Flávio Migliaccio foi do Cinema Novo aos Trapalhões como ator, roteirista e diretor

“O ator comove o público porque, em primeiro lugar, comove a si mesmo.” Quintiliano

Flávio Migliaccio morreu. Adeus, Seu Chalita. Adeus, Maneco, super tio. Adeus, Xerife. Adeus, Seu Moreiras. Tantas personagens incríveis de uma carreira de 60 anos vividos no teatro, no cinema e na televisão. E não só como ator. Migliaccio também foi diretor e roteirista.

Paulistano do Brás, Flávio começou sua carreira nos anos 50 fazendo espetáculos na periferia de São Paulo. Depois de um curso com o diretor italiano Ruggero Jacobbi, estreou profissionalmente no prestigiado Teatro de Arena onde participou de peças de dramaturgos do calibre de Oduvaldo Viana Filho, Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri, dentre elas a icônica “Eles Não Usam Black-Tie”. No cinema, marcou presença em filmes do Cinema Novo. Esteve em “O Grande Momento” e “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, ambos de Roberto Santos, “Cinco Vezes Favela” (vários diretores) e “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Mas também fez cinema comercial, como “O Donzelo”, de 1970, que teve uma das maiores bilheterias daquele ano, ou no longa “Roberto Carlos a 300 Km por Hora”. Trabalhou com o quarteto formado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em “Os Trapalhões na Terra dos Monstros”, que também dirigiu. E, claro, na série de filmes que realizou com seu inesquecível personagem Maneco.

Na TV, ficou imortalizado ao lado de Paulo José na série “Shazan, Xerife e Cia”, programa da TV Globo que fez a alegria de muita gente lá nos idos dos anos 70. Foi também roteirista do humorístico “Estados Anysios de Chico City”, no começo dos anos 90. As gerações mais recentes devem se lembrar do carismático Seu Chalita do seriado “Tapas e Beijos”, que esteve no ar entre 2011 e 2015, ou do Dr. Josias da Conceição de “Êta Mundo Bão”, novela de 2018 que está sendo reprisada atualmente em “Vale a Pena Ver de Novo”.

Ao longo de uma carreira profícua, Flávio Migliaccio exibiu seu talento tanto em “Malhação: Vidas Brasileiras” quanto no “Sítio do Picapau Amarelo” ou em “Caça Talentos”, sem falar dos humorísticos “Vivo o Gordo” e “Chico Anysio Show”, além de inúmeras novelas e minisséries. Quem não se lembra do Seu Moreiras, personagem que fazia par com a inesquecível Dona Armênia, vivida por Araci Balabanian, em “Rainha da Sucata”, novela cuja estrela maior era a atual secretária de Cultura de Bolsonaro (por falar nisso, Cadê a Regina?). Migliaccio era um artista incansável e trabalhou até bem pouco antes de nos deixar.

Sua morte nos pegou de surpresa. Ainda estávamos processando a perda de Aldir Blanc quando chegou a notícia de que seu corpo havia sido encontrado pelo caseiro do sítio que possuía em Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro. Maior surpresa ainda foi a notícia de que se tratava de um suicídio. Suicídio aos 85 anos. Tal como Pedro Nava nos anos 80. De novo o mesmo assombro frente ao inexplicável. Em sua residência foi encontrada uma carta onde se lê: “Me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos como tudo aqui. A humanidade não deu certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje! Flávio”.

É que Flávio tinha um coração de ouro e seu coração, por mais dourado que fosse, não estava aguentando o beco sem saída em que esse país está se metendo. Muita gente deve estar sentindo essa mesma angústia. Fiquemos atentos.

Alexandre Toledo, ator, roteirista e diretor

Fotos: Rede Globo/Divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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