Entrevista: banda “Green Morton” apresenta rock autoral sem frescuras

“o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos.” Virginia Woolf

Green-Morton

O estereótipo nunca é suficiente, mas não deixa de ser significativo que o nome da banda tenha surgido em uma mesa de bar, em meio a algumas (muitas) cervejas. A homenagem ao charlatão cujo pai homenageou o anestesista. Formada em 2011, por quatro integrantes nascidos na capital, surgia em Belo Horizonte a “Green Morton”. O guitarrista Zé Mário explica em detalhes. “Já tínhamos tido conversas sobre nomes, mas nenhum tinha agradado a todos e, depois de várias cervejas, surgiu um assunto sobre o paranormal charlatão brasileiro Thomaz Green Morton, todo mundo riu muito e um amigo nosso que estava na roda mandou ‘Green Morton é um nome bom pra banda hein?’, todo mundo riu de novo, mas adotamos o nome”, rememora.

Batizados foram atrás de mais informações, como o sujeito que consulta o horóscopo a fim de entender o significado de sua alcunha. “Carregamos um pouco de ironia em algumas músicas, então acabou encaixando. Depois descobrimos que também era o nome do inventor da anestesia, William Thomas Green Morton, e que esse era o motivo do nome do paranormal, ou seja, legal demais!”, completa Zé. Já os caminhos para o som da banda foram menos ao acaso e mais fundamentados numa ligação tanto afetiva quanto musical, sem dispensar, jamais, os mistérios intuitivos preponderantes a esta arte. Júlio D’Agostini conta como chegou à bateria. “A minha maior influência para gostar de rock foi o meu irmão, lembro, quando tinha uns 13 anos, de ir aos ensaios da banda que ele tinha com os amigos da escola”, recorda.

INFLUÊNCIAS
Foi nesses ensaios que surgiu para Júlio a vontade de aprender a tocar algum instrumento, e a opção pela bateria. O pai atendeu ao pedido e eles logo construíram um estúdio improvisado em casa, local em que “fazíamos bastante barulho, importunando os vizinhos”, afirma Júlio, experiência que, embora incômoda para os habitantes das casas laterais serviu para que “evoluísse bastante no instrumento”, garante. Estúdio caseiro em que as primeiras aventuras com bandas puderam acontecer também. Fernando D’Agostini, irmão de Júlio, três anos mais velho, e baixista da “Green Morton” também remonta ao lar para argumentar a paixão ao ofício. “Uma das minhas primeiras lembranças musicais talvez seja Raul Seixas rodando no toca-fitas do Fusca do meu pai quando a gente viajava pro interior”, relembra.

“Mas o que me colocou dentro do rock mesmo foi quando descobri o “Matriz” (tradicional casa de espetáculos reservados ao estilo) na adolescência aqui em BH, e me envolvi com a cena punk e hardcore, quando eu finalmente entendi o que o Raul dizia naquelas músicas sobre ‘ter a velha opinião formada sobre tudo’”, completa Fernando ao citar um trecho de uma das mais conhecidas canções do “Maluco Beleza”. Eduardo Lara, vocalista e também guitarrista da trupe, apresenta três citações bastante tradicionais ao tema, o que talvez ajude a entender o prospecto que define a banda, entre muitas outras coisas, como de rock clássico, stoner – vertente evidenciada a partir dos anos 2000 –, e grunge. “Minhas primeiras lembranças musicais são de ouvir Beatles e Rolling Stones de tabela, por causa do fanatismo do meu pai com eles. Mas só decidi aprender a tocar depois que conheci o Nirvana”, arredonda.

AUTORAL
Zé Mário é outro a reafirmar a importância da banda de Kurt Cobain nesse processo. “Sempre me interessei em aprender a tocar violão, mas quando escutei pela primeira vez ‘Smells Like a Teen Spirit’, do Nirvana, deu aquele ‘clique’, e a partir daí decidi que queria tocar guitarra e estar em uma banda”, considera. Nesse sentido, passos importantes já foram dados. A trupe lançou um EP, com quatro faixas, e se prepara para colocar na roda o primeiro álbum, com 12 títulos, que deverá sair entre os meses de junho e julho deste ano de 2016. Zé Mário disseca algumas das composições da banda e a presença de outras áreas do conhecimento artístico. “Várias letras abordam questões de comportamento, tanto sociais quanto individuais. Um exemplo é a canção ‘Obey’ que versa sobre fé e religião”, esclarece.

Cinema, seriados e temas científicos também afetam a criação dos integrantes da “Green Morton”. “Às vezes no processo de composição de um arranjo, o tema de um filme ou um texto sobre evolução ou exploração do universo coloca a mente em um estado de euforia, suspense, torpor, dentre outros sentimentos que são irracionalmente transformados em um conjunto de notas e ritmos a fim de transmitir aquele estado de espírito”, define o guitarrista. E cita a canção “Hyde My Evidence”, presente no EP inaugural, como oriunda de um momento em que estava “fascinado com o seriado (norte-americano sobre um assassino em série) ‘Dexter’”. Ainda sobre o conteúdo que produzem, defende a escolha por uma língua estrangeira. “Para a nossa estética sonora eu acho que o inglês flui melhor. Na minha cabeça o português soa um pouco ‘quadrado’ e se encaixa melhor em um instrumental mais suave e sem muitos ‘detalhes’. Tem também o fato de que as nossas principais influências são bandas cujas letras são em inglês, então acaba sendo mais natural para nós dessa forma”, elucida.

ATITUDE
“Para mim atitude tem que vir em conjunto com música no rock, pois o contrário soa muito ‘plástico’ e sem aquela energia que é característica do estilo. Até para temas mais introspectivos como o amor a atitude deve estar presente para que não soe superficial e bobo”, elabora Zé sobre aquela que talvez seja a principal queixa tanto de espectadores quanto de artistas em relação ao momento atual em que indústria e arte se transformaram numa coisa só, eliminando as características e a identidade da segunda. Os irmãos Júlio e Fernando entoam esse coro ao designar os objetivos que têm com sua banda. “Meu objetivo tocar cada vez mais. Para mim, é uma satisfação enorme estar em cima de um palco tocando, fazendo uma coisa que gosto de verdade”, reitera o baterista. “Meu principal objetivo é me divertir com meus amigos fazendo música de qualidade sem as preocupações que tenho na minha ‘vida normal’ de escritório, e o que vier é conseqüência”, reflete, assim, o baixista.

O que não significa que eles não tenham planos bastante ambiciosos para o futuro, apenas deixa claro que ali existem princípios. “A perspectiva para o futuro é, a princípio, explorar bastante este álbum, divulgá-lo para o maior número de pessoas, fazer shows em outras cidades do estado, de outros estados do Brasil e, quem sabe, fazer shows também fora do Brasil”, avalia Júlio amparado por Fernando, ciente dos desafios. “Rentabilidade dentro do estilo musical que fazemos é algo difícil de alcançar. Claro que sonhamos com essa possibilidade, viver de música, porém mantemos o pé no chão empenhando nossos esforços na qualidade máxima das canções que fazemos, para quem sabe um dia esse lance de música seja ao menos sustentável”, diz.

CENA
Sobre a cena do rock no país e na cidade, Júlio, Fernando, Zé e Eduardo sabem estar pisando em espinhos, mas não se atemorizam, afinal o espanto é também fascinante, quanto mais para o gênero. “Existem algumas cenas bem fervilhantes, como as de Goiânia e do nordeste, principalmente em Natal, no Rio Grande do Norte, onde acontecem vários festivais importantes e também de onde vêm bandas que estão conseguindo bastante espaço e público como a ‘Hellbenderes’, do primeiro estado, e ‘Far From Alaska’, do segundo”, enumera Zé Mário. Já na capital mineira ele considera que o ambiente para o rock dito “pesado” segue em desenvolvimento, com bandas se unindo e realizando importantes projetos de colaboração, como o “MURRO” (Movimento Undergroud Rock ‘n’ Roll) e a “Deserto Elétrico” selo e produtora que tem movimentado a cena com shows importantes de bandas nacionais e internacionais, sempre incluindo as bandas da região.

“Festivais como o ‘Rock Street’ e o ‘Rock do Deserto’ estão se consolidando e a cada edição conseguem mais atenção da mídia e do público. Existem casas de espetáculo que dão total apoio à cena como ‘A Autêntica’, ‘A Obra’ e ‘Matriz’ e outras que eram exclusivas para o mercado de cover e estão abrindo também as portas, como no caso do Circuito do Rock (formado por Jack, Lord e Circus)”, comemora Zé Mário. Esses ganhos certamente compensam ou diminuem o efeito das dificuldades, afinal de contas o músico avalia que o momento é bem mais promissor que “há uns três anos atrás”, especialmente para uma banda autoral como a “Green Morton”. “A maior dificuldade ainda é chamar a atenção do público, convencer as pessoas a saírem de casa para assistir ao show de bandas que não conhecem é algo que não depende só de nós, mas também de um desenvolvimento social e cultural, e isso é moroso”. Para desbravar os males desta empreitada contam com o apoio de mídia e patrocinadores tanto para os eventos quanto na divulgação da arte que fazem.

ARTE
Voltando ao início, como para arrematar o círculo em torno da “Green Morton”, afinal a vida dá muitas voltas e é também circular, Zé entrega dicas de como chegou até aqui. “Minha família por parte de pai é bem musical, quase todos meus tios tocam algum instrumento, meu pai canta e por aí vai. Acho que desde pequeno sempre tive contato com a música por conta disso, no entanto, o rock não fazia parte desse contexto, inclusive era até visto com maus olhos!”, confessa. Para eliminar esse preconceito teve que ter contato com extinta emissora de televisão MTV Brasil, e os clipes de “bandas que tiveram grande impacto para mim nesse início, como ‘Aerosmith’, ‘Metallica’ e ‘Guns N’ Roses’”. Em sentido oposto, Júlio prevê o futuro promissor da banda. “Apesar de ainda nem termos lançado o nosso primeiro álbum, já começamos a composição de novas músicas, que poderão ser lançadas em um segundo, demo, ou até mesmo como singles, para sempre inovarmos e termos materiais inéditos que mostraremos ao nosso público”, ambiciona.

Fernando, em outra perspectiva, procura analisar o sentido da coisa. “Definir o que seja arte é algo bem complicado, mas dá para imaginar o que não é, por exemplo, música feita como planejamento de marketing não é arte, é produto. Partindo desse pressuposto talvez a arte seja aquilo que materializa sentimentos com sinceridade. Acreditamos que pessoas podem sentir satisfação pessoal através da identificação com a nossa música, talvez seja aí que arte e entretenimento se misturem. Então a resposta é sim”, para a pergunta sobre um casal formado pela diversão e o mérito de uma obra. E vem de todos eles a recomendação para os curiosos do rock na capital. Ouçam ‘King Size Box’, ‘Lively Water’, ‘Zonbizarro’, ‘Dielogue’, ‘Refuzer’, ‘Kiler Klowns From Outer Space’, ‘Tempo Plástico’, ‘Isso’, ‘Duna Brisa e Chama’, ‘Elizia’, ‘Alexandre da Mata & The Black Dogs’ e várias outras que movimentam a cidade. O objetivo também é o mesmo. “Fazer música que dê orgulho, tocar bastante, divertir com os amigos, conseguir emocionar as pessoas de uma forma positiva com nosso som”. Mas nunca ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

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Raphael Vidigal

Fotos: Ana Jardim; e logo criada por Zé Mário Pedrosa, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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