Lula, Dilma, Bolsonaro, Moro e Doria viram marchinhas do nosso Carnaval

*por Raphael Vidigal

“numa linguagem em que nada se fala mas tudo é advertido” Jean Genet

Manifestação popular, o Carnaval também agregou, desde o início dos tempos, uma conotação política, ao aproveitar a sua folia musical para atacar os poderosos que maltratavam o povo durante o resto do ano. Os quatro dias de respiro também eram a liberação para sátiras de todos os tipos. Nos últimos anos, as figuras mais proeminentes da política nacional continuaram recebendo essas homenagens, ora mais ou menos irreverentes. Os ex-presidentes Lula e Dilma, e os atuais candidatos Bolsonaro, Moro, Doria e Dallagnol são cantados em verso e prosa pela Orquestra Royal, Família Passos e anônimos do Brasil.

“Pé na Jaca” (marchinha, 2020) – Bento Aroeira e Rubinho do Agogô
Durante a campanha eleitoral de 2018, o senador Cid Gomes, irmão de Ciro Gomes, presidenciável pelo PDT, se estranhou com apoiadores petistas e disparou: “O Lula tá preso, babaca!”. Da prisão, Lula reagiu com bom humor em uma entrevista, ao dizer: “Eu sei que estou preso, só não precisava chamar os outros de babaca”, e riu. Com a libertação do ex-presidente, o bordão se inverteu.

Para completar, o documentário de Petra Costa sobre o impeachment de Dilma, “Democracia em Vertigem”, foi indicado ao Oscar. Os compositores Bento Aroeira e Rubinho do Agogô criaram a marchinha “Pé na Jaca”, inspirados por toda essa trama. A interpretação é de Julie Amaral. A marchinha venceu o primeiro Concurso Satírico de Marchinhas de Ouro Preto, premiando-a em 2020.

“Eu Quero Intervenção Militar” (marchinha, 2019) – Família Passos
Passava das 11h da noite quando Isis telefonou para a mãe, Marília, com uma ideia que mudaria o destino de toda a família. Mas elas ainda não tinham consciência disso. No dia seguinte, as duas se encontraram pessoalmente, e, em cerca de meia hora, estava pronta “A Culpa É do PT”.

Era janeiro de 2019, próximo do Carnaval, e, “para brincar e ver a reação dos amigos”, Isis postou a marchinha em seu perfil no Facebook. Logo em seguida, uma de suas amigas a enviou para um grupo formado só por mulheres no WhatsApp, intitulado “Ele Não”.

A canção, recheada de ironias com frases que marcaram a última eleição presidencial, como “nossa bandeira jamais será vermelha” e “essa mamata vai acabar”, já tinha se tornado viral quando o youtuber Felipe Neto a compartilhou no Twitter. Era o estouro definitivo. “A Culpa É do PT” foi indicada e venceu o Concurso de Marchinhas da rádio CBN. Em 2019, a também irônica “Eu Quero Intervenção Militar” foi lançada pela família.

“Dallagnol e Moro” (marchinha, 2019) – Orquestra Royal
Sempre atenta aos acontecimentos mais quentes da política brasileira, a Orquestra Royal não deixou passar a oportunidade de criar mais uma pérola, dessa vez em cima da polêmica dos vazamentos envolvendo o ex-juiz e atual Ministro da Justiça Sergio Moro e o procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol.

Na canção, Moro e Deltan são comparados a diversas outras duplas ou uniões, no mínimo, peculiares. A composição ainda aproveita para tirar um sarro com a versão “Juntos e Shallow Now” de Paula Fernandes e Luan Santana. A música bombou tanto que foi compartilhada nas redes sociais pela deputada Jandira Feghali (PC do B), o jornalista Paulo Henrique Amorim e a cantora Fernanda Takai, entre outros.

O sucesso levou a Orquestra Royal a lançar um concurso em seu Instagram, incentivando os fãs a proporem novas rimas para a sátira.

“Pinto por Cima” (marchinha, 2017) – Vitor Velloso, Gustavo Maguá e Marcelinho Guerra
“Seja com broxa, com pincel ou com pistola, o prefeito de São Paulo João Dorian Grey não vai deixar amolecer. O assunto da semana foi nosso mestre das fantasias levando suas pintadas pela cidade. Damos o maior apoio e não tem como não deixar de homenageá-lo. A nossa segunda marchinha do ano: Pinto por cima!”, anuncia a Orquestra Royal na descrição da marchinha “Pinto por Cima”, de Vitor Velloso, Gustavo Maguá e Marcelinho Guerra.

A música foi lançada em 2017, e fez referência ao famigerado procedimento do então prefeito da capital e atual pré-candidato à presidência da República pelo PSDB, o governador de São Paulo, João Doria, de vandalizar obras de arte e grafites espalhados pela cidade. Isso depois de começar o mandato oferecendo uma espécie de ração científica para matar a fome dos mendigos. Claro que o “homem de plástico” não escapou ao pincel da Orquestra Royal.

“Cuidado Com o Pescoço” (marchinha, 2017) – Raphael Vidigal, André Figueiredo e Ronaldo Ferreira
Composta em 2017 a marchinha “Cuidado com o pescoço” mistura duas das receitas mais tradicionais na música brasileira para chegar à sua fórmula festiva. Começando pelo recorte histórico tece ilações entre figuras que foram acusadas de traição com o homenageado que inspira o título.

Recurso bastante utilizado nos sambas-enredos. Por outro lado, remete à antiga mania de escárnio presente desde os tempos do poeta satírico Gregório de Matos, conhecido como “Boca do Inferno” e representado em filme pelo também poeta Wally Salomão.

A homenagem às “grandes figuras” políticas vem desde o tempo em que Getúlio Vargas ficava irritado ao ser chamado de velho na marcha que trazia o refrão “bota o retrato do velho outra vez/ bota no mesmo lugar, o retrato do velhinho faz a gente trabalhar…”. Ora só, o aviso está dado!

Foto: Mídia Ninja/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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