Fã-clubes: Caça-níquel dos ídolos pode se transformar em uma armadilha

*por Raphael Vidigal

“Mas não basta que sejas simples aparência,
Para alegrar minha alma a fugir da verdade?
Que importa a tua tolice ou tua indiferença?
Máscara ou enfeite, viva! Adoro a tua beldade.” Baudelaire

Os fã-clubes sempre interferiram em narrativas no contexto da indústria cultural, pois ela se alimenta justamente disso, da relação do artista com o público, que, em última medida, representa um consumidor daquele produto. Logo, essa relação foi inevitavelmente colocada dentro de uma perspectiva capitalista. O fã é, para a indústria cultural, um consumidor em potencial do trabalho que o artista oferece. Então, de alguma forma, se estabelece uma relação entre produto e cliente. Logo, há um interesse da indústria em atender às expectativas desses fãs, o que pode ser muitas vezes prejudicial ao artista, levando-o a ser tolhido e adaptado para um gosto, considerado médio, dos fãs.

Pegando o exemplo da música brasileira, há casos emblemáticos de fã-clubes que interferiram na narrativa midiática sobre os fãs, com o suporte da própria indústria cultural, casos da rixa que se estabeleceu entre as cantoras Marlene e Emilinha Borba e da personalidade imputada a Cauby Peixoto, cujas roupas eram feitas de modo a serem facilmente rasgadas pelas fãs, transformando-o em um galã dos anos 1950, o que foi sendo revertido com o tempo, quando Cauby assumiu a sua verdadeira personalidade híbrida, exuberante e que trazia uma imagem sexualmente confusa, ou, supomos, intuitivamente fluida.

Clientela. Hoje em dia e, tenho a impressão que, cada vez mais, as assessorias dos artistas se acercam de todos os cuidados possíveis para atenderem às expectativas do gosto médio dos fãs e, para tanto, têm um filtro rápido e de fácil acesso, que são as redes sociais. Elas atuam como um bom medidor do que pode funcionar para a carreira do artista dentro dos critérios da indústria cultural de massa.

Há nisto um problema: artistas transformados em produtos para clientes tendem a transformar-se em objetos pasteurizados, parecidos, mecânicos, o que prejudica, em grande medida, a maior qualidade da arte: originalidade, transgressão, criatividade. Havia um tempo em que os artistas não se preocupavam tanto em agradar ao público, ou que o público se portava menos como cliente.

Um exemplo, antigamente, ao assistir a filmes de Godard, Herzog, Buñuel, e outros tantos, a postura do público, se ele não compreendia o filme, era via-de-regra, procurar onde estavam as dificuldades em si. Hoje, parece haver uma tendência reversa: se o artista não atende ao que ele deseja, é porque o artista não tem condições para tal.

Provocações. Em minha opinião, os fãs só prejudicam aos artistas. Como dizia um diretor de teatro mineiro: se a peça é boa, para quê público? Também gosto de outra sacada de Cazuza, que se portava de maneira bastante independente em relação aos fãs: “Não aconselho nem um cachorro na rua a me seguir. Não quero ser igual ao Roberto Carlos, amado por todo mundo. Prefiro ser como Caetano, amado por uns e odiado por outros”.

A relação entre fã e ídolo parte de duas premissas: projeção e identificação. A primeira é mais complicada, pois a pessoa projeta no outro as ambições, desejos e fantasias que não consegue alcançar e, deste modo, pode se tornar um tanto possessiva com o ídolo, exigindo que ele se porte da maneira que considera adequada. A identificação é mais saudável.

É quando assistimos a um filme, lemos uma frase, ouvimos uma música e percebemos que o artista conseguiu colocar em expressão artística aquilo que nós sentimos, mas não fomos capazes de expressar através da estética. Para essas coisas, não existe preço. Ainda que muitos fã-clubes se portem e sejam estimulados a se portarem como clientes pelo capitalismo cultural, o ser humano possui uma necessidade de se expressar artisticamente e, muitas vezes, esse desejo é satisfeito através da projeção ou identificação com a expressão proporcionada pelo outro.

Fotos: Arquivo/Reprodução.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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