Entrevista: Toni Garrido

“Morre e transforma-te!” Goethe

Toni Garrido

Elba Ramalho tornou icônica música composta por Dominguinhos e Nando Cordel, a versar sobre a saudade do lar. “De volta pro meu aconchego” reflete o temor de andar de avião, que obriga o sanfoneiro nordestino a percorrer longas distâncias de ônibus.

Arnaldo Antunes também avistou o tema, com a raivosa e política “Volte para o seu lar”, na qual difama a polícia, a doença, a miséria, e recolhe-se a uma casa esquecida, mas que ainda abriga confraternizações sinceras, quando todos se sentam na mesa para comer com a mão.

Pode-se dizer que a volta de Toni Garrido à banda Cidade Negra, anunciada desde o fim do ano passado, mas que só agora chega ao disco, com o lançamento de “Hei, Afro!”, pela Som Livre, totalizando 13 canções, a maioria autorais, e algumas versões, tem tanto a ver com saudade quanto com indignação.

GANA
O vocalista do trio fluminense com repertório calcado no reggae, explica. “A palavra que melhor nos define é ‘ho-nes-ti-dade’. Paramos porque as coisas não iam bem, internamente nossas vontades não mais se cruzavam. E a sinceridade, o sentimento, a gana de transmitir nossas impressões da realidade, em nosso trabalho, é fundamental”.

O repertório do novo disco acena para esse vigor e frescor retomados após a necessidade de parada da banda. Durou três anos o término, período no qual, segundo Toni, os membros do Cidade Negra, naturalmente, ficaram sem se ver. “Por incrível que pareça, durante esse tempo apenas tive notícias deles, mas nunca nos cruzamos, nem em aeroporto, ambiente comum para músicos”.

NOBREZA
Garrido enfatiza o universo musical do trio, segundo ele centrado em “temas nobres”. “Falamos sobre a cidade, futuro, melhorias, positivismo, evolução, crescimento, amor, perdão”. Da nova safra, destacam-se, nesse sentido, “Don´t Wait”, “Menino Rei”, “Paiol de Pólvora” – sobre um Rio de Janeiro em guerra civil – e “Ignorius Man”, esta última a rebater preconceitos religiosos e de Estado contra, nominalmente, os “negros, pobres e gays”.

A incursão em assuntos de viés social e político acende-me uma questão, prontamente repassada ao entrevistado, que se dispõe a respondê-la sem meias palavras. A música tem o poder de modificar a realidade? Toni divide a pergunta em dois modelos. “Primeiramente, há, sim, a possibilidade de mobilização e transformação, muito forte, na música. Em outra vertente, existe a experiência do músico. A satisfação pessoal, a busca por sensações, sentimentos e camadas que podem ser alcançados se instigando a raiva, a revolta, o nojo, que alguns temas despertam”.

E não é só isso. Com a propriedade de filósofo da canção reggae, e defensor quase aflito de gênero que se resumiu, no Brasil das últimas décadas, a exaltar a alegria vazia e rala, Toni Garrido oferece consistente argumentação sobre o ofício que o sustenta desde 1986, quando caiu na estrada com o Cidade Negra. “O intérprete procura regiões afetivas, caminhos, tons, que o catapultam a diferentes percepções. Pode-se recorrer a um protesto mais contundente ou virulento, pode-se almejar o pensamento livre, solto, tudo em razão da emoção”, sublinha.

CORAGEM
“Foi um ato de coragem”, afirma Garrido, que continua, dizendo: “Muita gente não acredita naquele ditado, de que é preciso ‘dar um passo atrás, para depois dar dois à frente’, mas foi o que aconteceu com a gente”. As palavras refletem, ainda, os motivos que culminaram com o fim da banda e o agora regresso.

Mágoas houveram. No entanto, o músico destaca o “respeito” entre os integrantes, o que evitou a propagação de declarações ofensivas na imprensa. Duas das músicas do novo disco repercutem o caso. “Eu fui, voltei”, reutiliza batida e primeiros versos da clássica “Downtown”, para depois quebrar a expectativa com uma nova letra. Ela, assim como “Só pra detonar”, comutam espécie de ‘resposta aos críticos’.

ÍDOLOS
Papel que, sem se fazer de rogado, Garrido assume com a habitual consciência de quem sabe onde põe os pés. Mas antes de apontar o dedo para os possíveis defeitos da canção brasileira, tece louvas aos ídolos que o referendaram como herdeiro legítimo do ritmo, e mais do que isso, os valores hasteados ao mundo por Bob Marley.

“A gente passa a vida tentando compor uma canção perfeita. Bob Marley tem cerca de 30. Se estivesse vivo, não tenho dúvida que estaria criando músicas perfeitas até hoje”, afirma. No país tupiniquim, Toni salienta a contribuição dos “Paralamas do Sucesso” e de Gilberto Gil. “Quem não conhece ‘Drão’ e ‘A Novidade’? São clássicos do nosso cancioneiro popular. Gil e os Paralamos inseriram o reggae na cena nacional”.

APRENDIZ
Para Garrido, o “segmento reggae” existe no Brasil, mas “é preciso deixar de ser um setor”. A mistura de sons é algo presente no trabalho do cantor, como se vê no recente álbum, por exemplo, na canção “Mole de Amor”, onde o título entrega tudo, trata-se de uma união com o axé, donde emergem a letra repetitiva e o ritmo empolgante. “A natureza do Cidade Negra nunca foi ser banda escola, mas aprendiz, com o ouvido aberto a tudo, de Djavan a Judy Garland”. “Somewhere Over The Rainbow”, famosa na interpretação da atriz em “O Mágico de Oz”, recheia o disco “Hei, Afro!”.

ONOMATOPEIAS
No primeiro disco, “Lute Para Viver”, o Cidade Negra apresentou ao Brasil o “autêntico reggae jamaicano”. “As pessoas não conheciam o reggae vindo da Jamaica, elas achavam que conheciam, mas aqui era muito difícil ter acesso a esses discos de raiz, muito caros”, declara Toni. Nos seguintes, “Negro no Poder”, “Sobre Todas As Forças” e “O Erê”, a tentativa, bem sucedida, já era a de afirmar uma sonoridade “intuitiva e perene da nossa identidade pessoal, brasileira, nosso mundo particular, mesclado, obviamente, com outras referências”, define.

A palavra de ordem para a banda era, então, “liberdade”. E permanece até hoje. No entanto, o cenário brasileiro não está mais propício para o que Toni considera seu “ideal”. “Hoje o cérebro das pessoas está preparado para ‘uuus’, ‘aaas’, ‘êêês’. Onomatopeias e refrões fáceis. As pessoas estão felizes com a facilidade, e é legítimo. Tudo muito bonzinho, legal. Me adapto, ‘danço conforme a música’, mas não preenche meus parâmetros e necessidades”.

Toni Garrido ainda sonha com momento em que a ‘música mais tocada na rádio’, vá além dos “vocábulos repetidos”. “Acabo de lançar um disco com canções que privilegiam a harmonia, as melodias, trabalhamos nas letras incessantemente, espero que um dia as pessoas, em massa, voltem a cantá-las e dançá-las, como já foi um dia”, conclui.

Toni Garrido Entrevista

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 24/12/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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