Da glória ao calvário: a queda vertiginosa do Cruzeiro em dois anos não tem paralelo no Brasil

*por Raphael Vidigal

“A glória não depende do esforço, geralmente invisível: ela só depende da encenação.” Paul Valéry

Atual bicampeão, Mano Menezes se vangloriava de chegar à quarta semifinal seguida de Copa do Brasil com o Cruzeiro, um feito inédito, após eliminar o rival Atlético. O duelo foi o último momento de glória vivenciado pela torcida celeste. Na primeira partida, após acertar um improvável chute de fora da área com a perna esquerda contra um goleiro Victor já em final de carreira, Pedro Rocha abriu o placar para a Raposa, que se retraiu e aproveitou um contra-ataque mortal para ampliar com Thiago Neves. Na segunda etapa, Robinho acertou novo chute de fora da área e fechou a peleja em 3 a 0. O resultado encerrava um longo e incômodo jejum de vitórias, mas não passou de ilusão.

O time apresentava claros sinais de cansaço da fórmula adotada pelo treinador, envelhecimento do elenco, além de questões mais graves que ainda viriam à tona, como o buraco financeiro em que dirigentes irresponsáveis enfiaram o clube, que passou a atrasar salários e ser investigado pela Polícia Federal. Começava o calvário. Na partida de volta, o Atlético precisava de um milagre, e passou perto. O jogo foi marcado por uma tragédia, quando um torcedor atleticano sofreu um infarto e morreu ao lado do filho de cinco anos.

No campo, 2 a 0 para o Galo. Foi após essa “derrota com sabor de vitória”, que Mano se gabou da marca alcançada. Ao perder o primeiro jogo da semifinal para o Internacional, no Mineirão, acabou demitido, ao chegar a apenas uma vitória em 18 partidas. Numa de suas derradeiras entrevistas, procurava demonstrar confiança. “As coisas não podem piorar”. Mas não foi o que se viu.

Não há paralelo de queda tão vertiginosa como a do Cruzeiro no futebol brasileiro. Afogado em dívidas impagáveis, proibido de realizar contratações em razão dos calotes que distribuiu, o clube sofreu o primeiro rebaixamento de sua história no mesmo ano em que realizou a melhor campanha da fase de grupos da Taça Libertadores, em 2019, com um time que apostava em Fred, Rodriguinho, Thiago Neves, Robinho, Mano Menezes e outros veteranos.

No ano seguinte, entrou para disputar a segunda divisão com menos seis pontos. A obrigação do acesso apontava no horizonte um centenário melancólico, mas, como andam dizendo por aí, não há nada que não possa piorar. O maior campeão da Copa do Brasil – com seis taças –, e único clube fora do eixo Rio-São Paulo a levantar o campeonato brasileiro na era dos pontos corridos, atingiu outro feito inédito para uma agremiação do seu porte e com a sua história: passar dois anos consecutivos na B.

Não subiu, apesar da contratação de emergência do campeão mundial Felipão, que abandonou o barco após promessas feitas pela diretoria não serem cumpridas, a começar pelos salários em dia. O centenário que se ameaçava melancólico tornou-se desesperador. Não bastasse a falta de perspectiva na divisão de acesso, com mudanças frequentes de treinadores e erros repetidos na montagem do elenco e na administração de um dia a dia pra lá de conturbado, o clube hoje assiste ao principal rival se candidatar a erguer todas as taças que disputa, da Libertadores aos campeonatos nacionais. Se a situação pareceria obra de ficção há dois anos, o impensável hoje é ver o Cruzeiro retomar o protagonismo no futebol nacional e sul-americano.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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