José Trajano: ‘Entrevista com Lula na prisão foi triste e histórica’

“Chora, meu filho, chora.
Ai, quem não chora não mama,
Quem não mama fica fraco,
Fica sem força pra vida,
A vida é luta renhida,
Não é sopa, é um buraco.” Murilo Mendes

José Trajano, 73, entrevistou Lula na prisão, em Curitiba, no dia 12 de junho de 2019. Quando o ex-presidente foi solto, após 580 dias de cárcere, Trajano voltou a entrevistá-lo, mais uma vez ao lado de Juca Kfouri, companheiro de ofício e batalhas de longa data. Em momentos distintos, os dois, que dividiram a bancada do programa “Linha de Passe”, foram demitidos da ESPN Brasil, emissora fundada por Trajano em 1995. “A entrevista com o Lula na prisão foi tensa, é triste a hora que ele se despede e vai embora. Ao mesmo tempo, é um momento histórico, importante. Encontrar o Lula ali foi uma experiência pesada, não por ele, que estava tranquilo, mas pela situação inusitada”, recorda Trajano. “Depois, fora da prisão, foi tudo mais leve, era uma alegria estar com ele finalmente livre”, compara.

Desde que deixou a ESPN, em 2016, o jornalista carioca, criado no bairro da Tijuca, passou a se dedicar a seu canal online, batizado de Ultrajano, com vídeos no YouTube e postagens diárias, cujo emblema é “Jornalismo na alma, livre e independente”. Paralelamente, ele apresenta, desde 2017, o “Papo Com Zé Trajano” na TVT, emissora do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sediada em São Bernardo do Campo, berço político de Lula. Por lá, Trajano analisa os temas de sua predileção: futebol, cultura e política, sempre com um olhar atento para o contemporâneo. Logicamente, a pandemia do novo coronavírus e seus efeitos devastadores têm dominado a atenção do comentarista.

“Vejo esse momento com imensa tristeza. Estamos vivendo uma coisa completamente absurda, com um tresloucado na presidência, sem a menor condição de comandar o país. É um sujeito cheio de ódio, ignorante, abjeto, que só parte para o confronto e vê um inimigo em cada esquina. Ter um governo desses no meio de uma pandemia é desesperador”, destaca, direcionando as críticas para Jair Bolsonaro. Na última semana, o presidente da República demitiu o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e, ao que tudo, indica, terá que lidar com uma possível saída do ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, caso Bolsonaro insista em trocar o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo.

“Já era tido e sabido que a saída do Mandetta era questão de dias e horas, só não sabíamos quando isso aconteceria, mas o desfecho era previsível. O Mandetta ficou mais poderoso em termos de ibope e o outro (Bolsonaro), enciumado, querendo contrariar as recomendações do Ministério da Saúde e atentando contra a saúde pública a torto e direito”, dispara Trajano, que não se arrisca a apostar o que mais vem por aí. “Daqui para frente, não tem cenário nenhum, não sabemos nem se haverá eleição municipal esse ano”, sustenta.

Militância. Esquerdista declarado, Trajano apoiou a reeleição de Dilma Rousseff, do PT, em 2014, denunciou o golpe parlamentar que culminou com o impeachment da ex-presidenta, fez campanha para Lula e Fernando Haddad em 2018 e votou em Marcelo Freixo quando o candidato do PSOL concorreu à prefeitura do Rio contra Marcelo Crivella, em 2016. Apesar disso, ele não doura a pílula ao falar sobre Ciro Gomes, ex-ministro de Lula, que disputou as últimas eleições presidenciais pelo PDT.

“Existe o esforço de alguns para unir a esquerda e o esforço de outros para não unir, como é o caso do Ciro Gomes. Ele não se conforma com o fato de não ter ido para o segundo turno contra o (Jair) Bolsonaro, acha que viraria presidente. Mas o Ciro é um eterno perdedor, ele perdeu quatro vezes e vai perder de novo”, garante. “Se o Ciro não tivesse ido para Paris e apoiado o Haddad, não sei nem se o resultado seria diferente, porque a força da raiva contra o PT era muito grande, mas, talvez, desse ao Bolsonaro uma vitória mais apertada. O Ciro é rancoroso, ele não perdoa o PT que, com todos os erros, é o nosso maior partido de esquerda. É impossível alguém da esquerda se candidatar a um cargo dessa magnitude e ter chances de ganhar sem o apoio do PT”, completa Trajano.

Futebol. Entre 1993 e 2000, Trajano foi o primeiro apresentador do “Cartão Verde”, um dos programas esportivos mais tradicionais da TV brasileira. O que será do esporte mais popular do país após a pandemia é outra incógnita para o comentarista. “Não consigo nem imaginar. Talvez, por muito tempo, a gente tenha que assistir a jogos com portões fechados. Muitos clubes menores irão falir”, lamenta ele, que pensa em seu time de coração, o América do Rio, que, sem nenhum acaso, inspirou um de seus livros, “Tijucamérica: Uma Chanchada Fantasmagórica” (2015). “Não sei se o América terá condições de sobreviver. O nível salarial de todas as equipes tende a abaixar, existe a possibilidade de termos campeonatos estaduais mais curtos. Viveremos uma nova era, em todos os sentidos e, com o futebol, não vai ser diferente. Espero que a gente saia disso tudo como uma nação melhor, mas não tenho confiança”, pontua.

O último escrete que encheu os olhos do entrevistado foi o Flamengo que, comandado pelo português Jorge Jesus faturou, em 2019, a Taça Libertadores e o Campeonato Brasileiro, além do Campeonato Carioca, quando o técnico ainda era Abel Braga, que, no mesmo ano, acabou participando do inédito rebaixamento do Cruzeiro para a segunda divisão. As duas equipes entram na pauta de Trajano quando o assunto é a conquista de tríplices coroas, feito que o Cruzeiro de Alex e Vanderlei Luxemburgo atingiu em 2003, ao empilhar as taças do Brasileiro, da Copa do Brasil e do Mineiro. “Não gosto de comparar épocas porque os estilos de jogo são diferentes. O Flamengo foi brilhante. Mas os adversários, vou te contar…”, pondera, ao constatar a fragilidade dos demais concorrentes nos certames. “Tivemos grandes times na história, como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha e o próprio Cruzeiro do Tostão”, exalta.

O Cruzeiro inesquecível de Trajano é, justamente, o que derrotou o Santos de Pelé na disputa pela Taça Brasil de 1966, com um inacreditável triunfo por 6 a 2 no Mineirão, assistido por mais de 77 mil sortudos. Ele escala, de cor, aquela equipe, formada por Raul, Pedro Paulo, Willian, Procópio e Neco; Piazza, Zé Carlos, Natal, Dirceu Lopes, Tostão e Evaldo, e que ainda contava no banco de reservas com o zagueiro Fontana e o ponta-esquerda Hilton Oliveira, acionados com frequência. As lembranças contrastam com a realidade atual do esquadrão celeste. “É uma tristeza enorme ver um clube com a história gloriosa do Cruzeiro indo para o buraco que uma diretoria corrupta ajudou a cavar. Infelizmente, deu tudo errado para o Cruzeiro, e o drama tende a piorar com essa pandemia”, alerta.

Cultura. Logo após deixar a ESPN, em 2016, Trajano foi contratado pelo Canal Brasil, onde comandou o “Bonde do Zé” e recebeu, ao todo, 13 convidados, dentre eles Zico, Hamilton de Holanda, Xico Sá, Jean Wyllys e Luiz Antonio Simas, especialista em samba e coautor de “Dicionário de História Social do Samba”, com Nei Lopes, laureado com o prêmio Jabuti em 2015. No campo das artes, porém, o período recente tem sido de perdas para o país. Algumas, inclusive, atingiram Trajano do ponto de vista afetivo e pessoal. Um dos compositores de “A Menina dos Olhos de Oyá”, samba-enredo em homenagem a Maria Bethânia que saiu vencedor no Carnaval de 2016, Tantinho da Mangueira morreu no domingo de Páscoa, aos 73 anos, vítima de complicações cardíacas decorrentes da diabetes. Um dia depois, o eterno “novo baiano” Moraes Moreira sofreu um infarto fulminante, aos 72 anos.

“Tantinho era uma figura querida, doce. Ele entrou para a ala dos compositores da Mangueira aos 13 anos e era um protegido do Cartola. Cantava muito bem, dedicou um bonito disco para o (compositor) Padeirinho (em 2009). É uma perda grande”, observa Trajano. “Moraes foi um excelente músico. Ele uniu a música brasileira com samba e rock nos anos 70, com uma pegada muito boa. Soube entender o Carnaval como uma festa popular e criou músicas eternas. Não existe mais Carnaval sem Moraes Moreira”, enaltece o jornalista.

Mineiro de Juiz de Fora, o escritor Rubem Fonseca morreu no dia 15 de abril, aos 94 anos. Em 2003, ele recebeu o Prêmio Camões, a mais prestigiada honraria literária da língua portuguesa, pelo conjunto da obra, que contém títulos como “Lúcia McCartney” (1969), “Feliz Ano Novo” (1975) e “Bufo & Spallanzani” (1986), adaptado para o cinema em 2001. Aos 86 anos, o escritor carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza morreu no dia 16 de abril. Sua obra também foi levada para a tela grande, com “Achados e Perdidos” (1998) e “O Silêncio da Chuva” (1996), seu primeiro romance.

“Rubem Fonseca foi um dos maiores escritores da língua portuguesa. Ele criou grandes personagens, tratava o dia a dia do brasileiro e influenciou muita gente, seus livros eram uma delícia. O Garcia-Roza já estava muito doente. Os dois foram nomes importantes da literatura policial e tiveram seguidores, como o Tony Bellotto e a Patrícia Melo, que não têm o tamanho nem estão à altura desses dois, mas também escrevem uma boa literatura policial”, salienta Trajano.

Amigo “há 50 anos” de Aldir Blanc, ele se mostra preocupado com o estado de saúde do compositor, internado numa UTI (Unidade de Terapia Intensiva) há quinze dias por ter contraído o novo coronavírus. “Aldir é tijucano como eu, embora não tenhamos nascidos lá, nós dois fomos criados no bairro. Ele é um dos maiores letristas da música popular brasileira, um verdadeiro ourives do palavreado. Lamento que ele esteja assim. O Aldir já não vem bem de saúde há algum tempo, por conta da diabetes. Tomara que ele saia dessa”, torce.

Parceiro de João Bosco, Guinga, Cristóvão Bastos e Moacyr Luz em músicas que pertencem ao panteão da produção nacional, Aldir é dono de “várias composições favoritas” de Trajano, que cita “Saudades da Guanabara”, “Me Dá a Penúltima”, “Incompatibilidade de Gênios”, “O Bêbado e a Equilibrista” e “Resposta ao Tempo”. Diante de tudo isso, o silêncio da Secretária da Cultura, Regina Duarte, não passa batido pelo jornalista, reconhecido pelo espírito combativo.

“Regina Duarte é uma pessoa do mal, covarde, que não vale o que come. Se ela tivesse o mínimo de decência e dignidade teria se manifestado sobre a morte desses artistas tão importantes para o Brasil e prestado solidariedade à situação crítica do Aldir. Ao invés disso, quando caluniaram a dona Marisa Letícia ela rapidamente se arvorou em divulgar. Regina jogou sua biografia no lixo”, critica. Ele se refere à informação equivocada, compartilhada nas redes sociais e republicada por Regina, acerca do patrimônio da ex-primeira dama Marisa Letícia, que foi casada com Lula e morreu em 2017, depois de sofrer um acidente vascular cerebral. O valor divulgado seria dez vezes maior que o real, como mostraram comprovantes apresentados à Justiça pelos advogados de Lula.

Jornalismo. Em tempos de fake news (notícias falsas) e transição digital, a posição de Trajano a respeito da profissão que ele começou a exercer em 1963, no Jornal do Brasil, não é nada alvissareira. “O jornalismo está se reinventando. No meu tempo, havia 12 jornais diários, só no Rio de Janeiro. Eu trabalhei no grande Jornal do Brasil. Hoje em dia, são dois ou três. As redações diminuíram, mandam cada vez mais gente embora. Estão todos partindo para o digital. É muito complicado para um mercado de trabalho que ficou pequeno. Os impressos praticamente acabaram, as rádios estão numa ‘merda de dar gosto’, os velhos jornalistas são tratados como leprosos. É uma profissão, não digo em extinção, mas que está numa situação preocupante, no Brasil e no mundo”, diz.

Antes da pandemia do novo coronavírus chegar ao Brasil, Trajano estava pronto para lançar “Aqueles Olhos Verdes”, seu quinto romance, agora previsto para o segundo semestre. A estreia no mercado editorial aconteceu com “Procurando Mônica” (2014), e sua incursão mais recente foi com “Os Beneditinos” (2018). O próximo livro se passa entre 1938 e 1962 e fala de “futebol, política, Estado Novo, a Era de Ouro do rádio, o início da TV no Brasil, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Leonel Brizola, as Copas do Mundo de 1954, 1958 e 1962, Pelé, Puskas, Garrincha”, enumera o autor, entregando algumas pistas da miscelânea. O título da publicação é uma referência à personagem inspirada no avô de Trajano, José Reis, “mineiro de Matias Barbosa que tinha olhos verdes”, conta. Um selo da Companhia das Letras vai colocar o livro na praça.

Ídolo de toda uma geração, que cresceu vendo e ouvindo as opiniões contundentes e o temperamento inconformado de Trajano na televisão, o que lhe rendeu a fama de mau humorado, ele aproveita a deixa para revelar de quem é fã. “Na política: Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, como fazem falta. Música é comigo mesmo, sou eclético: gosto de jazz, Clube da Esquina, Novos Baianos, Caetano Veloso, Chico Buarque, Elis Regina, Gilberto Gil, Pixinguinha, Jorge Ben Jor, Mônica Salmaso, Guinga, Miles Davis, John Coltrane, Bill Evans, Wayne Shorter. Futebol eu sou mais saudosista, prefiro os ídolos do passado: Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Di Stéfano, Puskas, Romário, Zidane”, encerra.

Raphael Vidigal

Fotos: Pablo Saborido/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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