Herói de cinema a Rei do Ritmo: as canções de Jackson do Pandeiro

“mas eu antecipo.
Não há substituto para uma vida inteira. (…)
dez mil anos de ritmo-do-coração-pensar-dizer,” Ezra Pound

jackson-do-pandeiro

Quando nasceu aquele José na Paraíba, os traços nordestinos já prenunciavam que ele seria miudinho, de cabeça chata e pele morena, mas não prenunciavam que aquele José Gomes Filho se transformaria no “Rei do Ritmo”. Um pouquinho que ele cresceu, a cabeça achatou e a pele escureceu devido ao sol que lhe queimava todos os dias, e já começaram a chamá-lo de Jack, herói do cinema mudo americano que desembarcava no faroeste da Paraíba. A mãe não gostou nada daquela história, e enquanto cantava uns cocos aproveitava também para lhe bater e lhe passar o sermão: “Mas é danado mesmo, batizar um filho com nome de José e ver trocarem o nome assim pra Jack.” Mas não adiantou, foi só ele começar a se vestir com chapéu coco na cabeça achatada, inventar um caprichado bigodinho fino e segurar com mãos maliciosas o pandeiro, que lhe batizaram pela terceira e definitiva vez: Jackson do Pandeiro, rei de Alagoa Grande, rei da Paraíba, rei do ritmo do Brasil.

“Vixe como tem Zé
Zé de baixo, Zé de riba
Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraíba”

Ainda quando era chamado de Jack do Pandeiro, aquele paraibano miudinho do interior do estado rumou em direção à capital João Pessoa para formar com Rosil Cavalcanti a dupla “Café com Leite”, onde ele tocava violão e Rosil tocava pandeiro. Depois de um ano, Rosil foi para Recife e mais tarde para Campina Grande, onde tornou-se famoso radialista e comandou o programa “Forró do Zé Lagoa”. Jack também foi para Recife, e lá começou a trabalhar na Rádio Jornal do Comércio e a ser chamado pela primeira vez de Jackson do Pandeiro. Seria com este nome que ele cantaria os grandes sucessos da sua carreira, como “Sebastiana”, “Chiclete com banana”, “O canto da ema”, “Forró em limoeiro”, entre tantos outros, chegando a vender mais de 50 mil cópias em seu primeiro disco, gravado quando ele já tinha 35 anos de idade. Seria também com este nome que ele conheceria Almira Castilho, com quem trocou alianças, declarações de amor, muita música e umbigadas em cima do palco.

“Que diferença da mulher o home tem?
Espera aí que eu vou dizer, meu bem
É que o home tem cabelo no peito
Tem o queixo cabeludo e a mulher não tem”

Inventivo e criando jeitos ágeis e novos de cantar as músicas, dividindo as palavras como só ele sabia, Jackson logo virou sinônimo de sucesso no país inteiro. Sua voz enjoada, seu pandeiro atrevido e sua malemolência empregada na forma de cantar todos os ritmos tornaram-se marca registrada e serviram de influência para cantores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Elba Ramalho e muitos outros que gravaram seus sucessos e lhe prestaram homenagens. Como ele dizia: “E sempre cantando. Cantando samba, cantando marcha de arrasta-pé, cantando coco, essa coisa toda.” Jackson do Pandeiro é essa coisa toda, esse Brasil inteiro, esse pandeiro que escorrega na mão, mas não perde a majestade.

“Eu só boto be-bop no meu samba
Quando o Tio Sam tocar um tamborim
Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba
Quando ele aprender que o samba não é rumba
Aí eu vou misturar Miami com Copacabana
Chiclete eu misturo com banana
E o meu samba vai ficar assim”

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Raphael Vidigal

Lido na rádio Itatiaia por Acir Antão em 04/09/2011.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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