Entrevista: Curumin

“O corpo não traslada, mas muito sabe; adivinha se não entende.” Guimarães Rosa

CD Arrocha

O lema dos samurais é uma flor: “hoje é um bom dia para morrer”, ou, em palavras sutis, “viver o presente sem medo”. O vermelho duma cerejeira pode facilmente confundir-se com o sangue, correndo, espesso, líquido, intransponível.

No rio onde caminha a principal foz da música Curumin passou os dedos: “Gravar uma faixa com o Herbie Hancock é algo impressionante, com certeza o mais genial com quem já toquei.”

Esclarecesse que o referido músico é um antigo pianista e compositor norte-americano, um dos mestres do jazz.

VELHO NOVO
Esse movimento entre atual e vetusto estabelecido pelo paulista de apelido indígena e origem asiática é o enredo do novo disco, “Arrocha”, a ser lançado nesta sexta, dia 19, no Granfinos.

Não só ele, mas todos os outros trabalhos que contam com a aparição, repentina ou constante, do entrevistado, enveredam-se por esses lados: “Naturalmente gosto das coisas mais velhas, dos anos 60, 70, 80, e acho difícil criar uma visão futurista sem estar calcado no passado”, vaticina.

TECNOLOGIA
Mas é preciso recriar a linguagem, reciclar o lixo lógico, aferir Tom Zé e os armistícios: “Todo artista deve buscar-se, não há uma pessoa igual a outra no mundo, é importante cada um trazer sua parte.”

Em meio aos pinos das maquinarias e os quilos fálicos, posto que ousados, de energia, Curumin alicerça considerações sobre a tecnologia no processo criativo: “É uma ferramenta muito ampla, cheia de possibilidades. Auxilia quando se tem a noção de que o homem comanda o esteio da coisa, atrapalha ao se denotar o controle total à máquina”, e prossegue: “Ao ganhar contornos estritos de fábrica, de montagem, com afinação de voz, modificação excessiva, o conceito escapole, perde-se a dimensão do que é um meio, e não o caminho principal”, diagnostica.

O nobre Curumin, mesmo que rechaçou domínios ao sabor dos ‘Tempos Modernos’ de Charlie Chaplin, logo se arrisca a prever acontecimentos apocalípticos: “Apesar de não duvidar que daqui um tempo os dispositivos mecânicos tomem para si as rédeas deste cavalo bravo”, afirma.

MP3, internet, parafusos, martelos, há muito o que ser ouvido, tudo procria barulho, mas não se engane achando ser privilégio nosso, Curumin alerta: “Ás vezes acho que há uma empolgação excessiva com o atual momento, sempre houve, na música brasileira e mundial, em todas as eras, obras de belíssimo impacto e outras descartáveis.”

INDIE
O ciclotímico refrear das pausas de Curumin dão-nos as pistas para as pegadas avessas, que enxergam “uma falha no sistema, é um pouco triste que para se tocar no Faustão ou no Silvio Santos dependa-se de esquemas, de se relegar a condições pífias, medíocres, que não estou disposto e me recuso a ceder. Se fosse por mérito próprio apenas, não teria nenhum problema em ir até esses programas”, e não esconde certo ressentimento: “O indie sente falta desse espaço, tocamos para públicos de no máximo mil pessoas, enquanto um show sertanejo chega a cem mil, uma bruta diferença”.

Talvez por isso haja saudade da tropicália de Gil, Caetano, Gal, quando mesmo travestindo-se inapropriadamente era possível alcançar a massa. Curumin reflete: “No sentido comercial, somos alternativos, pois o trabalho da nossa geração só chega para quem o procura em blogs, redes sociais, esses nichos”.

E vêm dessas searas, justamente, as referências de Luciano Nakata, nome de batismo, entre citações que escapam e outras mais claras: “Gosto dos Racionais MC´S, das produções de beat americano, bandas de reggae da Jamaica”, tudo mistura-se no liquidificador giratório.

As hélices ora de helicóptero, outrora do instrumento da cozinha, aterrissam finalmente no “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, responsável pela “atmosfera do disco, por ser um livro clássico, muito intenso, de uma irreverência na ponta da língua afiada, fiquei embebido, sentindo-me em 3D”, afoba-se e prossegue: “Outras referências literárias importantes para mim são o Machado de Assis e o (Milton) Hatoum, que li pouco, mas o suficiente”, determina.

CULT
Em respeito ao momento atual da música, confidencia em trocados miúdos, no entanto réstia hóstia no pensamento sucinto: “Parece pairar sobre o som, depois de tantas transformações, uma estagnação de ideias, não fosse pelo frescor que emana continuamente…” proclama.

Inclusive afastado, quase de forma unânime, dos rádios, donde emergem misérias amarelecidas, e há “um passo a passo fácil de ser aprendido”, Curumin permite-se adentrar a todos os períodos e territórios: “Sempre tentei tirar essas divisões entre cantor de palco e baterista”, e tece comentários referentes a Wando e Odair José: “O que se chama de cult hoje bebe muito da fonte do brega, no entanto não temos capacidade para produzir uma coisa tão crua, popularesca, que seja realmente, de alma e coração, brega”, encerra.

Música é música, onde quer que eu esteja. Sempre procurei mostrar às pessoas minhas canções autorais, faço um esforço por buscar um estilo, um contato íntimo comigo”, desalinha Curumin e recostura o pano do futuro, para onde olha com a mancha do passado cobrindo-lhe a nuca, entre uma tatuagem de flor e lança: “Pretendo apresentar no ano que vem um disco do Russo Passa Pusso, um compositor da Bahia, as pessoas precisam conhecê-lo”, avisa.

Curumin, um pouco o conhecemos, venha agora, do ponto nórdico da Europa e Ásia, o mais populoso, intrigante e não estático, alvo.

Curumin baterista

Raphael Vidigal

Publicado no jornal “Hoje em Dia” em 19/10/2012.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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