Entrevista: Gerson Conrad, ex-Secos & Molhados, relembra trajetória

“Mas só não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária” Vinicius de Moraes

Gerson-Conrad

De cara limpa o músico Gerson Conrad, ex-integrante da formação clássica do grupo “Secos & Molhados”, relembra, em livro, essa trajetória. Lançado em 2013 pela editora Anadarco, “Meteórico Fenômeno”, no entanto, não pôde contar com fotos de um dos envolvidos na banda que revolucionou a imagem e o som da música brasileira na década de 1970. “Em verdade, não houve problemas em relação ao livro que pudessem me preocupar. Eu e minha editora tomamos os cuidados legais, solicitando aos antigos companheiros de ‘Secos & Molhados’ a autorização do uso de imagem. O Ney, de cara, autorizou. João reservou-se ao direito de não querer sua imagem publicada. Simplesmente respeitamos sua decisão”, esclarece Gerson.

Os dois que ele chama apenas pelo primeiro nome são nada mais nada menos que Ney Matogrosso, vocalista dos históricos discos lançados em 1973 e 1974, e João Ricardo, fundador do trio ao lado de Conrad, e autor de sucessos como “O Vira”, com Luhli e “Sangue Latino”, com Paulinho Mendonça, entre outros. As desavenças com João Ricardo, que muitos apontam como responsável pela dissolução do grupo, já são conhecidas há tempo. O próprio Ney Matogrosso declarou em entrevistas que o fator ganância foi determinante. Dono da marca “Secos & Molhados”, João apresenta-se atualmente com a quinta formação do nome, ao lado de Daniel Iasbeck. Sobre a não autorização, disse à imprensa: “De jeito nenhum! Seria uma estupidez, há 39 anos não nos relacionamos”.

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MEMÓRIAS
Com o subtítulo “Memórias de um ex-Secos & Molhados”, o livro de Gerson Conrad é, em verdade, uma foto-biografia. Com 135 páginas e vendido ao preço médio de R$56,00, o lançamento está na pauta de novidades do artista. “Tenho programação agendada em várias capitais do país para autografar o livro”. Além disso, outro compromisso do cantor e violonista é dar prosseguimento aos trabalhos de sua atual banda, “TRUPI”, com a qual apresenta a música “Direto Recado”, dos versos: “Talvez fosse melhor deixar que vivesse o mito/Tente uma só vez/Deixar o rancor de lado/Já não temos que ser/Nem secos, nem molhados/Este é o meu direto recado”. A ideia de um disco para o segundo semestre também começa a ser costurada.

Depois de se desligar do “Secos & Molhados”, Gerson lançou mais dois discos. Um em dupla com a cantora e atriz Zezé Motta, “Trem noturno”, em 1975, e outro solo, em 1981, com o nome de “GC”. Relançados em 2004, o segundo ganhou novo batismo, e passou a se chamar “Rosto Marcado”. Sobre as experiências além do grupo, Gerson recorda: “Zezé Motta foi uma decisão minha, por me sentir inseguro naquele momento, em registrar todo um disco como primeira voz. A convidei e nossa relação foi ótima enquanto durou. Posso afirmar que o trabalho registrado em disco foi bom para nossas carreiras individuais”, sublinha. Já em relação ao cenário atual da música brasileira, o entrevistado é direto e verdadeiro: “Honestamente, nada me chama atenção”.

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NOVO
O desinteresse com o que se produz de novo na música brasileira tem uma razão de ser. Segundo Conrad, “o que falta hoje em dia é embasamento cultural, informação. Na época que criamos o ‘Secos & Molhados’ mostramos conteúdo literário de gabarito, detínhamos todo tipo de informação, e fomos pioneiros em termos de abordagem sensual dentro do nosso contexto musical e de performance”, avalia. A fala do compositor pode ser comprovada com uma das canções de maior sucesso do grupo. “Quando conheci o poema ‘Rosa de Hiroshima’, de Vinicius de Moraes, estávamos pesquisando poetas e nomes de nossa literatura para compor o repertório do grupo. O poema de Vinicius estava perdido, segundo o próprio, em meio a uma antologia”, rememora.

Um dos critérios utilizados por Gerson para musicar o poema é que “o tema era de cunho universal”. Os versos “Pensem nas crianças/Mudas telepáticas/Pensem nas meninas/Cegas inexatas/Pensem nas mulheres/Rotas alteradas/Pensem nas feridas/Como rosas cálidas”, saíram da página branca para ganhar o canto emocionado das multidões. “Certo dia, antes do lançamento do nosso primeiro LP, tive a oportunidade de conhecer Vinicius nos bastidores da TV Bandeirantes, e ali apresentei ao poeta minha música para o seu poema. Ele se emocionou e disse que tinha certeza que seu poema se eternizaria com minha música”, orgulha-se Gerson. A profecia se cumpriu, e Conrad, um dos responsáveis, diz que em literatura prefere “os clássicos”.

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CRIATIVIDADE
Apesar de várias pedras no caminho é inegável que a trajetória do grupo “Secos & Molhados” teve mais brilho do que lodo. Essa exitosa história teve início no bairro Bela Vista, em São Paulo, onde João e Gerson eram “vizinhos de mesma calçada”. “Nos tornamos amigos ainda adolescentes. Quando decidimos montar o grupo, optamos por convidar Ney Matogrosso, que havia sido sugerido por Luhli (da posterior dupla com Lucina), parceira de João na composição ‘O Vira’”, conta Conrad. Já em relação ao término da banda, Gerson prefere sugerir que as pessoas leiam seu livro. “Lá, explico de maneira concisa os motivos que levaram ao fim do afamado grupo”, garante. Um exemplar pode ser adquirido no site http://www.livrariadaana.com.br.

Na visão de Gerson Conrad a principal contribuição do trio para a música brasileira foi “a criatividade. Fomos um divisor de águas. Um marco para a indústria musical brasileira”, assente. Com uma formação musical que teve como base a música clássica, ele não titubeia em eleger o ídolo. “Mozart é, sem dúvida, meu predileto. Mas, minha formação como violonista iniciou-se com o flamenco, com as raízes da escola espanhola de guitarras”, explica. Essa influência pode ser facilmente notada em músicas como “Tercer Mundo”, melodia de João Ricardo sobre texto do contista argentino Julio Cortázar, “Não: Não Digas Nada”, também melodia de João sobre poema de Fernando Pessoa, “El Rey”, de Conrad e João, entre outras.

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MÚSICA
Por fim, Gerson explica porque o garoto nascido em São Paulo, a 15 de abril de 1952, um dia decidiu tocar violão, dançar e soltar a voz com o rosto pintado e pouquíssima roupa. “O que me incentivou a ser um profissional de música foi meu interesse pela música”, a frase que pareceria óbvia em outros tempos guarda uma farpa afiada para os especialistas do filão da indústria do entretenimento. “Fui criado no seio de uma família musical, meus avós paternos e maternos tocavam piano, violino e cantavam. Isso certamente me motivou”, atesta. Para não se complicar, o músico prefere não citar o nome dos cantores e cantoras preferidos. “Seria indelicado de minha parte, caso esquecesse algum nome!”, ri-se. Entendido. A tarefa não é nada fácil para quem cantou com Zezé Motta e Ney Matogrosso. O pecado da fartura o atinge.

DISCOGRAFIA
1973 – Secos & Molhados
1974 – Secos & Molhados (II)
1980 – Ao Vivo No Maracanãzinho (com o Secos & Molhados, gravado em 1974)
1975 – Gerson Conrad e Zezé Motta
1981 – GC ou Rosto Marcado

Gerson-Conrad-entrevista

Raphael Vidigal

Fotos: Arquivo e divulgação.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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