Gabi da Pele Preta lança primeiro disco e estreia o clipe de ‘Revolução’

*por Raphael Vidigal

“A revolução não se utiliza apenas de palavra de ordem, panfletos, cartazes ou murais, mas também de belas cartas. Precisamente porque são belas.” Lu Sin

Gabriella Freitas já havia assinado de várias formas e usado todos os nomes que estão em sua certidão de nascimento quando resolveu dar atenção a um comentário despretensioso da amiga e atriz conterrânea Isadora Lima, que a abraçou e disse: “Eu gosto tanto desse povo da pela preta”. No dia seguinte, ela operou uma mudança simples no Facebook, mas que teve efeitos significativos em sua vida. “Quando eu pensei em voltar ao nome anterior, muita gente sinalizou que eu tinha encontrado um nome poderoso”, conta a cantora, que, desde então, atende por Gabi da Pele Preta. Agora, ela coloca na praça o seu primeiro single, “Revolução”, que ganhou videoclipe e prepara o disco de estreia.

1 – A música “Revolução” tem uma frase muito marcante que diz, “dançar é uma revolução”. Porque, na sua opinião, a dança tem esse poder?
Dançar é entender que o corpo também é festa, é rememorar a festa que mora nesse corpo que trabalha, que encara os desafios do dia a dia, os pés que suportam o peso do corpo e o levam para todo lugar, essas mãos que me possibilitam realizar tantas funções. O corpo trabalha, mas ele é festa também. O processo de colonização nos joga muito nesse lugar do serviço e do trabalho. Historicamente, o corpo da mulher preta é muito objetificado, sexualizado, explorado. Colonizaram nossos corpos para o lucro. Assim, fomos nos distanciando da dança, da celebração. Então, quando nos permitimos dançar livremente, a gente se reconecta com esse lugar mais ancestral do nosso corpo, com tudo aquilo que o sistema nos nega cotidianamente. Celebrar é um direito ancestral que precisa ser resgatado. Por isso dançar é revolucionário!

2 – “Revolução” foi composta por Juliano Holanda. Como essa música chegou até você?
Eu tenho um repertório denso, com músicas que retratam gênero, raça e responsabilidade social. Faltava uma música que trouxesse leveza ao repertório, mas que ainda dialogasse com ele. Em 2019, Juliano Holanda me mandou música e letra no WhatsApp. “Você gosta disso?” Imagina se não! Foi um presente! Para mim, o trânsito dentro da Mostra Reverbo (edital dedicado a composições inéditas da cena pernambucana) é isso, um solo fértil para criação e troca. Temos acesso a música nova o tempo todo. Para a gente se cantar, mas também para ter referências intensas de leitura e escrita musical. Eu sou uma compositora tímida ainda, mas essa movimentação tem me ajudado a ganhar segurança na minha escrevivência, como diz Conceição Evaristo.

3 – De que maneira essa nova geração de compositores como Juliano Holanda, Isabela Moraes e Almério aquece a cena cultural pernambucana e como as suas raízes de Caruaru se fazem presente em sua arte?
Minha relação com Isabela e Almério é muito próxima, porque somos todos de Caruaru. Almério é de Altinho, mas ganhou pulsão artística em Caruaru. Eu e ele começamos no mesmo ano, entre 2005 e 2006, em um espetáculo de teatro. No bar, também somos contemporâneos, e foi ele quem começou a levar música autoral para os bares de Caruaru. Era lindo ver as pessoas se apaixonando pelas canções e aprendendo a cantá-las. Me mostrou que era possível encontrar um lugar para a autoralidade naquele espaço. Ele é, sem dúvidas, um abre-caminhos. Isabela para mim é um dos maiores baluartes vivos da composição, compõe como quem respira. Estar ao lado deles, de Rogéria Dera, da Reverbo, é uma realização, no sentido de validar as boas escolhas tomadas na minha trajetória. Territorialidade, para mim, é algo muito forte. É entender que eu vim de um lugar e ele está diretamente ligado à minha história. Reconhecê-lo é uma forma de agradecer as suas influências em mim. Eu sou uma mulher do Agreste, de Caruaru. E amo muito tudo isso.

4 – O que significou para você filmar o videoclipe de “Revolução” na cidade de Garanhuns, onde nasceu Dominguinhos, e por que essa cidade foi a escolhida?
Tenho uma relação íntima com Garanhuns. Quem é pernambucano, tem algum tipo de relação afetiva com o FIG (Festival de Inverno de Garanhuns), e todas as coisas bonitas que pudemos acessar por conta desse festival. Cheguei a participar de algumas edições. Depois, Garanhuns ficou ainda mais perto porque, após alguns anos sem cantar, fiz uma proposta para Alexandre Revoredo, cantor e compositor de lá, para dirigir meu show. Ele comprou a ideia, e através dele conheci Stephany Metódio, que é atriz, poeta e hoje minha produtora. É uma cidade que verdadeiramente me acessa, e que me permite acessá-la também. É significativo por ser afetivo, por isso foi muito natural que o clipe tenha sido gravado lá. É uma maneira de retribuir o carinho que recebo, colocar o rosto das pessoas que estão lá, que moram lá, para que o mundo saiba exatamente de onde eu venho, com quem venho e que me impulsiona para além.

5 – O que você pode nos dizer sobre o EP que vem pela frente e como as temáticas feminista e de negritude se fazem sentir em seu trabalho?
Essas pautas já estão presentes no meu trabalho e com certeza virão no EP. Será um registro do que já vem circulando há alguns anos: negritude, gênero, feminismo. São discursos importantes desde sempre, porque pautam sujeitos e sujeitas que são invisíveis no processo de sociedade, que são achatados pela estrutura. Nesse sentido, minha música se engaja em trazer essas pessoas para a superfície, em propor que esses temas sejam debatidos, conversados. Faz parte desse movimento coletivo de artistas, movimentos sociais, grupos organizados comprometidos em pautar suas existências como uma forma de confrontar a estrutura e acessar direitos efetivos.

6 – O que significou para você participar da gravação da música “Disk Denúncia”, de Nina Oliveira, Gabrielle Rainer e Gabriela Nunes, que aborda a questão da violência contra a mulher?
Gravar “Disk Denúncia” foi incrível. Conheci Nina através de Rodolfo Rodrigues, do Elefante Sessions. Ela falou que ainda não tinha gravado aquela música, que queria gravar com uma mulher, e me deu a oportunidade de participar. Foi muito importante para algumas pessoas conhecerem a militante que eu já era na época, me levou a lugares que até então eu não havia acessado. Abriu debates nos movimentos sociais, em escolas, universidades. Agradeço a generosidade de Nina em ter feito essa partilha comigo.

7 – Qual a sua opinião sobre o momento político que o país atravessa e como tem sido para você lidar com essa pandemia?
É um momento triste, mas não começou agora. Eu estou organizada na “Marcha Mundial das Mulheres” desde 2016, quando a iminência de perda de direitos já se mostrava tão ameaçadora. Seguimos perdendo direitos a passos muito largos, voltamos para o mapa da fome, temos morrido aos montes, cotidianamente, e isso tem sido ignorado. É algo que nos atravessa enquanto sociedade. Há gente que lucra com isso, inclusive. Sigo acreditando que a auto-organização é um caminho para enfrentar tudo isso. Acredito também nas brechas de respiro, em dar um jeito de continuar sorrindo e vivendo. A maior revolução é o bem viver, embora a estrutura nos empurre a uma situação de muita fragilidade, eu creio nas nossas microrrevoluções, as mais individuais, mais íntimas, como ferramenta para revoluções maiores. Em algum momento, todas juntas vamos rachar a bolha dessas pessoas que estão tão interessadas no nosso enfraquecimento e na nossa morte. É importante continuar esperançando e procurando as brechas.

8 – Quando foi que você decidiu assumir o nome artístico de Gabi da Pele Preta e que caminhos te levaram até esse batismo?
Eu já havia assinado de várias formas, usando os nomes que estão na minha certidão de nascimento, mas eu sempre trocava. Já tinha desde cedo uma inquietação por me reconhecer nesse mundo e ter orgulho disso. Então, que marca levar? Até que um dia, minha amiga e atriz caruaruense, Isadora Lima, me abraçou e disse: “Eu gosto tanto desse povo da pele preta”. No outro dia, coloquei no Facebook: Gabi da Pele Preta. Quando eu pensei em voltar ao nome anterior, muita gente sinalizou que eu tinha encontrado um nome poderoso. Hoje eu entendo, verdadeiramente, o que ele representa, porque, durante muito tempo eu tive questões com a minha negritude. Só depois dos 20, através do teatro, inclusive, compreendi a majestade que há na cor dessa pele, na contribuição dos meus ancestrais para a humanidade, da cultura à ciência, e também para a construção do Brasil. É um nome que tem vida própria, que chega na frente pra dizer: a cor que era a cor da vergonha, hoje é a cor do orgulho. É para inspirar mesmo. E quanto mais o tempo passa, mais ele faz sentido, mais ele me adoça. Eu o defendo e ele me defende.

9 – De que maneira a música e o teatro se conjugam na sua obra? Como uma influencia a outra?
Fazer teatro foi importante para que eu pudesse me sentir à vontade como me sinto hoje em cima dos palcos. Porque cantar é interpretar. O teatro me ensinou noções cênicas, a pensar o show como uma história que se conta. Me ensinou a transitar e andar coletivamente, ter o exercício da escuta. É um conselho que sempre dou a quem está começando: faça teatro, pois é uma escola que ensina muito. Olho para o teatro e só vejo ganhos, de verdade, tanto que nunca me afastei totalmente. Só não faço teatro com mais frequência porque a música me toma muito tempo, e eu adoro, então está tudo certo.

10 – Qual a sua mais antiga lembrança musical e quem são as suas principais referências?
Na igreja, com amigos e primos, cantando para nossas famílias de sangue e de fé. Uma lembrança linda! Eu sempre gostei de cantar, painho e mainha também cantavam na igreja, era um lugar de muito estímulo à música, e a Igreja Batista tem uma tradição musical muito forte. Depois, fui acessando os discos que meu pai ouvia, sobretudo para preparar as suas aulas. Foi uma forma de ver a música como ferramenta de formação, para além do entretenimento. Tinha música gospel e MPB. Ouvia Toquinho, Caetano, Gil, Zé Ramalho. Não lembro de discos de cantoras, mas tinha um disco de Gal. Lembro que ele gostava de Elba também. Depois, fui construindo minhas próprias referências, que acabaram me voltando às mulheres, sobretudo as pretas, como Elza Soares, por exemplo, que, para mim, é alguém a não se perder de vista. Mas como falar de mulheres e não falar de Elis Regina, por exemplo? Não tem como.

Foto: Rafaela Amorim/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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