Entrevista: Geraldo Azevedo

“Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.” Hilda Hilst

Bicho de Sete Cabeças II

“O ser humano é maluco, cria coisas contra ele”, diz o compositor Geraldo Azevedo, autor do infindável sucesso “Bicho de Sete Cabeças II” (ao lado de Zé Ramalho e Renato Rocha), recentemente revisitado por Ney Matogrosso no espetáculo “Beijo Bandido”, assistido de perto pelo entrevistado na estreia carioca. “O Ney é impressionante, valorizou ainda mais o que já era maravilhoso, aquela performance é o gol!”, entusiasma-se.

O que não anima Geraldo é o rumo das águas no mundo, antes acostumadas a peixes, limpeza e ar puro. “As pessoas não acreditam que o planeta pode mudar, as iniciativas de revitalização são todas muito tímidas, enquanto o desmatamento, a poluição, e os maus tratos são contínuos”, desabafa.

COMBATE
Combatente a vida inteira, Geraldo, entretanto, não se dá por vencido, e usa o talento com acordes e palavras para agredir os princípios do desenvolvimento frenético e irresponsável. “A música é uma arte de penetração muito forte, ás vezes vulgar, outras de uma grandeza e dignidade enorme”.

Assembleias em Brasília e Recife já o convidaram a participar de sessões, mas, apesar de “lisonjeado”, ele ainda não compareceu. “Minha esfera política é sempre a cultural”, afiança.

LÁGRIMAS
As águas doces do Rio São Francisco são saudadas por Geraldo Azevedo no espetáculo apresentado hoje, às 21h, no Sesc Palladium. No entanto foi um gosto salgado o experimentado pelo compositor ao ver de perto a participação de Dominguinhos, um dentre os inúmeros convidados do projeto. “Foi o único que me levou às lágrimas”, confessa.

Na vinda da turnê a Belo Horizonte, Geraldo subirá ao palco acompanhado por Luiz Antônio nos teclados, Humprhy Scott no baixo, Tiago Azevedo na bateria e Vitor Motta no sax. No DVD, estão presentes Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Djavan, Moraes Moreira, Fernanda Takai, e outros.

ESTADOS
Os nomes escolhidos buscam trânsito nos estados banhados pelo rio, como Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. A cantora do “Pato Fu”, residente em Belo Horizonte mas natural do Amapá teria sido “um presente de Robertinho do Recife (produtor do disco), eu queria Milton Nascimento ou João Bosco, indisponíveis, então ele sugeriu a Fernanda”.

Geraldo admite ter se surpreendido positivamente com a musicalidade da intérprete, que “assim como o rio, não vem só de Minas, mas lá firmou suas bases”. O reencontro com Alceu Valença, parceiro no primeiro álbum da carreira de ambos, é, segundo o entrevistado “um resgate da nossa história, e cantamos Luiz Gonzaga, que tem o centenário celebrado este ano, uma coisa maravilhosa”, afirma.

SONHO
A música cantada pela dupla é “Riacho do Navio”, autoria do Rei do Baião e Zé Dantas, que ganhou “um arranjo mais contemporâneo”. Canções inéditas de Geraldo, compostas especialmente para o novo trabalho, também figuram. “Desde o século passado almejava consolidar o sonho, esse sentimento que perpassa toda minha vida, morei na beira do rio São Francisco, muito me banhei naquelas águas”.

Geraldo Azevedo entrevista

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 29/11/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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