Elza Soares se apresenta no festival IMuNe ao lado de Djonga e Renegado

*por Raphael Vidigal

“A criança era tão sem graça quanto mingau, mas o rosto da mãe estava maravilhado. Podia-se acreditar que o bebê era feito de seda. Podia-se pensar que o bebê era incrustado de diamantes. Podia-se perceber que o bebê era amado. A mãe segurava a mãe, que segurava o bebê, um emaranhado de braços comuns de mulheres comuns.” Lesley Nneka Arimah

Os tiros que fulminaram Marielle há 925 dias ainda ecoam, já que, até hoje, o Estado não identificou os mandantes do assassinato. Aquela noite sinistra de março de 2018, quando o seu motorista Anderson também foi executado, parece que nunca mais se dispersou. Na fatídica sequência, o ex-presidente Lula foi preso, abrindo espaço para a eleição do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro, defensor da tortura, da ditadura militar, do trabalho infantil e escravo, com uma pauta anticomunista três décadas após a queda do Muro de Berlim. Dali poucos dias, Elza Soares realizou um show gratuito em Buenos Aires, na Argentina, e discursou para o público presente: “Querem matar os nossos sonhos, prender as nossas liberdades, não irão conseguir. Viva a democracia!”.

“Não é só a Marielle Franco não, gente. É triste saber que até hoje ninguém descobre quem foi o assassino da Marielle, mas qualquer mulher assassinada nesse país é muito triste, nesse mundo de meu Deus”, lamenta a cantora. Vereadora pelo PSOL, negra, bissexual, favelada, Marielle representava todas essas mulheres a quem Elza emprestou sua voz e sua história com “Maria da Vila Matilde”, música lançada no apocalíptico disco “A Mulher do Fim do Mundo”, revolvendo agruras que ela mesma sentiu na pele. “Sempre digo para discar 180 e ter coragem de denunciar, sem preconceito. Mesmo denunciando já é difícil, imagina se não denunciar?”, conclama Elza, principal atração do festival IMuNe (Instante da Música Negra), que acontece nesse sábado, 20h, em Belo Horizonte, com transmissão pelo YouTube.

Pandemia. A atual edição teve que se adaptar à realidade da pandemia do novo coronavírus, responsável pela morte de quase 140 mil brasileiros em cerca de seis meses. O palco montado no Centro Cultural Lá da Favelinha, no Aglomerado da Serra, será reproduzido em fachadas da região e do Centro da cidade, para que os moradores consigam assistir de suas janelas, sem sair de casa. “Significa muita coisa, qualquer pessoa ficaria feliz em ser portadora de uma voz tão grande como esse festival”, agradece Elza, a homenageada da vez, que guarda segredo sobre o repertório. “É completamente surpresa”, disfarça. Ao cantar, ela terá a companhia de Flávio Renegado. Eles foram apresentados por intermédio do empresário Pedro Loureiro, outro mineirinho dessa boa safra.

“Renegado é um presente de Deus, que a gente ganha não sabe como, mas merece”, exalta Elza. Em julho, a dupla colocou na praça o videoclipe “Negão Negra”, parceria do rapper com Gabriel Moura. As imagens trazem cenas impactantes e palavras de ordem. “A cada 23 minutos 1 jovem negro morre na favela”. “Parem de nos matar!”. “Ele Não, Hip Hop Sim!”. “Mulher Artista Resista”. “Vidas Negras Importam!”. “Contra o genocídio da juventude negra”. “Racismo é um vírus”, são frases que tomam os cartazes. Surgem, depois, notícias de jornais escabrosas: “Exército dispara 80 tiros em carro de família no Rio e mata músico”. “Tiro que matou Eduardo no Alemão partiu de PM, mas nenhum é indiciado”. “Assassinatos de negros no país crescem 29% enquanto de brancos caem 25%”.

Luta. A esperança é a multidão que invade as ruas. Entre elas está Marielle, com o rosto cheio de paixão e vida. Sua viúva, Monica Benicio, será candidata a vereadora no Rio. “Nunca foi fácil, nunca será/ Para povo preto do preconceito se libertar/ Sempre foi luta/ Sempre foi porrada/ Contra o racismo estrutural barra pesada”, entoa Elza, eleita a Voz do Milênio pela BBC de Londres, em “Negão Negra”. “Essa música é tão importante para os dias de hoje. Não é só para o Brasil, não, cara. É para o mundo todo”, alerta ela. No mês de maio, quando o estrangulamento de George Floyd, um homem negro, por um policial branco, desencadeou uma onda de protestos nos Estados Unidos, Elza se comoveu e disse: “Foi uma coisa que me machucou muito, mas eu só posso sentir e sofrer”.

Não demorou um mês para que Guilherme, um jovem negro de 15 anos, fosse assassinado por um sargento da polícia militar na favela de Vila Clara, em São Paulo. Incentivadas pelo governador João Doria, as mortes provocadas pela polícia subiram 53% no Estado. Mestre de cerimônias do festival este ano, Djonga encarnará Kalunga, que, indo ao fundo das raízes da diáspora africana, percebe o desmoronamento do planeta Terra a cada pessoa negra morta violentamente. Além dele, a banda IMuNe, formada por Bia Nogueira, Cleópatra, Gui Ventura, Maíra Baldaia, Raphael Sales e Rodrigo Negão; Meninos de Minas, Favelinha Dance e MC Dellacroix irão clamar pelo fim do genocídio da população negra de um país onde eles são maioria: muitos e muitas vozes de valor e fibra.

Esperança. É com a palavra “esperança” que Elza define “Juízo Final”, clássico de Nelson Cavaquinho regravado por ela em julho, lançado a bordo de um videoclipe esperto que a transformou em desenho animado e não teve dúvidas em apontar o vilão cadavérico que atualmente ocupa Brasília. Antes, em abril, ela foi atrás de “Carinhoso”, dos mestres Braguinha e Pixinguinha, que tocou com vontade no Dia dos Namorados. Ali, elegeu o amor como farol supremo de suas ações. “São músicas que falam fundo na gente e precisavam ser ditas. A hora era essa”, garante. Nonagenária, a intérprete é sincera: não se lembra da primeira vez que as ouviu. “Sei que foi tão bom que ficaram gravadas”. Quando “Carinhoso” estourou nas rádios com Orlando Silva em 1937, ela tinha sete anos.

“Juízo Final” a encontrou na maturidade, mas em um período conturbado. Em 1975, ela voltou ao Brasil grávida do único filho que teve com Garrincha, e que morreria em um acidente de carro, aos 9 anos. O casal se exilou em Roma, na Itália, durante seis anos, depois que agentes da ditadura militar metralharam a casa em que moravam. Mas Elza sempre teve a música como aliada, tanto que gravou, naquele mesmo ano, “Nos Braços do Samba”, que tinha uma composição de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito: “Saudade, Minha Inimiga”. “A gente sente a música, ouve a letra, o compositor e grava. Tem uma importância não só para mim, como para todos que ouvem”, afirma, realçando o espírito de comunhão de sua arte. Inquieta, ela participou em agosto de “Onze”.

Tempo. Tributo a Adoniran Barbosa, o projeto descobriu 11 faixas inéditas do autor de “Trem das Onze”, esperando para serem gravadas e deixarem as gavetas rumo à existência. Coube a Elza interpretar “Vaso Quebrado”. “Você cutucou meu coração/ Com a vara curta do amor/ Depois acenou e me deixou/ Curtindo essa imensa dor/ E disse pra eu ter muita paciência/ Da tolerância nasce a flor/ Vê se manca e volta depressa/ Não me deixe assim sofredor”, destila a cantora, saboreando a fresca cicatriz dessa dor de cotovelo arrependida. Ela e Adoniran se conheceram nos estúdios da TV Record, em São Paulo, no época dos festivais. “Mas não tive muita intimidade com ele não, era uma pessoa bastante fechada”, revela. Aberta ao novo e atenta ao tempo, Elza canta no trailer da série “Bom Dia, Verônica”, sobre uma mulher forte, obstinada.

Fotos: Jorge Bispo/Divulgação.

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Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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