O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

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O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

Músculos fortes alternam colheradas de açaí, cereais matinais e doses de vitamina de banana. O rapagão como um touro no qual se monta e pode cair a qualquer momento ameaça. Afasta aos outros para o lado como o lixeiro que coloca as folhas secas misturadas ao pó num canto. É viril o modo como se aproxima da carcaça. No peito e na fibra imprensa contra a parede a todos. A pergunta cortante qual o gilete da barba mal feita, os desníveis confusos no rosto soldado e no queixo com furo de Leonardo. “Sobre o que querem saber?”. E ninguém estava preparado para o momento em que se é preciso “querer saber de alguma coisa”. O astro com pose de rei e papo de pato postula uma posição mais digna para si.

O cheiro de talco emana do abdômen de escudo. Uma primavera tão imponente que se esquece na multidão invicta ali estarem flores agrupadas apenas devido à fragilidade. Ao beliscar a última rosca despista o doce com uma camada de manteiga por sobre o creme de açúcar e coco, e enerva por fim a suprema gula. A armadura carmim lhe envolve, firme como carapaça, não apenas para reiterar a força de sua defesa, mas sendo um mamífero no fio em que se protege: ataca. Leonardo parece bruto, mas manda saudades e um ramo de cravos para a cerimônia. Querem a morte cigana: Ágata.

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Raphael Vidigal

Pinturas: Obras de Salvador Dalí.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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