Amanda Magalhães estreia o disco ‘Fragma’, canta com Liniker e Seu Jorge

*por Raphael Vidigal

“Sonho é a alma que não dorme com o corpo” Helena Morley

Amanda Magalhães olhava para o pai ao piano sem saber que ele era filho de um revolucionário. Acontece que o avô fundara na década de 1970, em plena ditadura militar, a banda que chacoalhara as estruturas e os costumes da música brasileira, a ponto de se confundir com um movimento de contracultura que, no fundo, eram uma coisa só. Em 2018, o Movimento Black Rio foi reconhecido Patrimônio Cultural Imaterial do Rio, tendo como principal símbolo o LP “Maria Fumaça”, de 1977, lançado pela banda Black Rio, de Oberdan Magalhães, cuja neta acaba de lançar o primeiro disco. “Eu, bem novinha, lembro de olhar com admiração grande e me embalar com o som das canções que meu pai tocava ao piano”, conta Amanda. Seu pai, William Magalhães, hoje está à frente da Black Rio, que, no ano passado, voltou à ativa com o elogiado “O Som das Américas”.

Ela decidiu que queria ser cantora enquanto estudava teatro na Escola de Arte Dramática, e, a pedido da diretora de uma peça, se viu impingida a soltar a voz. Acostumada a cantarolar com a água do chuveiro caindo sobre a cabeça, Amanda se viu em tal situação diante de uma plateia pela primeira vez. E se encantou. Carregando no peito a presença musical da família, ela ainda traz a tiracolo influências de Elis Regina, que a mãe a habituou a escutar na infância. E, mais tarde, por conta própria, acrescentou a esse caldo Nina Simone, Alicia Keys, Nora Jones, Amy Winehouse, a australiana Nai Palm e a banda britânica Jamiroquai. Mas Amanda também compõe, como comprova “Fragma”, com nove faixas de sua lavra, entre elas “Saiba”, parceria com Seu Jorge lançada como single em 2019. “O que me inspira a compor são as minhas experiências”, afirma.

Autoral. Ela garante que o processo de composição é “bem livre”. “Várias vezes boto no papel o que vivo em forma de texto, engaveto durante um tempo e, dali um tanto, de repente me vem aquilo e vira música. Por vezes estou sentada no piano ou no teclado, com alguma harmonia na cabeça, e crio a partir dali. É algo que vai se construindo de acordo com o momento, sem um modelo fixo”. No caso de “Esperando a Lua”, que fecha o álbum, o estopim foi uma discussão. Amanda pegou o costume de gravar no meio da madrugada, quando “a cidade e as demandas paravam”. Essa troca do dia pela noite levou ao descontentamento de seu companheiro, com uma rotina inversa. Ele acordava e a cantora se preparava para dormir. “Ele veio dar uma reclamadinha, dizendo ‘nêga, vamos dormir juntos’, e rolou até uma discussão”, relembra ela, que saiu para fumar.

Olhando para a lua, pensou nesses “desencontros, junto com a certeza de ter alguém do seu lado para o que der e vier”. “Quando a noite cai/ Eu sei que você vai estar lá/ Beija a minha cara amarrotada, baby/ Gosto que você queira ficar”, canta ela no disco, ao som de um ritmo suingado, romântico, negro, pura soul music brasileira. “Acho que a importância da música soul no Brasil é a mesma de quando essa onda surgiu por aqui, nos anos 70, que remonta à chegada do soul e do funk norte-americanos, com essa representatividade de artistas, conteúdos e canções que formaram um levante da autoestima do negro no Brasil”, reflete. “O Movimento Black Rio é muito sobre isso, um enriquecimento para a nossa cultura, ao passo que essa fusão de ritmos norte-americanos sofreu uma mistura inegável dos ritmos brasileiros, como o samba-funk”, complementa.

Batismo. Apesar de ter a incrível banda Black Rio como expoente desse caldeirão sonoro que congregava Carlos Dafé, Sandra de Sá, Macau, Gerson King Combo, Tony Tornado, Cassiano, Hyldon e Tim Maia, que se tornou o mais pop, o retorno não foi à altura do tamanho daquela maré. “Acredito que esse lugar de menos destaque tem muito a ver com o hábito do consumidor de música no Brasil gostar muito do que se faz na gringa, mas ter uma certa rejeição, um pé atrás, quando é feito aqui, ainda que com uma releitura, uma apropriação para o nosso jeito. É um palpite”, diz Amanda, que alia esse fato ao “boom de outros gêneros que, nos últimos anos, tomaram um protagonismo hegemônico na cena, deixando pouco espaço para os demais”. A despeito de escanteado a uma vista mais descuidada, ela está disposta a recuperar o lugar ao sol do soul.

“Fragma” tem, entre outras, essa intenção. A palavra que batiza o álbum foi inventada pela anfitriã, que se concentrou na imagem refletida. “Veio na minha cabeça essa palavra, que é uma espécie de síntese de prisma e fragmentação”, explica. O repertório reúne canções escritas ao longo dos anos, a partir de enlaces e desenlaces amorosos. “É um disco sobre afetos, os amores que vivi e sofri. Uma colcha de retalhos”. Em “Talismã”, que ganhou videoclipe filmado dentro de um estúdio, ela tem a companhia de Liniker. “Essa música é a minha ‘xodozinho’, a preferida. Acompanhava o trabalho da Liniker e achava que tinha tudo a ver comigo”, diz. As duas se conheceram graças a um amigo em comum e começaram a trocar figurinhas sobre música, o que reforçou a afinidade musical e a levou desse campo para o pessoal. “Fiquei honradíssima”, enaltece.

Tempo. “A Liniker é uma dessas pessoas que está na linha de frente do soul que se faz hoje em dia no Brasil, com o alcance de uma galera jovem e, ao mesmo tempo, o resgate dessa raiz. A família dela é do samba-rock, tem esse rolê. Muita coisa casou, imaginei que a música tinha muito a ganhar com essa potência da voz da Liniker. E ganhou”. Longe dos palcos por conta da pandemia do novo coronavírus que já vitimou quase 140 mil brasileiros, Amanda tem lidado com a quarentena imposta pela doença encarando um dia de cada vez. “Vivemos um momento difícil. São tantas incertezas que, se a gente não busca respirar fundo, fica tudo ainda mais complicado. Tenho entendido assim, precisamos lidar com o fato de que não temos um amanhã claro, não tem nada muito definido”. O cenário político é tão desalentador quanto a enfermidade provocada pelo vírus.

“A gente vinha vivenciando bastante essa polarização e agora, no meio de tudo, temos um desgoverno completo. O papel da arte é trazer algum tipo de conforto e reflexão para as pessoas que estão dentro de suas casas. Precisamos parar e refletir sobre o rumo e o ritmo de como as coisas vinham acontecendo. É uma hora para se reavaliar e avaliar o entorno. A arte também pode ser uma ferramenta de conexão entre as pessoas. Desde que tudo isso começou, quantas vezes não tenho escutado como um livro, um filme e uma canção pode salvar os dias de alguém. Estou falando por mim também. Estamos muito carentes de qualquer coisa que nos alimente. Tenho me segurado na cultura e na arte para passar por isso”. O videoclipe colorido de “O Amor Te Dá” pode ser esse respiro na alma de quem sente saudades de um país carnavalesco e latino.

Fotos: Lydio Alexander/Divulgação; e Bia Pinho/Divulgação, respectivamente.

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Raphael Vidigal

Formado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, atua como jornalista, letrista e escritor

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