Professora de dança Isa Zendron bomba na web com ‘Rabaterapia’

*por Raphael Vidigal

Dança, ó corpo… Não pensa, ousa!
As delícias aqui são causas
Que bastam ao curso das coisas!…” Paul Valéry

Qualquer objeto ganhava para Isadora uma nova dimensão, que se pendurava neles como se não houvesse amanhã, com a sabedoria que as crianças têm de que só o instante existe. “Eu não parava… Era meio circense, e muito levada!”, admite ela que, hoje, atende pelo nome de Isa Zendron, 32, a professora de dança acompanhada por mais de 27 mil seguidores no Instagram. O diminutivo do nome, inclusive, transformou-se em trocadilhos que ela utiliza durante as aulas, com frases de incentivo como “memoriza” e “exorciza”. A menina que amava dançar É O Tchan e Michael Jackson com o primo – a dupla imitava a briga de gangues presente em “Beat It” – segue presente. Aos 4 anos, “bem pequenininha”, como ela frisa, a mãe a colocou na ginástica rítmica, uma modalidade esportiva “super dançante, com bolas, fitas e outros aparelhos de dificuldade”, onde ela permaneceu até os 15 anos. “Aprendi muita coisa, inclusive coisas que eu não queria mais, como a competição e as regras”, conta.

Mas o destino bamboleou e deu uma volta na vida de Isa. Ela acabou se formando em Moda, muito em razão de uma relação com os figurinos. “Na ginástica rítmica a gente fazia nossos colãs, a equipe toda bordava”. Ao contrário do que imaginava, ela se deparou com um segmento industrial, em que as empresas tinham metas a cumprir e coleções mensais para propagandear. O processo de desgaste a levou a contestar essa fast fashion, com tamanhos feitos para limitar as pessoas e roupas com prazo de validade, para “fazê-las comprar o que não precisavam”. Isa também sentia falta de um contato humano menos frio e mais caloroso. Então resolveu retomar ao princípio. Natural de Blumenau, em Santa Catarina, descobriu nas ruas de São Paulo o glamour dos teatros e o universo das Drag-queens. Se sentiu num videoclipe da Broadway. E uniu as duas pontas de um desejo latente para criar a sua Boate Class: Uma aula de dança como você nunca viu, ou, como ela promete no slogan: “a mais divertida!”.

Boate. Isa trabalhava com moda porque precisava, mas não curtia e começou a ficar muito infeliz. Ela tinha parado de dançar e voltou a praticar como hobby, para desestressar, quando chegava em casa. “Quando você está na dança desde cedo, te colocam na cabeça que, se você não fizer sucesso até os 20 anos, desiste…, porque o corpo não aguenta. Eu acreditei nisso e tinha abandonado quando, com 27, 28 anos, voltei a dançar pra mim e comecei a ver o quanto me fazia bem, que eu não estava velha pra dançar”. Isa investiu em cursos e logo dava aulas em franquias de dança de um amigo do Sul, do tipo zumba. Paralelamente, permanecia contratada no ramo da moda. A confiança para mergulhar sem medo no sonho veio quando ela foi demitida. “Ser mandada embora nesses momentos é muito bom, porque acaba te encorajando”. A mudança de ambiente trouxe uma nova perspectiva. “As pessoas já entravam na dança com um espírito de troca, de tocar com uma intenção sentimental”, diz.

Determinada a apostar num estilo próprio, Isa visitou escolas de dança e constatou que elas se resumiam a três modalidades: público infantil, com regularidade presencial e apresentação final; bailarinos profissionais de alto nível; e aulas para emagrecer. Ela não queria nem uma coisa nem outra, mas um espaço onde a essência do prazer e do acolhimento se preservasse, como numa boate. “É um exercício físico onde as pessoas aprendem uma coreografia, mas o principal é não ter vergonha, não se sentir acuada, e, sim, livre para poder ser descoordenada no começo e entender que é um processo. Você não está ali para perder peso, mas para se sentir bem consigo mesma, se divertir, dançar sem medo de errar, sem pressão. É uma performance mais que uma aula fitness”, destaca. Na Boate Class não faltam os looks elaborados. “Quando você se monta, a aula vira um evento. Ajuda a entrar num universo lúdico, sem aquela coisa de exercício físico, da roupa justa. É o nosso show, a hora de se permitir…”.

Terapia. Um dos maiores sucessos de Isa é a “Rabaterapia”, que ela carinhosamente chama de “xodozinho”. A iniciativa surgiu quando ela começou a perceber a dificuldade de alunos e alunas em realizar certos movimentos, com relatos do tipo: “Ai, não consigo rebolar…”. “O processo de coreografar faz as pessoas acharem que os movimentos são prontos e, se elas não conseguem executar, é porque são incapazes”. Isa notou que muitos obstáculos vinham da falta de consciência corporal, e lançou mão de uma máxima inusitada. “Até uso uma expressão engraçada, falo pros alunos: ‘Gente, vocês têm que pensar com a bunda!’”, diverte-se. “É entender pra que lado que a bunda vai e não fazer isso no automático”. Com o intuito de rebolar geral, nasceu a “Rabaterapia”. “É parar e mentalizar onde quer mexer, entender as movimentações do nosso corpo enquanto estrutura, onde rotaciona, onde existem as quebras do corpo, é uma aula de anatomia”, conceitua. Da anatomia pra terapia foi um pulo malemolente.

Durante os movimentos básicos de “soltar o quadril, pélvis e joelhos, as pessoas acabavam conhecendo o próprio corpo, entendo as limitações e evoluções, vendo onde os limites foram impostos”. Esse autoconhecimento reverteu-se na autoconfiança de “se sentir mais bonita, ter propriedade sobre o corpo”, avalia Isa. “Foi virando terapia porque as pessoas saíam mais leves e confiantes em tentarem outras coreografias. Entendendo que o erro faz parte e a dança é uma prática. A dança é muito vendida como se fosse um dom, mas ninguém nasce sabendo dançar. Quanto mais você repete, mais domínio tem sobre o seu corpo, e conhecer o corpo é mágico”, enaltece Isa, que confidencia que a “Rabaterapia” chegou, inclusive, a melhorar as relações entre parceiros. “Muito feminista!”, ela garante que a pauta está “super dentro” da sua dança. “Tento ao máximo tirar a objetificação do corpo, tanto das mulheres quanto dos homens, que são muitas vezes julgados de afeminados, e com um uso pejorativo dessa palavra”, declara.

Feminista. “Acredito que as pessoas pensam assim por que elas não se colocam na posição do outro. Por exemplo, as mulheres que julgam as outras têm as mesmas vontades, mas não colocam em prática por medo de julgamentos. Isso aconteceu comigo, tinha medo de trabalhar com a dança e as pessoas me julgarem como uma mulher muito solta”, observa. Segundo Isa, esse é um tipo de julgamento, “que existia e ainda existe, mas, ao me perceber contra esse modelo, passei a tentar mudar as coisas”. “Quanto mais você fala, mais as pessoas entendem e se unem. As danças no Brasil, principalmente o funk e o samba, têm muita relação com o quadril, a bunda, passam a impressão de sedução. Mas, na verdade, a gente está dançando pra gente. Eu não danço para sensualizar e me exibir para os outros. Danço para me fazer feliz. E não necessariamente a gente está abrindo uma porta para alguém. Não tem nada a ver. É quebrar a cara de quem acha isso e confrontar o machismo”, dispara Isa.

Em suas aulas, ela propõe que ninguém mire a pessoa ao lado com olhos de julgamento. “Estamos no mesmo barco!”, diz. As aulas presenciais deixaram de ser uma realidade na rotina de Isa com o início da pandemia do novo coronavírus, em março de 2020, e que caminha a passos largos para vitimar 300 mil brasileiros. Frente a esse cenário, ela teve que se adaptar, e sentiu o baque. “Gosto muito da aula física, a troca com os alunos, a presença”, confessa. Ela ainda não estava dando aulas online, “por teimosia minha mesmo”, e, ao aceitar que as perspectivas de uma volta presencial não eram promissoras, cedeu à tristeza e ao desânimo. Naquela semana, disponibilizou nas redes a coreografia de “Problema Seu”, de Pabllo Vittar, que nem era mais o hit do momento, e teve uma surpresa quando a própria drag entrou na live. “Fiquei completamente emocionada, saí da personagem. Quando dou aula, invisto na professora. Mas voltei a ser Isa, a fã estarrecida”. A aparição relâmpago de Pabllo a impulsionou.

Carnaval. Isa entendeu o acontecimento como “um sinal divino para seguir em frente e promover a mudança para as redes”. “É como diz o famoso provérbio das drags: ‘Muita força na peruca!’”, brinca. Habituada a dar aulas no bairro de Santa Cecília, no Centro de São Paulo, ela passou a colecionar alunas de lugares longínquos como Xangai, na China, e do vizinho latino México, além de chegar a diversas partes do Brasil, como Acre, Pará, Alagoas, Bahia, Minas Gerais, Goiás e Rio Grande do Sul. As perdas emocionais impostas pela quarentena foram equilibradas com ganhos no campo profissional. “Foi tudo bem natural, não forcei a barra, só tive pressa em não deixar os alunos sem conteúdo”, informa. Os desafios do virtual eram muitos, como “deixar a energia lá em cima, para os alunos não se desmotivarem e desistiram no meio da aula”. Os looks exuberantes vieram ainda mais ofuscantes e glitterizados, a dinâmica da aula foi intensificada e coroada com um chat pra bate-papo no encerramento.

“No virtual também tem uma troca de energia, quando todo mundo abre a câmera e você vê as pessoas dançando em seus espaços, com outras pessoas que moram junto…, cachorro passando, filho… É incrível!”, celebra Isa. Outra paixão antiga da professora da qual ela sente saudades é a festa da carne. “Amo Carnaval! Minha mãe é carioca e meu pai é de Blumenau, mas a família toda da minha mãe é carioca e a gente sempre passava os verões no Rio”, recorda. O ensaio na quadra do Salgueiro era inevitável. Os olhos da pequena Isa brilhavam com o som fundo e maciço da bateria e “aquelas pessoas todas tocando em prol de uma música, um movimento… sempre achei mágico o Carnaval, me emociono falando…”. A distância provocada pelo tempo não abalou o sentimento. Mesmo naquela conhecida etapa da vida de “pagar boleto e trabalhar que nem uma louca”, ela o manteve protegido. Em 2015, São Paulo foi atingida por uma onda de blocos de rua, e Isa ia em todos. Abrira-se a fenda para fundar o “Sereianos”.

Brasil. Compartilhada com um amigo, a intenção era ter um bloco para “alimentar a fantasia, fugir da monotonia, fazer ‘montação’”. Na época, o Coney Island Mermaid Parade, desfile de arte realizado em Nova York, dedicou-se ao universo marinho e mítico das sereias. Do fundo do mar, Isa trouxe o glamour das escolas de samba em forma de peixe-mulher para a avenida. Ela pleiteia que o Brasil, “aprenda a valorizar mais o Carnaval, a festa das nossas culturas”. “Adoro quando os temas das escolas de samba são bem brasileiros, onde a gente pode mostrar a história do país numa avenida cheia de arte, música, dança”. Outro aspecto são os milhões de empregos gerados pela folia momesca. “Gera muitas oportunidades, mas é mal organizado. Para mim, o Carnaval é a melhor parte do Brasil. Quem só vê como coisa de bêbado é porque não entende o Carnaval, não foi a fundo. É o momento de celebrar a vida, afogar as mágoas, uma mistura de tudo que é o Brasil. O berço do Brasil vem do Carnaval”, afiança.

Se a origem está no Carnaval, o momento aponta para Isa uma realidade aflitiva. “Acho esse período de agora péssimo, triste, retrógrado, trazendo pudores e valores tão atrasados, mesquinhos, hipócritas. Ao invés de sermos honestos e abrirmos o jogo, regredimos a um modelo tradicional puritano que, para mim, é uma máscara”, critica. É quando a dança volta à baila. Diante do abismo, “dançar, dançar, senão estamos perdidos…”, diria Pina Bausch. “A dança ajuda as pessoas a tirarem o que tem de dentro pra fora. Uma pessoa muito travada pra dançar tem muitas questões com ela mesma e acaba depositando tudo isso nos outros, aponta muito o dedo e olha menos pra dentro de si. Quando a gente começa a dançar, a ter coragem de botar nossos defeitos, nossa falta de coordenação e sincronia pra fora, a mostrar o que talvez na visão do outro seja errado, isso encoraja as pessoas a pensarem de outra forma e a entender que o diferente pode não ser ruim, que ela pode ser diferente e aquilo fazer bem a ela”.

Liberdade. Isa prossegue suas reflexões ao questionar a própria concepção de padrão, assume estar filosofando, e guarda o arremate para o preciso instante em que aquela criança se dependura nas coisas que viram hastes e árvores. “Se as pessoas dançassem mais, elas julgariam menos. O atual problema político do nosso país é que ele julga demais, aponta muito o dedo, mas é cheio de defeitos e tem zero empatia pelos outros. A dança aflora essa empatia. De olhar uma pessoa dançando e pensar: ‘Pôxa, olha ali o que ela está fazendo, do jeito dela… Será que eu consigo também? E aí vai abrindo várias portas dentro…”. Cheias de objetos mágicos para se dependurar como se não houvesse amanhã, com a sabedoria que as crianças têm de que só o instante existe. E a dança é pra hoje.

Créditos: Fernanda Simões/Divulgação; e Estúdio Theo, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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