Fabiana Cozza: “Juristas do mundo todo reconhecem Lula como um preso político”

“Me armo de samba e poesia
E a minha melancolia
Logo se desfaz
Me prendo à toda beleza
E solto amor em meu cantar” Dona Ivone Lara & Delcio Carvalho

Fabiana Cozza, 42, é paulistana, mas suas relações com Minas vêm de longe. Em 2008, ela estreou na sala principal do Palácio das Artes ao lado de Maurício Tizumba e Sérgio Pererê. Posteriormente, participou de DVD e gravou canções dos dois artistas. Já com o sambista Dé Lucas o encontro se deu no Quintal Divina Luz, que ela chama de “quilombo da resistência negra em BH”. Por fim, em 2017, foi a vez de receber o convite para ser preparadora vocal do espetáculo de estreia das Negras Autoras, dirigido por Grace Passô e que levava ao palco Elisa de Sena, Júlia Dias, Manu Ranilla, Nath Rodrigues e Vi Coelho.

1 – Que significado teve para você participar do festival Fênix, que celebra a vida através da cura de um câncer da curadora nesse início de ano de 2019 e tendo ao lado nomes ligados à valorização da cultura negra, como Mauricio Tizumba, Sérgio Pererê e Coletivo Negras Autoras?
Mais do que nunca é hora de estarmos todos de mãos dadas e sermos solidários uns com os outros. A iniciativa que partiu da Cris Gil e acabou unindo tantas pessoas, produtores, artistas, técnicos e etc., é um convite à humanidade de cada um. A Casa Aura auxilia crianças e adolescentes no tratamento de câncer e a verba arrecadada será destinada à entidade. Isso é maravilhoso, é bonito, é agregador, afetivo, engrandece a nossa frágil condição humana. Somos um povo muito complexo, mas sabemos ser solidários e, a cada dia, a despeito do maremoto de rivalidades e polarizações que nos assolaram nos últimos meses, temos que exercer e recuperar esse talento, essa especial capacidade da empatia, de nos solidarizarmos. Não vejo isso acontecer em outros países e, justamente por isso e a despeito desse momento triste, com o avanço das políticas ultraconservadoras de direita e discursos inflamados no ódio e na violência, eu acredito que o Brasil pode se recuperar. Pelo seu povo, pela sua gente.

2 – Como se deu a seleção do repertório para essa apresentação e quais critérios te serviram de guia?
Era um momento de afeto, positividade e união. Pensando nisso, escolhi canções que marcam minhas parcerias com artistas de BH. “Velhos de Coroa”, do Sérgio Pererê, que gravei em 2015; “Agradecer e Abraçar” (Gerônimo e Vevé Calazans) que chamarei o Heleno do (bloco) Havaianas Usadas para participar; “Clássico Ballet” (Dé Lucas e Mellão) e “Se Lamentar”, samba também do Dé, com quem também dividi o palco. Meu encontro com Tizumba e Pererê vem de longe. Em 2008, quando fiz meu primeiro show na sala principal do Palácio das Artes, eles estavam comigo. Depois, participei do cortejo mineiro, do DVD do Tiza, gravei “Velhos de Coroa” do Pererê. Muitos encontros lindos. O Dé Lucas é outro importante compositor da minha geração. Nos conhecemos quando minha amiga e produtora Karú Torres me levou ao Quintal Divina Luz, do Serginho. O Dé e seu grupo estavam tocando só musicaço, repertório que eu conhecia com o meu pai que, inclusive, já levei lá. O Quintal é um quilombo da música boa, do samba, da resistência negra em BH. Depois disso, fui até a casa do Dé, viramos amigos. As meninas do Coletivo de Negras Autoras me chamaram para fazer a preparação vocal delas para o espetáculo de estreia do grupo, com direção da Grace Passô, há dois anos. Passei uma temporada deliciosa com elas, descobrindo, pensando, lapidando, aprendendo. Tão aí, fazendo história. (Marcelo) Veronez dirigiu a grande nave do Carnaval do Havaianas Usadas este ano e foi lindo. Por sorte, estou chegando mais perto deste grande cantor.

3 – Como estão os preparativos para o lançamento do disco em que você canta Dona Ivone Lara, já há data de lançamento, selo que vai lançar? Que critério guiou a seleção das faixas?
O disco está pronto e tem lançamento previsto para abril no Rio, em São Paulo, BH, Brasília e Curitiba. É a minha segunda parceria com a gravadora Biscoito Fino, a primeira foi com o CD “Ay, Amor!”, vencedor do Prêmio da Música Brasileira 2018 como “Melhor Disco de Língua Estrangeira”. Escolhi composições de Dona Ivone com Delcio Carvalho, seu parceiro mais constante. Mas trouxemos também riquezas dela com Nei Lopes, Paulo César Pinheiro e Arlindo Cruz. Os queridos Hermínio Bello de Carvalho e Vidal Assis compuseram uma canção inédita para eu gravar, chamada “A Dama Dourada”, título do show que faço junto com o incrível violonista Alessandro Penezzi.

4 – O que o episódio envolvendo a sua desistência em protagonizar o musical em homenagem a Dona Ivone Lara te trouxe de positivo e negativo? Como esse episódio afetou a sua visão sobre questões como racismo e representatividade na arte? Teve algum momento que foi o mais difícil nesse episódio para você?
Para mim o inaceitável é sempre a violência, o ódio, a necessidade de desqualificar o outro e discriminá-lo em qualquer circunstância e da maneira que for. Acho que o não ouvir é uma das catástrofes dos nossos dias. A não comunicação é outra. Este episódio questionou a identidade de muitas pessoas, especialmente os ditos “pretos claros” feito eu. Também questionou os limites da atuação artística, da criação, ou do que é ou não passível de ser representado. Quem pode, quem não? A minha maior contribuição foi ter saído e deixado um espaço para que estes discursos viessem à tona, para que pensadores, jornalistas, uma parte da sociedade, enfim, pudesse refletir sobre estas pautas levantadas a partir da minha renúncia. Quanto a dor, a tristeza daquele momento, só havia uma forma de superar. Pela Arte. Assim o fiz.

5 – Qual a importância de Dona Ivone Lara para a música brasileira e para a sua trajetória em especial? Se lembra da primeira vez que a ouviu? Que música de Dona Ivone Lara é mais representativa para você e, na sua opinião, qual a música do repertório dela é mais apropriada para o momento do país?
Dona Ivone é imensa. Compositora, criadora, sambista, mulher, negra que desde o início da carreira, enquanto enfermeira, teve uma luta grande ao lado da psicanalista Nise da Silveira contra os manicômios. Enfrentou toda a sorte de preconceito. Em casa, na escola de samba, no meio artístico, para se firmar como artista. Venceu e deixou seu legado, fez uma história importante que conta parte do enredo sobre a música no Brasil. Gravei no disco novo “Meu Samba é Luz é Céu e Mar” (Ivone e Delcio Carvalho) que diz muito por ser tão atual.

Quero arrancar da minha mente
Tristeza, saudade
Quero espalhar pra toda gente
A minha verdade
Quero soltar enfim
A alegria que existe em mim, em mim
Que querem sufocar
Com tanta maldade, covarde
Quero soltar, enfim
A alegria que existe em mim, em mim
Que querem sufocar
Lentamente até matar

Mas a maldade tem seu dia
Quem faz o mal não se cria
Nem vive em paz
Me armo de samba e poesia
E a minha melancolia
Logo se desfaz
Me prendo à toda beleza
E solto amor em meu cantar
Eu não sei odiar
Não se destrói a natureza
Meu samba é luz é céu e mar

6 – De que maneira a experiência como escritora afetou o seu trabalho de intérprete e como essas relações estão presentes na sua vida? Quem são as suas referências e ídolos na literatura? Tem planos de publicar novos livros?
Sempre escrevi. É o meu “quarto de despejo”, parafraseando o título do livro de Carolina Maria de Jesus. Ali eu me invento e não preciso ser eu. Leio muito a Adélia Prado, o García Lorca, o Guimarães Rosa, como também meus contemporâneos Marcelino Freire, Ana Martins Marques, Noemi Jaffe, Carla Madera, Mia Couto, Arruda, muita gente.

7 – Você pretende participar de alguma forma da homenagem que a Portela fará para Clara Nunes no próximo Carnaval? O que a Clara trouxe de único para a música brasileira, que marca dela você destacaria?
Em 2013 lancei “Canto Sagrado”, CD e DVD em homenagem à Clara e fiz muitos shows, passei por vários palcos, me emocionei ao estar perto da família dela, conseguir ajudar a creche que a Dindinha, irmã mais velha de Clara, cuidava. Clara não se esquece. É pura inspiração e beleza, feito Ivone Lara. Não tenho planos para o Carnaval na Portela mas, quem sabe?

8 – De que maneira o resultado das eleições presidenciais bateu em você e porque acha que chegamos a esse ponto? O que pensa sobre a prisão de Lula?
Não tenho nada a comemorar. Apenas seguir lutando, empática, junto com a maioria da população que não o elegeu. Isso tudo para não assistirmos a dizimação de índios, LGBTs, negros, da Amazônia e dos povos ribeirinhos, da agricultura familiar, dos poucos direitos trabalhistas. Não acredito em governo que não apresenta ideias e propostas claras, que prega a violência, que, ao invés de escolas, quer armar a população e satisfazer a indústria e o empresariado colonialista. Queria ter tido ao menos a oportunidade de ouvir as propostas do atual presidente nos debates aos quais ele se negou a participar. Quanto ao Lula, tornou-se um preso político. Juristas de todo o mundo, entidades de defesa dos direitos humanos noticiam isso, reconhecem. Menos a imprensa do Brasil.

9 – O que é essencial para que você cante uma música?
A canção me seduz à medida que me permite sonhar, me emocionar, dizer algo que fale de mim.

Raphael Vidigal

Fotos: Kriz Knack; e Fernando Cavalcanti, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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