Elza Soares foi a primeira mulher a puxar um samba-enredo na avenida

*por Raphael Vidigal

“Nenhum vidro mais claro que os globos deste fogo
qual mar mais claro que o corpo da romã
sustendo a flama?” Ezra Pound

Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, carrega na cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida.

Ela apenas destila o que chama de corpo, é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene. “Se não fosse cantora, seria prostituta”, declarou Elza Soares, que, em 2020, aos 90 anos, foi tema da Mocidade Independente, anos depois de se consagrar como a primeira mulher a puxar um samba na avenida.

“Quero Morrer no Carnaval” (samba, 1961) – Luiz Antônio e Eurico Campos
O samba “Quero Morrer no Carnaval”, de Luiz Antônio e Eurico Campos, fez tanto sucesso que foi lançado, em 1961, em quatro versões, sendo a mais marcante a de Linda Batista, cantora condecorada com o título de Rainha do Rádio.

Naquele mesmo ano, os Vocalistas Modernos, Gaúcho e Severino Araújo também registraram a canção, que assimila uma posição dionisíaca, de aproveitar a vida ao máximo enquanto ela durar, sobretudo na festa mais esperada do mundo, o Carnaval.

Identificada com esse espírito, Elza Soares regravou a música em 1969, no LP “Elza Carnaval & Samba”, renovando seu sucesso com a devida pompa e circunstância.

“O Mundo Encantado de Monteiro Lobato” (samba-enredo, 1967) – Batista da Mangueira, Darcy da Mangueira, Luiz, Dico, Jurandir e Hélio Turco
Em 1967, a pioneira Elza Soares tornou-se a primeira mulher a puxar um samba-enredo na avenida, com “O Mundo Encantado de Monteiro Lobato”, de autoria de Batista e Darcy da Mangueira, Hélio Turco, Jurandir, Luiz e Dico.

A relutância em ser precoce não infringiu à Elza a fuga de seu destino. Tudo lhe veio cedo, lhe foi cedo, muito permaneceu. Por exemplo, o canto, a vontade, a luta cotidiana contra o infortúnio, a certeza da alegria. Como diz o bloco criado por ela própria, “Deu a Elza” na avenida!

“Sei Lá Mangueira” (samba, 1968) – Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho
Até hoje há fanáticos que não perdoam o fato de Paulinho da Viola, portelense de coração, ter criado a melodia para uma das canções mais emblemáticas em saudação à Mangueira, muito embora ele tenha feito, em seguida, “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida” para a Portela.

Hermínio Bello de Carvalho escreveu a letra de “Sei Lá Mangueira” logo após a sua primeira visita ao morro, inebriado com o que havia visto na companhia de Cartola e Carlos Cachaça. Lançada por Elizeth Cardoso em 1968, a música foi inscrita no IV Festival de Música Brasileira da Record, quando foi defendida por Elza Soares.

“Eu Bebo Sim” (samba de carnaval, 1973) – Luiz Antônio e João do Violão
A maior inflexão na trajetória de Elizeth Cardoso ocorreria em 1973, com a marchinha “Eu Bebo Sim”, de João do Violão e Luiz Antônio (1921-1996), assumida ode ao hedonismo etílico, com conclusões pra lá de divertidas que seguem embriagando foliões: “Eu bebo sim/ E tô vivendo/ Tem gente que não bebe/ E tá morrendo”. Até hoje, a música é a mais tocada do repertório de Elizeth. Em 2002, Elza Soares regravou a música acompanhada pelo Monobloco, em um conjunto que ainda apresentou “Salve a Mocidade” e “Oba”.

“Salve a Mocidade” (samba de carnaval, 1975) – Luiz Reis
Elza Soares sempre puxou pela força do canto as barreiras que tentaram derrubá-la. Cantou o samba de carnaval de Luiz Reis, escrito em 1975, exaltando a escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas também o que existe de “mais quente”, o povo e sua festa, sendo ela mesma, o carnaval na essência, superando toda quarta-feira que foi cinza em sua vida. Ansiando a folia.

Foto: Patrícia Lino/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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