdém ao ócio. Uns invernos, umas aporrinhações do espírito: ante os braços da revelação, ontem os aços da indiferença. Ostensiva: hostil: e extensa: vermelhos fios de cobre te cercam: uma beira de praia – imaginária – coqueiro, palmeira, pés de jaca, jangada. Respiro: respira: respiro: respira: Sopra o tecido, a secura da boca cravada de fendas a oscilar, para cima e para baixo, e cor pálida, um leve esmorecer, pois permanece tapando a paisagem.

O relógio está eternamente parado. O banco da praça é televisão dessa gente: perdida: entre o tonel de cachaça e os entulhos. A boca sem dentes prevarica o inestimável. Lambe os beiços e limpa nas mangas e golas de camisa a gordura escorre e o sangue pardo amarelo quente da galinha caipira. Largada e desguarnecida a fronte, a praça, as mesas de xadrez, a sensação de paz permanente pousa a cabeça sob folhas secas e descansam todos os problemas. Que aqui também existem. Badala a coruja ainda.

Miró buscou volta à pureza com sua arte

Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de Joan Miró.

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1 Comentário

  • Oi Raphael. Não entrou no face e agora que vi sua mensagem. Desculpe. Lindo demais sua homenagem e seu texto. Obrigado e fiquei muito honrado…abraçao…sebastiao

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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